Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa sobe 1,24% e dólar cai a R$ 5,76, mesmo com crise entre governo e militares

Perspectiva de aceleração da vacinação e de reabertura gradual da economia animaram o investidor no penúltimo dia do mês e do trimestre

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 09h32
Atualizado 31 de março de 2021 | 07h57

A Bolsa brasileira (B3) reagiu com indiferença ao aumento da temperatura em Brasília, em meio à repentina troca de comando das Forças Armadas por iniciativa do presidente Jair Bolsonaro nesta terça-feira, 30, e fechou com alta de 1,24%, aos 116.849,67 pontos. No câmbio, o dólar também foi pouco afetado pelo noticiário político e, após subir pela manhã, perdeu força e encerrou em queda de 0,08%, a R$ 5,7619.

"No Brasil, a reforma ministerial sinaliza mais proximidade do governo com o Congresso, o que agrada, em um cenário fiscal ainda complicado. Com isso, o real performou bem, favorecendo o Ibovespa desde a manhã, assim como a perspectiva de aceleração da vacinação e de reabertura gradual da economia", diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos. "O real teve desempenho mais forte, na contramão dos pares emergentes, como rublo e peso mexicano", completa.

Assim, descolado do dia moderadamente cauteloso em Nova York, onde Dow Jones e S&P 500 caíram 0,13% cada e Nasdaq teve baixa de 0,11%, a proximidade do fim de mês e trimestre, amanhã, suscitou um ajuste nas carteiras, favorecendo as compras de ações, com diversas ofertas de desconto. Na Bolsa, o desempenho negativo dos papéis ligados a commodities nesta terça, com Petrobrás ON e Vale ON em quedas de 0,30% e 0,93% cada, foi compensado com folga pelo avanço das ações de bancos. Com Banco do Brasil ON e Bradesco ON com ganhos de 3,09% e 2,35%. Siderurgia também chamou atenção, com Gerdau PNCSN em altas 1,59% e 1,21%.

A leitura amena do mercado sobre o afastamento dos comandantes de armas decorre da percepção, nas palavras de um gestor, de "cortina de fumaça, mais uma", do presidente Bolsonaro para desviar atenção dos problemas reais, relacionados à fraca economia e à dificuldade em lidar com a pandemia, em momento no qual ainda disputa protagonismo com governadores, especialmente o de São Paulo, João Doria.

A expectativa é de que mesmo sob novo comando, ainda que mais alinhado ao Planalto, as Forças Armadas preservarão seu papel institucional, dissociado da política. O afastamento simultâneo dos três chefes das forças, contudo, é considerado sem precedentes, no que configuraria a maior crise entre poder civil e militar desde o início da redemocratização, em 1985.

Ainda assim, mais do que à cena político-institucional, a atenção do mercado segue concentrada na situação fiscal, especialmente após a aprovação do controverso Orçamento para 2021, com subestimação de despesas de custeio para encaixar emendas propostas por parlamentares. Hoje, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez um apelo ao governo e parlamentares para que os acordos caibam nos orçamentos. "O nosso apelo final é para que os acordos políticos caibam nos orçamentos públicos", disse Guedes durante apresentação dos dados do Caged de fevereiro, acima do esperado, o que mais uma vez contribuiu para desempenho positivo do Ibovespa.

"Quanto ao Orçamento de 2021, Guedes disse que os gastos no rastro da pandemia poderiam ser excepcionalidades, desde que limitados e ligados à covid-19, ainda reforçando que a vacinação em massa é a missão e obrigação do governo", observa em nota Heloïse Sanchez, analista da Terra Investimentos.

Por sua vez, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), admitiu nesta tarde a possibilidade de o Congresso abrir mão de emendas parlamentares para cumprir o Orçamento deste ano. Ele afirmou, porém, que o projeto aprovado na semana passada foi negociado com o governo do presidente Jair Bolsonaro e que ainda é preciso avaliar a necessidade de manutenção ou alteração. A equipe econômica aponta a necessidade de cortes para cumprir o teto de gastos neste ano.

Câmbio

Pelo segundo dia consecutivo, o dólar subiu a R$ 5,80 em uma manhã de volatilidade para depois arrefecer na etapa vespertina dos negócios. O movimento de apreciação do real, que também foi positivo nos ativos domésticos hoje, contrasta com um exterior ruim, onda as cotações dos contratos futuros de petróleo recuavam, as moedas de pares emergentes perdiam valor frente à divisa americana e, ainda, os principais índices das Bolsas de Nova York operavam no vermelho. Neste último dia antes do fechamento do trimestre, o comportamento dos ativos locais em direção oposta ao exterior pode ser explicado por uma tendência técnica de ajuste de carteiras.

"O chamado 'embelezamento das carteiras' leva o movimento para a contramão dos sinais externos, mesmo diante do caos político e sanitário no qual o país está envolto", afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, que nota que os investidores, ainda assim, estão vendo todo o cenário negativo, tanto que o Credit Default Swap (CDS) de 5 anos do Brasil, termômetro do risco-País, avançou à marca dos 231.39 pontos nesta tarde, ante 228.38 pontos na véspera.

Para Mauro Morelli, estrategista da Davos Investimentos, nos últimos dias, o real estava muito pressionado e houve uma melhora hoje. "Não vejo grande mudança de cenário, apenas houve um retorno do exagero que estava tendo", afirmou, ressaltando que a sessão tem ares de correção técnica.

O dólar à vista encerrou o dia cotado a R$ 5,7619, em baixa de 0,08%, mas oscilou no range entre R$ 5,8024, na máxima intraday e R$ 5,722, na mínima. Dos pares do real que apreciaram frente ao dólar foram poucos. O dólar para abril fechou em alta de 0,13%, a R$ 57755.

"Tenho a impressão de que 2021 não existe, pois estamos em 2020 do ponto de vista da pandemia e em 2022, do político", avaliou o gestor da Davos Investimentos. Luís Bresaola, trader da mesa de câmbio também da Davos Investimentos, diz que os sinais do mercado não estão claros e que, enquanto o país não resolver suas questões políticas, não atrairá recursos externos. "No momento, não tenho visto um fluxo de entrada", disse. /LUÍS EDUARDO LEAL, SIMONE CAVALCANTI E MAIARA SANTIAGO

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