Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Dólar cai 2,1% e Bolsa recua 0,2% em último pregão do mês e do primeiro trimestre

Sessão foi marcada por chance de mais estímulos nos EUA, mas também pela aversão aos riscos, com o mercado de olho no Orçamento e no avanço da covid no País

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 11h00

Na última sessão do mês - e também do primeiro trimestre -, o dólar fechou em queda de 2,13%, a R$ 5,6286, com investidores de olho em um novo pacote de estímulos americano, que pode ser anunciado ainda nesta quarta-feira, 31. Já a Bolsa brasileira (B3) teve queda de 0,18%, aos 116.633,72 pontos, com alta de 6% no mês e queda de 2% no período de três meses. O pregão foi marcado pela aversão aos riscos ante o cenário doméstico do País.

Principal preocupação do mercado, o material do Orçamento de 2021 foi enviado hoje ao presidente Jair Bolsonaro. No ofício encaminhado a ele, o relator, senador Marcio Bittar (MDB-AC), afirmou que fará o cancelamento de R$ 10 bilhões em emendas feitas o projeto, "para recomposições nas formas em que o governo federal entender adequadas". O Planalto tem até 22 de abril para decidir pela sanção e fazer vetos. Os R$ 10 bilhões são considerados insuficientes para que a verba seja considerada exequível. O Ibovespa chegou a perder a linha dos 116 mil pontos com a informação.

Além disso, com a taxa de desemprego a 14,2% no intervalo de três meses até janeiro, maior nível para o período na série histórica, e agora com recorde de desalentados, a pressão sobre o fiscal, às vésperas do reinício, na próxima semana, da distribuição do auxílio  mergencial, permanece sob o foco do mercado. A queda de braço entre demanda política e responsabilidade fiscal ganha novo ingrediente, com o Centrão agora alojado no Palácio do Planalto, com a deputada Flávia Arruda (PL-DF) na Secretaria de Governo, responsável pela articulação entre Executivo e Legislativo.

Para complicar o cenário, a força-tarefa contra a covid no Estado de São Paulo informou ter identificado nova variante do coronavírus em Sorocaba. O material genético do vírus foi analisado e, embora seja semelhante à variante sul-africana, não foi descartada a chance de ser uma nova cepa. "Também existe a possibilidade de que seja já uma evolução da nossa P1 em direção a essa nova mutação da África do Sul", disse o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas.

"Ajudaria se o comitê nacional, com presença dos presidentes da Câmara e do Senado, vier a recomendar participação mais ativa da iniciativa privada no combate à pandemia. O próprio ministro Paulo Guedes tem destacado a importância de ritmo maior para vacinação, em contraponto ao fiscal", diz Rodrigo Friedrich, head de renda variável da Renova Invest.

"A exemplo do que tem se observado nos países desenvolvidos, a vacinação em massa resulta em declínio do número de casos e em retomada da economia. O coronavírus continua no nosso dia a dia e, enquanto permanecer assim, será preciso cautela e seletividade (nos investimentos)", diz Bruno Moura, sócio e líder de operações da mesa de renda variável da BlueTrade.

Além dessas questões, o desempenho do Ibovespa foi afetado também pelo desempenho dos bancos, com Bradesco PN e Itaú PN em quedas de 2,16% e 1,93% cada. Na contramão, o dia foi positivo para as commodities, com Petrobrás ON e Vale ON em altas de 1,53% e 0,93% cada, e siderurgia, com CSN e Gerdau PN com ganhos de 2,79% e 2,58%. Na semana até hoje, o índice acumula alta de 1,61%.

Em Nova York, o mercado ficou misto, à espera de Joe Biden anunciar, ainda hoje um novo pacote de estímulos, agora voltado para o setor de infraestrutura, de aproximadamente de US$ 2 trilhões. S&P 500 e Nasdaq fecharam em altas de 0,37% e 1,54%, mas o Dow Jones caiu 0,25%.

Câmbio

Muito embora em queda forte hoje, que se acentuou na parte da tarde, o dólar encerra o mês de março praticamente no zero a zero, avanço de 0,41%. Entretanto, no primeiro trimestre a evolução foi de 8,48%, começando o ano no segmento à vista cotado a R$ 5,2681. No meio deste caminho encontrou o pico na casa dos R$ 5,80 no intradia. Hoje, na mínima, a moeda americana caiu 2,42%, a R$ 5,6226. 

O movimento na sessão de negócios desta quarta-feira esteve bastante alinhado com o de divisas de pares emergentes que ganharam força ante a moeda americana, ainda que os juros dos títulos do governo americano apontassem alta - o rendimento dos títulos do Tesouro americano com vencimento em dez anos chegou a 1,74590%. O real foi o que mais se valorizou na comparação com uma cesta de 34 moedas.

Para especialistas em câmbio, também houve certo alívio nas tensões políticas, a despeito do troca-troca ministerial, mas com a percepção de que o Congresso ganha força sobre o governo e a condução da crise sanitária. Segundo Fernanda Consorte, economista-chefe da Ouroinvest, embora tenha havido uma escalada nas últimas semanas, algumas derrotas do governo para o Congresso, que cresceu com isso, podem ter dado algum fôlego aos agentes do mercado e isso é espelhado na taxa de câmbio.

"Mas, ainda que recuando, o nível dos R$ 5,60 é muito alto e aponta para a conjuntura ruim que vivemos no país", ressalta. Hoje, o Credit Default Swap (CDS) de 5 anos do Brasil, termômetro do risco-País, recuou a 224.75 pontos nesta tarde após chegar a 231.82 pontos na véspera, de acordo com cotações da IHS Markit. /LUÍS EDUARDO LEAL, SIMONE CAVALCANTI E MAIARA SANTIAGO

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