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Bolsa fecha com queda de 1,15% e dólar fica a R$ 5,63 ainda com Renda Cidadã no radar

As polêmicas continuam em torno no programa que substituirá o Bolsa Família, com o mercado ainda vendo uma chance de 'calote' e 'drible no teto' na forma de financiamento da medida

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 09h15
Atualizado 29 de setembro de 2020 | 18h41

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, manteve o tom cauteloso visto no final da tarde desta terça-feira, 29, e encerrou com queda de 1,15%, aos 93,580,35 pontos (menor nível desde 16 de junho), em meio às incertezas sobre o Renda Cidadã, programa que irá substituir o Bolsa Família e que continou sendo alvo de polêmicas no pregão de hoje. Além disso, a aversão aos riscos vinda do mercado acionário de Nova York antes do debate eleitoral para a presidência dos EUA também pesou nos ativos e ajudou o dólar a continuar firme ante o real, fechando com leve alta de 0,07%, a R$ 5,6393.

Para o UBS Brasil, a proposta do governo de limitar a 2% o pagamento de precatórios e usar 5% do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento de Educação Básica (Fundeb) para financiar o programa pode ser interpretada como forma de contornar as regras fiscais definidas após o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef em 2016. No caso dos precatórios, pode representar um adiamento seletivo da dívida existente, diz o banco. 

 

Ainda sobre o tema, nesta terça, o secretário do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, disse que as propostas em estudo para o financiamento do Renda Cidadã não têm intenção de driblar o teto de gastos. Ele também avaliou que a proposta do governo em adiar o pagamento de precatórios não tem nenhuma relação com um potencial “calote” também em títulos da dívida. A declaração veio após o presidente Jair Bolsonaro ter dito pela manhã que não estava mandando um recado para o "pessoal do mercado", mas afirmar que "se o Brasil for mal, todo mundo vai mal".

"O Ibovespa chegou até a trabalhar no positivo na abertura, com rumores de que o plano seria revisto, mas logo depois o relator da PEC do Pacto Federativo, Márcio Bittar, confirmou que a proposta não será alterada e tem o aval de Bolsonaro", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. O bom senso dos comentários de Funchal e Bolsonaro chegou a contribuir para que o  Ibovespa, principal índice de ações do mercado brasileiro, limitasse as perdas do dia, então um pouco abaixo de 1%, mas o movimento não se manteve.

Na mínima do dia, o Ibovespa caía aos 93.408,17 - menor nível intradia desde 24 de junho (93.259,07).  O dia negativo no exterior, em meio à expectativa para o primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden na disputa pela Casa Branca, contribuiu para que a B3 seguisse no terceiro pregão consecutivo de queda. Hoje, Dow Jones e S&P 500 caíram ambos 0,48%, enquanto o Nasdaq teve baixa de 0,29%. Na semana, o Ibovespa acumula perda de 3,52%, elevando a do mês a 5,83% e a do ano a 19,08%.

Com a aversão ao risco político, as perdas se distribuíram por empresas e setores na sessão, com algumas exceções notáveis, como WEG, com 3,26%, Lojas Americanas, com 2,05% e Natura, com 1,97%. Na ponta oposta do Ibovespa, Azul cedeu hoje 7,71%, seguida por Gol, com 5,72% e Embraer, com 4,09%. Entre as commodities, destaque para queda de 2,82% em Petrobrás On em dia ruim para o petróleo no exterior:  o Brent para dezembro encerrou com queda de 3,05%, a US$ 41,56, enquanto o WTI teve baixa de 3,23%, a US$ 39,29.

Câmbio

O mercado de câmbio teve uma sessão volátil hoje, mas bem menos tensa que a de ontem, quando o dólar fechou no maior nível em quatro meses e investidores estrangeiros elevaram apostas contra o real em US$ 1,3 bilhão no mercado futuro da B3. À espera dos desdobramentos e detalhes sobre o financiamento do Renda Cidadã  e ajudado pela queda da divisa dos Estados Unidos nos emergentes e países exportadores de commodities, antes do primeiro debate presidencial no país, o dólar fechou perto da estabilidade.

"Ainda está tudo muito obscuro sobre o Renda Cidadã. É tudo o que o mercado não precisava neste momento de elevada incerteza", avalia a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto. Entre as principais dúvidas, ela ressalta que os investidores querem saber qual o impacto fiscal do programa e como fica o efeito nos bancos, que têm muitos precatórios em carteira. "O ideal era que ontem já fosse apresentada a proposta concreta, com os detalhes."

O estrategista da TAG Investimentos, Dan Kawa, comenta que após a forte reação negativa, a expectativa é que parte da proposta - que inclui um “fura teto” e uma “pedalada fiscal” - seja abandonada. "Fica clara a incapacidade deste governo e do Congresso em avançar com medidas de ajuste fiscal focadas na contenção de custos." A esperança, observa Kawa, é que o ajuste fiscal prossiga, mas os sinais são preocupantes. Nesse ambiente, ele espera muita volatilidade nos mercados até o final do ano.

Bolsas do exterior

O pregão forte do dia anterior em Nova York favoreceu o mercado asiático, que fechou em alta nesta terça. As bolsas de Xangai e Shenzhen tiveram ganhos de 0,21% e 1,01% cada, enquanto o japonês Nikkei subiu 0,12% e o sul-coreano Kospi teve alta de 0,86%. Em Taiwan, o índice Taiex encerrou em alta de 0,04%. A bolsa australiana fechou estável.

No velho continente, pesou o aumento das incertezas com o avanço do coronavírus no continente. A bolsa de Londres caiu 0,51%, a de Paris teve recuo de 0,23% e Frankfurt cedeu 0,35%. Milão, Madri e Lisboa tiveram baixas de 0,52%, 1,15% e 1,35% cada. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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