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Covid-19: atingimos o pico?

Enquanto a população não for maciçamente vacinada, não teremos chance de derrubar substancialmente o número de infectados e, consequentemente, o número de mortes.

Antônio Penteado Mendonça, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 05h00

De acordo com diferentes estudos feitos por matemáticos especialistas no assunto, devemos estar atingindo o pico da pandemia entre 5 e 10 de abril. Se estes cálculos estiverem corretos, é uma boa notícia. Não é possível dizer que é uma ótima notícia porque há uma grande probabilidade de ficarmos estáveis num patamar muito elevado, com a covid-19 seguindo em frente ainda por um bom tempo.

Enquanto a população não for maciçamente vacinada, não teremos chance de derrubar substancialmente o número de infectados e, consequentemente, o número de mortes. O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ao contrário de seu antecessor, está engajado em conseguir vacinas e a verdade é que o número de pessoas vacinadas diariamente está subindo. 

O Brasil tem condições de vacinar mais de um milhão de pessoas por dia, o problema é que não temos vacinas para isso. Basta ver a quantidade de cidades que suspendem a vacinação porque não têm mais doses para serem aplicadas para não ficar nenhuma dúvida sobre a origem do problema.

Para o quadro ficar absolutamente claro, é suficiente observar as estatísticas das vacinas. Nove em cada dez vacinados estão sendo imunizados com a Coronavac, a vacina produzida pelo Instituto Butantan. As demais são da Fiocruz. As outras vacinas ainda não chegaram e, de acordo com os contratos assinados, só devem ser entregues em quantidade significativas ao longo do segundo semestre. Todavia, há uma mudança clara no comportamento do governo federal e o ministro da Saúde tem trabalhado para apressar esse cronograma, seja tentando antecipar as entregas ou tentando negociar com o governo norte-americano um “empréstimo” das vacinas ainda sem autorização para uso lá e que têm autorização para serem aplicadas no Brasil, como é o caso das vacinas da AstraZeneca.

Ainda é cedo para se saber a reação do presidente da República, se vai permitir que o ministro siga em frente ou se vai demiti-lo, como fez com os dois primeiros ocupantes da pasta. Em bom português, o que o ministro da Saúde está fazendo é desfazer e desdizer tudo o que foi dito e feito pelo Ministério da Saúde ao longo da gestão Pazuello. E isso é muito bom para o Brasil e para nossa população, mas não é tão bom para a imagem do presidente.

Seja como for, atingirmos o pico significa que a doença deve pelo menos estacionar e, num segundo momento, com a chegada em massa das vacinas, deve regredir e permitir que o País possa voltar a pensar em reorganizar a sociedade e a economia.

Atingir o pico também é importante para o sistema de saúde nacional. Quer dizer que não vai mais piorar. Tanto o SUS como o sistema privado estão extremamente pressionados, operando no limite de sua capacidade, quando não acima dela, com todos os inconvenientes dessa situação. O retrato mais dramático são as mortes ocorridas enquanto as pessoas aguardam um leito de UTI.

Mas não é só isto. Há muito mais, a começar pelo esgotamento físico e mental das equipes na linha de frente; pela falta de insumos essenciais para o atendimento das vítimas da covid-19; pela suspensão do atendimento das outras patologias que não foram milagrosamente embora, mas que não podem ser atendidas pela rede hospitalar, sobrecarregada pela pandemia do coronavírus.

Um leito de UTI custa por dia mais de R$ 2 mil para o SUS e perto de R$ 5 mil para os planos de saúde privados. Com mais ou menos dez mil pacientes em UTI no Estado de São Paulo, numa conta de 80% para o SUS e 20% para os planos privados, estamos falando de mais de R$ 26 milhões /dia, ou R$ 780 milhões por mês, ou R$ 9,4 bilhões por ano. Para dar uma ideia da dimensão do número, o orçamento do Ministério da Saúde para 2021 não chega a R$ 40 bilhões. 

Com a certeza de que os números não irão crescer, que a tendência é diminuir e que isso pode ser apressado com a vacinação em massa, o brasileiro pode começar a respirar um pouco mais aliviado ao longo do segundo semestre. E o SUS e os planos de saúde privados, pela primeira vez em mais de um ano, terão tempo para recuperar o fôlego. 

* SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA E SECRETÁRIO-GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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