Crédito continua caro para consumidor

As taxas de juros ao consumidor, mesmo com ligeiras quedas em alguns meses, apresentam trajetória de crescimento ao longo do ano e a tendência é de que permaneçam sem recuos significativos até o início de 2002. Levantamento da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) mostra que a taxa média para pessoas físicas, que era de 7,49% ao mês em março, estava em 8,11% em setembro. A média mensal de 2001 está em 7,77% ao mês.A alta é verificada na maioria das modalidades de crédito. No cheque especial, segundo dados da Anefac, apurados com o Banco Central (BC), a taxa média de juro registra queda até abril, quando estava em 7,76% ao mês. Mas a partir de maio sobe continuamente e chega em setembro a 8,28%. No crédito pessoal, no financiamento de veículos e em outros tipos de crediário as taxas médias, com algumas oscilações, também apresentam alta a partir de abril. Nos financiamentos de bancos e financeiras os juros passam de 4,05% em março para 4,36% em setembro.A pesquisa mensal do Procon de São Paulo, feita em 13 bancos, indica que para o empréstimo pessoal e no cheque especial as taxas médias têm aumentos gradativos durante todo o ano. "No empréstimo pessoal ela evolui de 4,22% ao mês em janeiro para 4,62% em junho e para 5,45% em outubro", diz a responsável pela pesquisa, Cristina Rafael Martinussi. No cheque especial as taxas médias nos bancos sobem de 8,42% em janeiro para 8,88% ao mês em outubro."Até dezembro pode ser que as taxas dos bancos e financeiras recuem um pouco se a demanda estiver fraca, mas o mais provável é que permaneçam inalteradas", diz o vice-presidente da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira.Mas o diretor do Banco Cacique, Wanderley Vettore, está convencido de que não há espaço para reajustes por causa da demanda por crédito. Com uma carteira voltada para o financiamento de móveis, eletroeletrônicos e material de construção, ele chegou a ter uma queda de 15% na venda financiada entre junho e agosto. "O racionamento afugentou o consumidor", justifica. A procura por crédito só melhorou em outubro e de acordo com Vettore deve aumentar por causa do Natal e pela demanda reprimida. Ele não altera suas taxas de CDC e empréstimo pessoal há 90 dias.Na Servloj, que administra a carteira de quatro instituições financeiras, a redução das operações de crédito vem sendo observada desde a metade do ano. "Em outubro tivemos uma queda de 10% nas vendas se comparadas a outubro de 2000. Em relação a setembro o crescimento é discreto, em torno de 3%", diz o diretor da empresa, Oswaldo de Freitas Junior. Ele explica que as taxas médias de CDC foram um pouco reduzidas, de 6,7% ao mês em setembro para 6,3% em outubro.As oscilações pequenas, de baixas e altas, dos bancos e financeiras podem passar despercebidas para o consumidor, mas os números indicam um movimento de elevação das taxas médias. "O aumento do depósito compulsório, em setembro, bate de frente com os juros. As taxas tendem a subir porque há uma redução de oferta de crédito", diz o professor da USP Alberto Borges Mathias, especialista em finanças. Ele observa que de março a agosto a taxa média à pessoa física elevou-se em 17,5%, refletindo o aumento da taxa Selic no mesmo período. A perspectiva, de acordo com Mathias, é de um corte das taxas apenas no período pré-eleitoral e de aumento do volume de crédito, com uma redução do compulsório.CaloteA inadimplência, mais do que a elevação da Selic, tem sido a principal justificativa das financeiras para manter os juros altos. Levantamento da Associação Comercial de São Paulo indica que a inadimplência líquida de 6,2% em outubro (descontados os débitos recuperados em relação às vendas a prazo de três meses anteriores), caiu apenas 0,2 ponto porcentual em relação a setembro e ainda é elevada. Mas está longe de recordes de anos anteriores. Em 1998, o calote chegou a 18,7%."A alteração de um ponto na Selic não influencia tanto nos juros quanto o comportamento da inadimplência", diz o diretor de negócios da Losango, Leandro Vilain. Ele vem observando uma tendência de reversão da alta da inadimplência a partir de setembro e sua perspectiva para o fim de ano é otimista: "Ganhamos mercado e há uma demanda reprimida".A entrada de parte do 13.º salário este mês na economia deve contribuir para a renegociação de débitos com atrasos superiores a 30 dias, reduzindo os índices do calote. As financeiras aproveitam este período do ano para intensificarem campanhas de acerto de dívidas pendentes. O diretor da Creditec Fernando Fonseca espera recuperar de 15% a 20% do crédito em atraso em sua carteira, a partir deste mês.

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