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Coutinho perde espaço no governo

Presidente do BNDES passa por momento de distanciamento do Palácio do Planalto

JOÃO VILLAVERDE / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h08

Porta-estandarte da estratégia de consolidação de campeões nacionais no governo Lula, o economista Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vive um momento de depressão de seu prestígio político. Há sete anos no cargo, próximo da presidente Dilma Rousseff desde os anos 80, quando deu a ela aulas de Economia na Unicamp, Coutinho foi afastado da órbita do Planalto.

Desde antes do carnaval, Coutinho vem tentando se reunir com o novo ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. No último dia 13, esteve em Brasília, e se reuniu com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. No mesmo dia, pediu, pela segunda vez, um encontro com Mercadante, mas não conseguiu - o ministro acusou a agenda cheia, apesar de dividir a manhã entre despachos internos e uma cerimônia no próprio Planalto.

O presidente do BNDES tem fracassado, também, em obter o empréstimo de recursos do Tesouro relativo a 2014, para fazer frente aos contratos de crédito fechados com as empresas. O primeiro trimestre vai terminar e Coutinho ainda não sabe quanto terá à disposição. Pior: em fevereiro, o BNDES precisou transferir R$ 2 bilhões sob a forma de dividendos ao Tesouro para evitar um resultado pior das contas fiscais. O problema é inédito na gestão Coutinho, que sempre obteve do Tesouro e do governo o que precisava.

Coutinho falou ao telefone com o secretário do Tesouro, Arno Augustin, na quarta-feira, mas continuou sem indicações. A questão fiscal, deteriorada por manobras do Tesouro e pelas desonerações tributárias, tem atrapalhado especialmente o BNDES.

Derrocada. O distanciamento entre Coutinho e o Planalto começou em abril do ano passado. Ele foi avisado pela presidente Dilma, pouco antes da cerimônia que anunciou o Plano Inova Empresa, que seu braço direito no BNDES, o vice-presidente João Carlos Ferraz, seria substituído por Wagner Bittencourt, até então ministro da Secretaria de Aviação Civil (SAC). Coutinho, então, iniciou uma jornada de quase 20 dias em busca de um caminho que permitisse manter Ferraz com o poder que teve por seis anos.

A ideia inicial era tornar a estrutura do BNDES semelhante à do Banco do Brasil (BB) e da Caixa, que contam com vários vice-presidentes e, assim, manter Ferraz com o cargo. Dilma bloqueou o plano. Em seguida, Coutinho alterou pela primeira vez desde que o banco foi criado, em 1953, o estatuto da instituição, para criar uma sétima diretoria no banco e assim acomodar seu homem de confiança. No mês que vem, Ferraz completará um ano como diretor de planejamento, pesquisa e gestão de risco do BNDES.

Mais tarde, em julho, Coutinho passou por uma situação incômoda no Planalto. Em reuniões com Dilma, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, e técnicos da Casa Civil para definir as condições de financiamento para os leilões de ferrovia, ele foi avisado pela presidente que os juros seriam fixados em 1% ao ano, além da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que baliza os empréstimos do BNDES. O assunto não foi colocado em discussão. Procurado pelo Estado, Coutinho não aceitou conceder entrevista. Mas a assessoria do banco confirmou que o presidente do BNDES saiu derrotado da reunião.

Ao longo do encontro, Coutinho teve uma crise de hipertensão e precisou ir a outra sala para se recuperar. Dilma decidiu continuar a reunião. Segundo o BNDES, o mal-estar se deu por causa de uma substituição de remédios administrados.

Atuação. Na mesma época, em entrevista ao Estado, Coutinho informou que a política de "campeões nacionais", movida por ele havia anos no banco, tinha acabado. A estratégia, cujo embasamento ideológico é seu doutorado na Unicamp, consiste em auxiliar, via crédito subsidiado e participação direta no capital, a formação de grandes grupos nacionais, que cresceriam além das fronteiras do País, servindo de fonte de dólares.

A ideia de apoiar a criação de grupos gigantescos em setores específicos sempre foi alvo da oposição à política econômica do governo, mesmo no PT. Durante o governo Lula, Coutinho diversas vezes buscou o então ministro da Justiça, Tarso Genro, para dirimir dúvidas envolvendo o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Grandes grupos nas áreas de frigoríficos (Marfrig e JBS Friboi) e de telefonia (Oi) foram formados com apoio do banco.

As áreas de direito econômico, planejamento estratégico de grandes grupos e soluções financeiras associadas ao ciclo macroeconômico estiveram no foco de Coutinho desde os anos 90, quando, com quatro colegas, fundou a LCA Consultores, empresa que comandou até julho de 2007, quando assumiu o BNDES. A consultoria, considerada uma das melhores do País, cresceu bastante desde 2010. No ano passado, adquiriu sua principal rival, a MCM Consultores. Segundo fontes próximas a Coutinho, a LCA verá o retorno de seu fundador quando ele deixar o BNDES.

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