CPMF: apenas isenção não é suficiente

O governo estuda isentar o investimento em ações da cobrança da CPMF. O tributo é apontado por instituições, inclusive a Bovespa, como o grande vilão do mercado de capitais, por afugentar o investidor estrangeiro da Bolsa brasileira. De acordo com especialistas, a isenção, se adotada, pode realmente dar algum fôlego ao mercado do País, beneficiando principalmente ações de segunda e terceira linha que não têm ADRs - recibos lastreados em ações - negociados em Nova York. No entanto, a isenção da CPMF não resolverá todos os problemas do mercado de capitais do País, como parecem crer alguns, advertem os analistas. Isenção beneficiaria principalmente ações de segunda e terceira linhaO gestor de Renda Variável da ABN AMRO Asset Management, Alexandre Póvoa, afirma que hoje o investidor estrangeiro que se interessa por ações brasileiras compra quase que exclusivamente as que são negociadas em Nova York. Isso porque operar no Brasil é cerca de oito vezes mais caro do que em Wall Street. Com isso, a demanda por ações que não têm ADRs é menor, o que pode afetar o preço do papel. Se o custo de operar no Brasil diminuir, é possível que o investidor estrangeiro comece a prestar atenção em ações que não são negociadas em Nova York. Ademais, isso também facilitaria o acesso de pequenas e médias empresas ao mercado de capitais, elevando a demanda por ampliações ou aberturas de capital.Segundo Póvoa, no caso de ações cujos ADRs têm bastante liquidez, ou seja, facilidade de negociação, os investidores estrangeiros tenderiam a continuar negociando em Nova York, pois se sentem mais seguros comprando papéis nos EUA. Mas isso não afeta o preço da ação, uma vez que, se o ADR sobe, o papel negociado na Bovespa também subirá, por conta de operações de arbitragem - compra da ação em um mercado e venda em outro para aproveitar das diferenças de preços. Se o ADR da Petrobras está mais caro do que a ação brasileira, as instituições vendem os papéis em Nova York e compram as ações aqui, o que leva a um equilíbrio entre as cotações.Investidor prefere o risco da NasdaqO diretor da Unibanco Asset Management (UAM), Jorge Simino, reconhece que a isenção da CPMF seria importante, mas entende que o efeito sobre a Bolsa não seria significativa. Ele lembra que, além de os mercados emergentes terem passado por uma série de crises nos últimos anos, as bolsas desses países enfrentam a concorrência da Nasdaq pelo investidor estrangeiro que corre riscos em troca de um rendimento maior.Além disso, ele afirma que a maior parte dos recursos de estrangeiros que podem ser aplicados em ações brasileiras está em fundos globais, que podem comprar papéis de países como Brasil e EUA ou Polônia e Espanha. Esses fundos costumam comprar apenas ADRs. Assim, mesmo que a CPMF caia, eles continuariam a atuar em Nova York. Os fundos dedicados à América Latina, que poderiam comprar papéis brasileiros que não têm ADRs se o governo isentar a bolsa da CPMF, possuem um patrimônio bem menor. Com isso, o fluxo de recursos que poderia vir para o País não seria dos mais expressivos.

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