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CRAs em dólar ficam para depois da pandemia

CRA em dólar deve beneficiar médios e grandes produtores

Coluna do Broadcast Agro, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 09h30

Sonho antigo do setor, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) referenciados em dólar vêm sendo adiados por investidores estrangeiros em virtude das incertezas trazidas pela pandemia da covid-19. Victoria de Sá, cofundadora da securitizadora Vert, relata que fundos se voltaram a mercados mais “maduros”, como o europeu e o americano. 

“Quem estava conversando sobre CRA em dólar jogou para frente”, diz. Gaia Agro e Ecoagro, também securitizadoras, vinham estruturando seus primeiros CRAs em dólar e devem emiti-los no segundo semestre. A remuneração esperada por investidores – e que teria de ser paga pelo tomador – também subiu com o maior risco no mercado.

Apesar do freio, Victoria, Renato Barros Frascino, diretor da Gaia Agro, e Moacir Ferreira Teixeira, sócio-fundador da Ecoagro, são unânimes em apontar o título como nova via para o custeio de agricultores exportadores. “Vamos trazer de fora recursos para o médio e o grande produtor”, diz Frascino. Os títulos foram regularizados pela lei 13.986, sancionada no último 7 de abril. 

Destoa

Teixeira, da Ecoagro, acredita que o total de CRAs em dólar emitidos (estoque) pode se igualar, em 12 meses, ao dos mesmos títulos em real, hoje de R$ 41,4 bilhões – o que equivaleria a US$ 7,4 bilhões em CRAs. Frascino, da Gaia, é conservador. “Em todo o mercado estimo 4 ou 5 operações”, diz. Todos concordam que há potencial para o papel atrair dinheiro de investidores de “green bonds”, desde que financie atividades com impacto ambiental positivo.

Para quem?

Ainda que o destino final do dinheiro obtido por CRA em dólar seja o produtor, as captações tendem a ser feitas, majoritariamente, por empresas de agroquímicos, revendas de insumos e tradings de grãos, dizem os executivos. Juntas, elas financiam hoje mais de 50% dos R$ 260 bilhões necessários por ano para o custeio das lavouras, segundo Victoria, da Vert. “As indústrias de insumos tomam recursos com a matriz (para antecipar produtos para revendas ou produtores). O CRA cambial será uma fonte alternativa”, diz. 

Pires na mão

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem empreendido uma “romaria virtual” junto a bancos e investidores em busca de dinheiro privado para o setor. Só nas últimas semanas ela participou de lives promovidas por XP Investimentos, Credit Suisse e Safra. Além de responder às questões ligadas à pandemia de coronavírus e suas consequências, a ministra não deixou de dar seu recado: que o agronegócio tenha prioridade na carteira de investimentos dessas instituições.

A gente ajuda

“Falta capital de giro” é a frase mais dita pela ministra quando entra no assunto. Na live do Safra, na quinta-feira (23), reforçou: “Quero colocar minha equipe à disposição de vocês para esclarecer dúvidas; quero que vocês digam o que precisamos fazer para que haja mais investimentos dos bancos no agro”. 

Para depois

O reflexo da covid-19 na economia pode retardar os efeitos práticos da Lei do Agronegócio, que trata de alternativas para o financiamento do setor. A avaliação é de Thiago Giantomassia, do Demarest Advogados. “A velocidade de liberação e o volume ofertado tendem a diminuir neste momento pelas incertezas do cenário”, diz. Ainda assim, players internacionais já procuram o escritório para entender a nova lei, afirma o advogado.

De volta

A Kepler Weber deve voltar a operar plenamente suas fábricas na primeira quinzena de maio, prevê Tadeu Vino, superintendente comercial e de marketing da companhia. Em virtude da pandemia do novo coronavírus, a líder nacional em sistemas de armazenagem trabalha atualmente com apenas 30% do seu quadro de funcionários nas indústrias. A volta já começa a ser estruturada nas unidades de Panambi (RS) e Campo Grande (MS).

Salto

A trading digital Karavel, que conecta produtores brasileiros com compradores no exterior, viu disparar o interesse por sua plataforma com a crise do coronavírus. A movimentação mensal, que foi de R$ 770 mil em março, deve chegar a R$ 2,5 milhões em abril e já há negócios contratados da ordem de R$ 4,5 milhões para maio. Os principais segmentos de atuação são café, açúcar, feijão, arroz, milho convencional e produtos orgânicos.

De casa

Além do interesse de compradores em antecipar aquisições para garantir suprimento e da alta do dólar ante o real, cresceu a confiança nas negociações online com o isolamento social, diz o CEO da Karavel, Álvaro Nunes. “O mercado tradicional funciona bem, mas importadores estão olhando alternativas”, afirma. Se antes a empresa previa movimentação de R$ 30 milhões em 2020, agora a meta é chegar a R$ 100 milhões.

Atendimento 4.0. A Marcher Brasil, fabricante de equipamentos para silos-bolsa, investiu em uma plataforma para atendimento direto às lojas parceiras e, com isso, ganhar agilidade. “O atual cenário exige pronta entrega de equipamentos, o que justifica o estoque das revendas para os próximos meses”, explica Myriam Bado, diretora-geral da empresa. Segundo a executiva, a aquisição de peças para pronta entrega contribuiu com 40% das vendas da empresa no mês de março. Hoje, equipamentos da Marcher como extratores de grãos e embolsadores estão em 300 lojas espalhadas pelo País. / POR CLARICE COUTO, TÂNIA RABELLO, ISADORA DUARTE e LETICIA PAKULSKI 

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