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Crédito anabolizado

Com a estagnação do crédito, aumentam as pressões dentro do governo por medidas que levem o consumidor a tomar mais empréstimos bancários

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2015 | 05h00

Uma das aflições recorrentes nestes tempos de dureza é causada pela relativa estagnação do crédito. Por isso, aumentam as pressões dentro do governo para que sejam adotadas decisões que levem o consumidor a tomar mais empréstimos bancários. O objetivo pretendido é o aumento do consumo que, por sua vez, estimule a atividade econômica e o emprego.

Um dos argumentos usados para justificar a reivindicação de mais um pacote destinado a destravar o crédito lembra que, ao longo de toda a crise, os bancos centrais dos países avançados não vacilaram em despejar trilhões de dólares no mercado para voltar a reativar a atividade econômica. E a conclusão é a de que o Brasil também deve ir por aí, especialmente num momento em que o PIB deste ano recua 3% e em que aumenta a probabilidade de que 2016 também tenha forte recessão. Nessas condições, esse anabolizante do crédito funcionaria como política anticíclica, que trabalharia para a reativação da economia.

Não é verdade que falte crédito. Ao contrário, sobra crédito, mesmo levando-se em conta que os bancos estão mais cuidadosos nas suas operações por causa do aumento do risco. Se não falta crédito, não faz sentido adotar políticas que tentem reativá-lo.

Há, sim, falta de apetite do consumidor para tomada de novos empréstimos bancários. Ele já está endividado acima do que deveria porque, nos três últimos anos, acabou por morder iscas demais, as mesmas que lhe foram apresentadas pelo governo, que o empurrou para as compras. Sente, também, que os tempos estão complicados, que seu emprego está ameaçado e que mais gente da família enfrenta dificuldades para equilibrar suas contas. Quer dizer, há falta de confiança generalizada em relação ao futuro e esse é fator importante na redução da demanda por empréstimos bancários.

Além disso, aos atuais níveis de juros, o crédito ficou proibitivo e aqui chegamos ao ponto principal. O crédito é uma das correias de transmissão da política monetária (política de juros), cujo objetivo mais importante é combater a inflação. Se o Banco Central reduz o volume de dinheiro na economia, o pressuposto é o de que os juros mais altos também produzam menor demanda por crédito e, por essa via, o consumo possa cair de maneira a controlar a inflação.

Sem entrar aqui na discussão sobre se as opções do Banco Central estão corretas ou não, o que se espera é que haja coerência entre o que pretende a política monetária e o nível interno do crédito. Se o Banco Central opera para inibir o crédito, não faz sentido exigir que, por outros meios, o governo produza efeito oposto. Ou seja, neste momento, o estímulo ao crédito tende a tirar eficácia da política de juros, o que obrigaria o Banco Central a redobrar a dose para obter o mesmo efeito no combate à inflação.

Assim, eventual pacote de estímulo ao crédito, como o pretendido, tende a sabotar a política do Banco Central, como o BNDES também sabota ao despejar crédito subsidiado no mercado.

Aí está como evoluem as projeções do mercado financeiro para a inflação e para o PIB.

Fim de greve. A greve dos bancários acabou. E o que ela mais revelou foi que a automatização, a internet e os aplicativos estão tornando as agências bancárias cada vez menos importantes. Como essas tralhas eletrônicas estão dispensando pessoal, a categoria dos bancários vai perdendo densidade. Continua importante, mas seu poder de barganha tende a se reduzir. O banqueiro sabe disso. O bancário parece ainda não ter entendido.

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