Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

‘Credibilidade fiscal requer dívida em declínio’, diz Nilson Teixeira

Para economista, reduzir a meta de inflação é fundamental

Ricardo Leopoldo, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h13

O aumento substancial de "escapes" para a geração de superávit primário (economia para pagamento dos juros da dívida pública) que vem sendo adotado pelo governo está levando essa poupança do Orçamento a níveis cada vez mais inferiores à meta e deve elevar a dívida pública. A avaliação é de Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse. Ele prevê que o superávit primário deve ficar perto da metade da meta neste e no próximo ano, em 1,6% e 1,5% do PIB, respectivamente.

 

De acordo com Teixeira, a inflação deve continuar subindo e fechar este ano em 6%. Mesmo com a possível elevação da taxa Selic para 10% em novembro, ele acredita que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) baixará pouco e encerrará o próximo ano em 5,8%.

 

Sobre a movimentação do governo em busca de investimentos em infraestrutura com leilões de concessões, Teixeira pondera que, embora as iniciativas sejam positivas, há ruídos de comunicação com o setor privado, sobretudo porque é grande o número de porta-vozes oficiais para tratar do tema.

 

Teixeira tem uma avaliação positiva sobre o PIB e espera que a economia cresça 2,5% este ano e avance 3% em 2014. As projeções do economista ganharam destaque no ano passado: foram as primeiras a apontar para o crescimento baixo da economia, com uma estimativa de 1,5% - previsão que, à época, irritou o governo. A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Quanto o Brasil deve crescer neste ano e em 2014?

 

O PIB em 2013 deve crescer 2,5% e avançar 3% no próximo ano. O mais provável é que o PIB no terceiro trimestre mostre uma leve redução ou estabilidade. Para o quarto trimestre deste ano, o PIB deve ter uma expansão pouco superior a 0,5% ante os três meses anteriores. O crescimento atual da economia é inferior ao potencial, que está entre 3% e 4%. Os setores de serviços e agropecuário devem ter alguma expansão no ano que vem. Com uma certa expansão da indústria, o PIB pode avançar em torno de 0,7% a 0,8% por trimestre em 2014 e alcançar uma alta de 3% em 2014.

 

O que o governo deveria fazer para que os investimentos decolem (ainda estão em 18,6% do PIB)?

 

A taxa de investimento em máquinas e equipamentos está em bons níveis ante outros países. Se o patamar dos investimentos é baixo, isso ocorre por causa da construção civil, cujo nível está entre os menores do mundo.

 

Os empresários temem o excesso de intervenção do governo?

 

Hoje há alguma incerteza sobre as regras no relacionamento do setor público com o privado. Sobre isso, é possível sugerir alguns pontos: é fundamental nos próximos cinco a dez anos reduzir o centro da meta de inflação. O ideal seria atingir 2,5% ou 3% ao ano no longo prazo. Isso ajudará a aumentar a previsibilidade da economia. Outra questão é o superávit primário. Os analistas avaliavam que o governo cumpriria a meta cheia do superávit primário de 3,1% do PIB, com cláusulas de escape para situações específicas.

 

Lamentavelmente, essas cláusulas foram ampliadas. Isso fez com que os analistas ponderem que o superávit efetivo será bem menor do que a meta. Nesse contexto, admitimos a possibilidade de que as dívidas líquida e bruta crescerão no próximo ano, como porcentual do PIB. Um elemento adicional seria a diminuição de ministérios. Entre 20 e 25 ministérios seria bem razoável.

 

Qual é o nível mínimo de superávit necessário para levar a dívida líquida à estabilidade?

 

Bastam 2% do PIB de superávit para que a dívida líquida fique estável. A credibilidade fiscal mais sólida requer declínio das dívidas bruta e líquida como porcentual do PIB. Então, um superávit de 2,5% do PIB é um caminho adequado nessa direção.

 

O sr. prevê que o superávit primário atingirá 1,6% do PIB neste ano e 1,5% em 2014. Com essas previsões, o sr. espera que a dívida líquida deverá subir de 34,5% para 35% do PIB no período, enquanto a dívida bruta deverá variar de 60% para 60,5% do PIB. Isso sugere que a política fiscal é expansionista?

 

Nos parece que a política fiscal é expansionista. Se o superávit primário alcançasse 3% do PIB em 2014, a necessidade de aperto monetário no curto prazo seria menor. Nós trabalhamos com um cenário no qual o déficit nominal pode alcançar 4% do PIB no fim de 2014. Isso ocorreria com o pagamento de juros da dívida, em torno de 5% a 5,5% do PIB, e superávit primário de 1,5% do PIB.

 

A partir do comunicado da reunião do Copom encerrada na quarta-feira, qual é sua avaliação sobre a trajetória da política monetária nos próximos meses?

 

Esperamos que a Selic aumente 50 pontos-base em novembro, permanecendo em 10% até o fim de 2014. Dada a repetição do comunicado divulgado após a reunião de outubro, é possível que haja altas adicionais de juros no início de 2014. Nossa projeção é compatível com certa estabilidade do IPCA e crescimento moderado da atividade nos próximos trimestres. O recuo da confiança dos empresários nos últimos meses embute uma incerteza razoável sobre o crescimento doméstico, o que pode atenuar a necessidade de alta adicional de juros em 2014.

 

Com juros a 10%, o superávit primário cheio em 2014 reduziria o IPCA para quanto no ano que vem?

