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O potencial do mercado voluntário de carbono no Brasil

Demanda vem crescendo e o País concentra 15% do potencial global de captura de carbono por meios naturais

Henrique Ceotto e Gustavo Tayar, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2022 | 05h00

Empresas que já estão engajadas em compensar suas emissões de carbono enfrentam cada vez mais dificuldade para garantir a mesma quantidade de créditos de anos anteriores. A demanda por créditos de carbono voluntários vem crescendo junto com a relevância da agenda ESG, mas a oferta de créditos ainda é baixa e o preço dos créditos tem aumentado brutalmente. 

No esforço de limitar o aquecimento global a 1,5°C até 2050, empresas do mundo inteiro estão estabelecendo metas de carbono zero ou neutralidade de carbono (“net zero”), ou seja, de zerar as emissões líquidas de carbono de suas operações. Para isso, o desafio é grande e o tempo, curto. Descarbonizar as operações é o caminho preferencial, mas muitos setores ainda não conseguem eliminar totalmente suas emissões.

Isso torna a maioria das empresas dependente da compra de créditos de carbono para remover ou neutralizar as emissões remanescentes. Essa compra e venda de créditos acontece no mercado voluntário de carbono, que pode desempenhar um papel fundamental na jornada de contenção do aquecimento global. 

Tipos de mercado

Existem dois tipos de mercado de carbono: o regulado e o voluntário. O mercado regulado foi criado em 1997 com o Protocolo de Kyoto, que estabeleceu obrigações legais para países e empresas compensarem suas emissões. Com isso, governos determinam esquemas fechados envolvendo diferentes setores da economia, precificando o carbono regulado com a taxação de carbono e definindo um teto para emissões de um setor.

No mercado voluntário de carbono, a geração, a precificação e a venda de créditos são independentes, seguindo padrões de certificadoras globais. Ele serve a empresas e indivíduos que desejam voluntariamente compensar sua pegada de carbono, para além da meta de redução dos países no acordo internacional. O Brasil está em vias de regulamentar seu mercado regulado de carbono; enquanto isso, o mercado voluntário dá seus passos iniciais. 

A oferta de créditos de carbono no mercado brasileiro ainda é baixa: o País emite atualmente menos de 1% do seu potencial anual. Enquanto isso, muitas empresas começam a estabelecer suas metas de redução, gerando um crescimento acelerado na demanda e uma escalada do preço do crédito de carbono voluntário.

No cenário global, é estimado que a demanda por créditos de carbono possa aumentar 15 vezes ou mais até 2030 e até 100 vezes até 2050. O mercado global de créditos de carbono deve saltar de cerca de US$ 1 bilhão em 2021 para pelo menos US$ 50 bilhões em 2030. Só no Brasil, dentro dos diferentes cenários de demanda e preço, esse mercado pode movimentar de US$ 1,5 bilhão a US$ 6 bilhões. 

Posição privilegiada

O Brasil tem condições altamente privilegiadas para desenvolver um mercado vibrante de créditos voluntários de carbono, tanto por sua demanda potencial quanto pelo seu potencial de gerar créditos: 15% de todo o potencial global de captura de carbono por meios naturais está em território nacional. 

Também o custo brasileiro para desenvolver e implementar projetos para obter créditos de alta qualidade e integridade é menor e mais competitivo do que a média global. 

Em cerca de 50% da área de pasto atual será mais atrativo economicamente substituir a atividade de pecuária em pastagens degradadas por projetos de restauração ou florestamento – o que traz múltiplos benefícios associados, como recuperação de biodiversidade, segurança hídrica e impacto positivo nas comunidades locais.

Três grandes desafios

Para criar seu mercado voluntário de carbono, o Brasil precisa viabilizar três fatores cruciais. O primeiro é estabelecer a estrutura regulatória e fiscal para o manuseio de créditos de carbono voluntário por corporações e instituições financeiras. 

O segundo fator é fortalecer mecanismos de governança, de modo a aumentar a integridade e cobertura de padrões e metodologias de certificação de créditos de carbono reconhecidas internacionalmente, entre outros; e o terceiro é facilitar a criação de mecanismos de mercado de referência que permitam acelerar a oferta, similar aos mecanismos de financiamento e PPAs do setor elétrico. 

É importante envolver vários representantes da sociedade civil nessas discussões, principalmente representantes das comunidades que podem ser beneficiadas.

A importância do Brasil para o avanço da metas de descarbonização globais é inegável e a oferta de créditos de carbono de alta qualidade é uma grande oportunidade para o desenvolvimento econômico e social para o País. É hora de colocar mãos à obra e apresentar propostas concretas para o mercado voluntário de carbono brasileiro na próxima COP 27.

* Sócios dos escritórios da McKinsey & Company em Belo Horizonte e SP, respectivamente

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