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Covid-19: o que aprendemos?

Do ponto de vista econômico, um ‘lockdown’ mundial pode tornar a cura proibitivamente custosa

Roberto Fendt*, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 04h00

Na última quinta-feira, o número de mortes ocasionadas pela covid-19 na Itália pela primeira vez ultrapassou o número de vítimas na China. E esse não é o fim da história.

Por uma dessas ironias do destino, foi na província chinesa de Hubei que se iniciou a atual epidemia. Foi também lá que foram detectados em 1334 os primeiros casos do que depois veio a ser denominado a Peste Negra, talvez a mais mortífera epidemia da história. De Hubei a peste alastrou-se para Jiangxi, Shanxi, Hunan, Guangdong, Guangxi e Henan.

Da China, a doença chegou à Europa através da rota da seda e alcançou a Crimeia em 1343. Do Mar Negro, alcançou a costa do Mediterrâneo, a quase totalidade da Itália e, depois, toda a Europa com a exceção da Polônia e, curiosamente, Milão.

Uma nova epidemia assolou a Itália no frio outono de 1629, como nos contou Giovanni Baldinucci, de quem reproduzo trechos a seguir. Entrou pelo Norte, lentamente se dirigindo ao Sul. Os Apeninos barraram inicialmente seu progresso em direção a Florença.

Ansiosa, a Sanità, o serviço de saúde da cidade, buscou informar-se com seus colegas de Milão, Verona e Veneza para entender o padrão do contágio da doença e proteger seus cidadãos. Acreditava-se, então, que a peste se difundia pelo ar, corrompido pela respiração dos doentes. Em junho de 1630 a Sanità interrompeu o fluxo de comércio e pôs em prática um cordão sanitário em torno dos passos nos Apeninos que davam acesso à cidade. Mas logo descobriram que a fronteira era extremamente permeável ao ir e vir dos camponeses. No auge do verão, um vendedor de aves caiu doente e morreu em Trespiano, uma vila nas colinas acima de Florença. Estava soado o sinal de alarme.

Em agosto, florentinos começaram a morrer. Em setembro, 600 pessoas foram sepultadas fora dos limites da cidade; em novembro, 2,1 mil. Uma quarentena geral foi a única solução encontrada. Em janeiro de 1631, a Sanità determinou que os cidadãos deveriam ficar trancados em casa por 40 dias, sob pena de multa e prisão.

Com melancolia, Baldinucci referiu-se às ruas e igrejas despovoadas. Havia consenso na população de que a epidemia se espalhava por “sementes de contágio”; contudo e a despeito disso, de início ignoraram os riscos da enfermidade e descumpriram a quarentena.

A vida normal da cidade ficou suspensa durante a epidemia. As irmandades que praticavam a caridade não mais puderam se reunir. Os sermões públicos foram proibidos. As escolas foram fechadas, assim como tavernas e hospedarias. O pálio, a principal festa de Florença, foi cancelado. Missas foram suspensas e altares portáteis foram colocados nas esquinas. Padres tomavam confissão de porta em porta com o rosto protegido por um lenço coberto com cera para evitar o contágio com a “semente da doença”.

A Sanità arcou com vultosa despesa para bancar a entrega de alimentos, vinho e lenha para os mais de 30 mil florentinos em quarentena. Cada pessoa recebia dois pães e meia garrafa de vinho por dia. Nos domingos, segundas-feiras e quintas, um salsichão; nas quartas, sextas e sábados, arroz e queijo.

Em troca, a Sanità fez valer à força a quarentena. Os recalcitrantes enfrentaram a polícia, as cortes de justiça e a prisão. Para tudo isso, o governo da cidade arcou com a conta.

A epidemia arrefeceu no início do verão de 1631 e em junho os florentinos puderam sair de casa e participar da procissão de Corpus Christi em agradecimento a Deus pelo fim da praga. O porcentual de mortos na população de Florença foi de 12%, bem inferior ao de Milão (46%) ou de Verona (61%). As duras medidas repressivas postas em prática pela Sanità explicam essa diferença dos resultados. Mas também contribuiu em muito para o fim da epidemia a expansão dos gastos necessária para manter em casa seus cidadãos.

A história da epidemia florentina, cuja descrição tomei emprestado de Giovanni Baldinucci, tem a nos ensinar que, se do ponto de vista sanitário é importante minimizar a propagação, do ponto de vista econômico, um lockdown mundial pode tornar a cura proibitivamente custosa.

*ECONOMISTA

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