Paul Yeung/Bloomberg
Paul Yeung/Bloomberg

Dólar sobe a R$ 5,76 com cenário tenso no governo brasileiro; Bolsa sobe 0,6%

Saídas dos ministros das Relações Exteriores e da Defesa ajudaram, somada a volume recorde de emendas parlamentares no Orçamento, a alimentar a aversão dos investidores ao risco

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 09h25
Atualizado 29 de março de 2021 | 18h18

O dólar fechou em alta de 0,44%, a R$ 5,7663 nesta segunda-feira, 29, dia em que dois ministros deixaram o governo Bolsonaro. Além disso, investidores continuaram receosos com o Orçamento, e evitaram o risco, após a aprovação de um volume recorde de emendas por parlamentares. Já a Bolsa brasileira (B3) fechou em alta de 0,56%, aos 115.418,72 pontos, com apoio das ações das commodities.

Na máxima, moeda americana subiu a R$ 5,80 - já o dólar para abril fechou com ganho de 0,42%, a R$ 5,7830. Na avaliação de Thomás Giuberti, economista e sócio da Golden Investimentos, a pressão câmbio que se vê desde a semana passada tem nome e sobrenome: o governo flertando com as pedaladas fiscais, com Orçamento inflado e as contínuas saídas dos ministérios.

A peça orçamentária aprovada pelo Congresso deve continuar sendo um problema para os investidores, principalmente após a própria equipe econômica dizer que o texto aprovado é "inexequível". O volume recorde de emendas aprovadas, de R$ 48,8 bilhões, é um dos pontos mais questionados

Além disso, a velocidade com a qual o real se desvalorizou frente à moeda americana também foi uma resposta para problemas vistos no final de semana, que envolveu o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e congressistas, em especial a senadora Kátia Abreu. "Tanto que, depois de oficializada a saída de Araújo, houve um desmonte de posições, levando o dólar a uma queda adicional junto com o retorno do DXY naquele momento. Agora o mercado espera quem vai entrar no lugar. Mas a saída foi positiva", complementou Giuberti.

Depois de Araújo pedir demissão, o governo teve mais uma baixa nesta segunda. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, comunicou por meio de nota oficial divulgada pela assessoria estar deixando a pasta. No momento, o dólar que já estava arrefecido, oscilando em torno de R$ 5,74, acelerou para a marca dos R$ 5,77.

Para Vanei Nagem, responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, a saída de Azevedo, pode ter se dado em um movimento para acomodar pedidos do chamado Centrão e é mais um fator que mostra a desorganização do governo. "O governo mostra que não está coeso", disse.

E, um pouco antes do fechamento do mercado, fontes disseram ao Estadão/Broadcast que o presidente Jair Bolsonaro deve mudar o comando também da Advocacia-Geral da União, hoje ocupado por José Levi. "Dizem que o dólar não mente, pode até levar alguns dias, mas a verdade aparece", ressaltou Giuberti a respeito da conjuntura negativa que se instalou no País.

Mesmo nos momentos em que a moeda americana foi à casa dos R$ 5,80, o Banco Central se absteve. Para o sócio da Golden Investimentos, ao deixar o dólar ir, a autoridade monetária mostra que reconhece o risco fiscal persistente e não faz sentido ir contra a maré.

Ele ressalta ainda sobre o rebote de um dólar alto sobre a inflação, que persiste, e coloca em dúvida a necessidade de o Banco Central apertar mais forte a política monetária já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). "Está com cara de que o dólar vai ficar alto mesmo. Será que o BC vai ter de elevar em um ponto porcentual a Selic? O Roberto Campos Neto [presidente do BC] disse que subiria 0,75 a não ser que houvesse algo mais extraordinário e o dólar nesse nível pode ser isso".

Bolsa

Em dia de bom desempenho para empresas com receita em dólar e exposição à demanda externa, como as de commodities, siderurgia e parte dos frigoríficos, o Ibovespa conseguiu se manter em alta, apesar do cenário político brasileiro. Faltando duas sessões para o fim do mês, o índice acumula ganho de 4,89% em março, limitando as perdas do ano a 3,02%.

Após alerta sobre prejuízos em bancos estrangeiros, como Credit Suisse e Nomura, em razão de um fundo americano não ter cumprido compromissos, o desempenho misto do setor financeiro, com Santander e Bradesco em quedas de 2,93% e 0,73% cada, de maior peso no Ibovespa, foi o contraponto ao avanço dos segmentos de commodities, com Vale ON e Petrobrás PN em altas de 2,56% e 1,58% cada, em dia de forte alta, de 4,08%, no minério de ferro na China, a US$ 167,88 por tonelada.

"Os papéis ligados ao mercado externo, com receita dolarizada, como os de commodities e parte dos frigoríficos, vêm performando muito bem, nessa aposta em ações com exposição a países com perspectiva de recuperação mais clara do que o Brasil. As empresas ligadas ao setor interno continuam sofrendo mais, como varejo e construção civil", diz Romero Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos, em Vitória.

Além disso, a Bolsa brasileira monitorou o exterior, principalmente ante o novo avanço do mercado de títulos do Tesouro americano. Hoje, a taxa de rendimento do papel com vencimento para 10 anos voltou a disparar para o patamar de 1,7%. Em resposta, os índices de Nova York fecharam mistos, com Dow Jones em alta de 0,30%, batendo novo recorde histórico, enquanto S&P 500 e Nasdaq caíram 0,09% e 0,60%. /SIMONE CAVALCANTI, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.