Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Bolsa fecha em queda de 1,5% e dólar vai a R$ 5,34 com aversão aos riscos em Nova York

Aumento das tensões EUA-China seguraram os ganhos do Ibovespa, que passou ainda por realização de lucros típica de fim de mês, mas terminou novembro com ganho superior a 15%

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 09h30
Atualizado 30 de novembro de 2020 | 19h06

Após cinco altas seguidas, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou com queda de 1,52%, aos 108.893,32 pontos nesta segunda-feira, 30, em uma realização de lucros típica de fim de mês. O recuo ocorreu em sintonia com o mercado acionário de Nova York, que teve um dia de aversão aos riscos após o aumento das tensões entre Estados Unidos e China. A cautela no exterior manteve o dólar em alta tanto frente ao real quanto em relação a outras moedas, e fez a divisa americana fechar com alta de 0,39%, a R$ 5,3462.

Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, ressalta que o Ibovespa encerrou o penúltimo mês do ano na faixa de 110 mil pontos, justamente a marca que foi perdida no começo de março deste ano e que abriu caminho para a queda vista até 61.690, na mínima de 2020. "Para se ter uma ideia de quão forte foi a recuperação engatilhada neste mês estamos a pouco mais de 9% da máxima histórica em 119.593 pontos e 5% de zerar as perdas de 2020 em vista das perspectivas negativas geradas pela covid-19".

Com o desempenho, a Bolsa termina novembro com ganho de 15,90%. Ainda assim, não foi possível reverter a perda acumulada em 2020, de 5,84%. O giro financeiro chegou a R$ 51,4 bilhões. A evolução foi bastante influenciada pelo fluxo de investimentos estrangeiros. De acordo com a B3, até o dia 26, o saldo de entrada foi de R$ 31,462 bilhões, o maior nível da série de dados mensais desde 1995. Mas, no ano, o saldo de retiradas ainda é de R$ 53,424 bilhões.

Para Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos, novembro marcou a melhor performance histórica em um mês do Ibovespa, mesmo com a correção de hoje. "Bem diferente de janeiro a outubro - quando os estrangeiros retiraram da bolsa brasileira mais de R$ 65 bilhões - , em novembro, ingressaram com cerca de R$ 30 bilhões, R$ 34,7 bilhões acima do saldo de todo o ano de 2019, quando teve um saldo negativo de R$ 4,7 bilhões.

Na sessão desta segunda-feira, ressalta Carlos Eduardo Pinheiro Corrêa, head de produtos da Speed Invest, o recuo das empresas ligadas a commodities, como Petrobrás e Vale, ajudo negativamente uma vez que têm peso significativo no índice. "A Petrobrás, por exemplo, que vinha performando bem cedeu à queda do petróleo em razão da indefinição da Opep", disse.

Já a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) informou que a reunião de hoje do cartel terminou hoje e continuará amanhã. Segundo fontes informaram à Dow Jones Newswires, o grupo ainda não tomou uma decisão a respeito de uma possível prorrogação do acordo que prevê cortes na produção da commodity para o ano que vem. Em resposta, WTI para janeiro fechou em baixa de 0,42%, a US$ 45,34 o barril, enquanto o Brent para fevereiro teve queda de 0,77%, a US$ 47,88 o barril. Com a indefinição, Petrobrás PN caiu 2,35%.

As ações das varejistas de e-commerce também sofreram na sessão de hoje, principalmente após o governador de São Paulo, João Doria, anunciar que, a partir de amanhã, todo o Estado retorna à Fase 3 Amarela do Plano São Paulo de quarentena. B2W ON perdeu 8,11%, seguida por Via Varejo ON, com queda de 4% e Magazine Luiza ON, de 3,35%.

No exterior, o dia também foi negativo. Em Nova York, o Dow Jones caiu 0,91%, o S&P 500 recuou 0,46% e Nasdaq teve baixa de 0,06%. Porém, na comparação mensal, os índices saltaram cerca de 10%. Segundo a Reuters, Washington deve adicionar novas companhias do país asiático à chamada lista de entidades, que dificulta o acesso a compradores americanos.

Câmbio

O dólar operou volátil no último pregão de novembro, mas ainda fechou o mês acumulando queda de 6,8%, o maior recuo mensal em dois anos, desde outubro de 2018, quando a divisa dos Estados Unidos caiu 8%. Com isso, o real foi a moeda de emergente que mais ganhou força ante o dólar este mês, mas ainda segue com alta de 33% no acumulado do ano, o pior desempenho. Nesta sessão, o dólar teve dois momentos distintos. Caiu pela manhã a R$ 5,27, acompanhando o movimento de alguns pares internacionais, refletindo a entrada de fluxo no País e ainda a pressão dos vendidos na disputa pela definição do referencial Ptax de novembro, usado em contratos cambiais e balanços.

Pouco antes da última coleta de preços do Banco Central, renovou máximas, encostando em R$ 5,40, após o anúncio de novas sanções dos EUA contra a China. Este movimento ganhou ainda mais força em meio a uma última tentativa dos "comprados" em dólar conseguirem algum alívio das perdas no mês, destacam operadores. No fechamento, a moeda para janeiro terminou com queda de 0,22%, a R$ 5,3340.

Se as dúvidas sobre a imunização contra a covid e as eleições americanas se reduziram, o mesmo não aconteceu com a situação fiscal do Brasil, que permanece muito incerta, destaca o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni. Assim, a questão fiscal segue como limitador para uma valorização mais forte do real, destaca ele. A dúvida é se haverá alguma avanço agora após o segundo turno das eleições.

Nesta tarde, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) disse que não haverá prorrogação do estado de calamidade e da PEC da guerra, o que trouxe algum alívio nas mesas de câmbio. Mas ao mesmo tempo disse ter ficado assustado pelo governo não mostrar quais as prioridades na pauta. A consultoria americana de risco político Eurasia prevê que as votações fiscais ficarão para 2021./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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