 

Ela poderia baixar de 5,8% para uma marca próxima a 5,5%. O IPCA é alto no Brasil porque a inflação de serviços é muito importante, pois tem oscilado de 8,5% a 9% ao ano. Acreditamos que a inflação de serviços recuará nos próximos anos, mas será gradual e deve subir 7,5% em 2014, o que significará queda de 0,2 a 0,3 ponto porcentual do IPCA no próximo ano. Outro fator são os preços administrados. Neste ano, a energia teve redução expressiva, mas não haverá isso em 2014. A inflação de administrados tende a aumentar no ano que vem.

 

Com base nos dados do IPCA divulgados nesta semana, qual a sua perspectiva para a inflação em 2013?

 

A inflação mensal tende a aumentar em razão da sazonalidade, do provável repasse da depreciação cambial dos últimos meses aos preços de alimentos e bens industriais, e da esperada alta dos preços dos combustíveis. Apesar de projetarmos 6% em 2013, não se pode descartar que essa inflação acabe por ser ligeiramente inferior, ainda mais se a alta dos alimentos nos próximos meses for muito inferior à do quarto trimestre de 2012. Além disso, o balanço de riscos para a inflação tornou-se um pouco mais favorável nas últimas semanas, por causa do recuo de preços da gasolina no mercado internacional, da menor volatilidade cambial e do queda de preços de várias commodities agropecuárias no exterior. Esses dois últimos fatores contribuem para atenuar o impacto da depreciação cambial dos últimos meses sobre a inflação.

 

É possível o governo levar a inflação à meta de 4,5% em dois anos?

 

Não há medidas que possam garantir isso em tal prazo. Há alguns caminhos que poderiam contribuir. Um deles é a independência do BC. Os mandatos dos diretores poderiam ser de 3 ou 4 anos, fixados de tal maneira que todo o ano haveria renovação. Outro elemento seria o Tesouro sinalizar que nos próximos 5 ou 10 anos teremos parcela muito pequena da dívida pública indexada à inflação. O governo também, de forma gradual e transparente, poderia negociar revisões de tarifas baseadas em itens de custos individuais de setores produtivos. Os reajustes salariais também deveriam ser negociados com base nas expectativas de inflação.

 

Qual é o nível de repasse da desvalorização do câmbio para a inflação?

 

Nossos modelos indicam um repasse entre 0,35 e 0,60 ponto porcentual na inflação para 10% de desvalorização. Podemos pensar uma média, algo em torno 0,45 a 0,50 ponto porcentual.

 

Um dos críticos das regras dos leilões de concessões do governo, o ex-ministro Delfim Netto, diz que uma taxa interna de retorno atraente geraria competição entre empresas, sem necessidade de financiamentos subsidiados do BNDES. Qual é a avaliação?

 

A presidente tem pressa de resolver os problemas, como gargalos em infraestrutura. Mas às vezes a pressa faz com que as regras dos contratos tenham falhas. Então, alguns ajustes precisam ser feitos. A política de concessões é a escolha mais acertada. Foi bem favorável a rentabilidade dos últimos leilões, como da BR-050 e dos aeroportos de Guarulhos e Brasília. O leilão da BR-050 teve muitos participantes e o desconto do preço máximo da tarifa foi muito expressivo.

 

O que poderia melhorar a relação do governo com o setor privado?

 

O ponto principal é que há muitos porta-vozes do governo para lidar com o setor privado. E talvez causem alguma incerteza. Tem o ministro dos Transportes, da Casa Civil, da Fazenda, do Desenvolvimento, o presidente da Empresa Brasileira de Logística, dirigentes de agências reguladoras. Não sei se é a forma mais precisa de ter uma comunicação mais clara. Mas há um esforço para que a comunicação ocorra com empresários, investidores, no Brasil e no exterior, participantes do mercado financeiro. Cabe à presidente definir os porta-vozes.

 

Comparado a países da América Latina, o desempenho econômico brasileira desde 2011 não é frustrante?

 

As previsões para o PIB em 2013 e 2014 são de expansão maior ante 2011 e 2012. Não é adequado fazer comparações considerando apenas dois anos. É possível outra leitura: que o País está crescendo mais que na década retrasada. A China já atingiu níveis de 10% ao ano. Muitos especialistas ponderam que o crescimento daquele país pode ser inferior a 7% em 2014. Uma expansão de 7% é muito boa, mas é frustrante quando comparada com 10%. Na Europa, que está em recessão, um crescimento de 2,5% seria visto como muito bom.

 

Com a possível postergação pelo Fed da redução das compras de US$ 85 bilhões em ativos financeiros por mês, como ficam os leilões cambiais diários do BC previsto para vigorar até o fim do ano?

 

A resposta do BC foi excelente, pois conteve a volatilidade e reduziu incertezas. Essa ação depende do cenário global, sobretudo pela redução dos incentivos quantitativos nos EUA. As regras impostas pelo BC foram condicionadas a um ambiente diferente do atual. O movimento que se esperava era de depreciação do real, com alta volatilidade. Mas a volatilidade diminuiu bastante, há menos incertezas. Em vez de o câmbio ir na direção de R$ 2,45, se for na trajetória de R$ 2 caberia ao BC evitar que haja uma volatilidade importante. Uma medida seria parar os leilões em algum momento, mudar o ritmo. O BC poderia diminuir gradualmente, mas poderia aumentar caso haja reversão do cenário. É um caminho talvez mais provável. Esperamos que o câmbio atinja R$ 2,30 no fim deste ano e R$ 2,40 no fim de 2014.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.