Crédito cresce, mas risco de inadimplência diminui, aponta BC

Para o governo, boom do crédito não foi acompanhado de deterioração na qualidade dos empréstimos

Fabio Graner, da Agência Estado,

30 de junho de 2008 | 11h52

O aumento do volume de crédito no mercado doméstico, seja para consumo ou novos investimentos, não está sendo acompanhado por um maior risco de inadimplência. Pelo contrário, nos últimos 12 meses encerrados em maio, o crédito teve uma expansão de 32,5%, superou a marca de R$ 1 trilhão, mas o risco de inadimplência diminuiu.   Dados do Banco Central mostram que a participação das operações de crédito com o chamado "risco normal"- no qual estão incluídos os clientes com histórico de boa qualidade - corresponderam, em maio, a 92,1% do total de crédito do sistema. As outras duas categorias de risco, onde a chance de calote é substancialmente maior, representam 7,9% desses R$ 1,03 trilhão oferecidos as pessoas físicas e as empresas.   A percepção do governo é de que o boom do crédito não foi acompanhado de uma deterioração na qualidade dos empréstimos. Em janeiro de 2003, para se ter uma idéia, as operações com o chamado risco normal representavam 87% do estoque de R$ 377,9 bilhões de empréstimos do sistema bancário.   Esses números do BC sustentam avaliações de economistas do governo de que a alta do crédito não deve ser encarada como uma fonte de problemas no sistema financeiro. Na semana passada, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o patamar atual de crédito no mercado doméstico e sinalizou que não deseja uma retração no oferta de recursos. Elogiando a performance de seu governo, disse que desde 2003 o crédito aumentou apenas "a bagatela de R$ 700 bilhões".     Prudência   A manutenção da qualidade dos empréstimos, como explicou uma fonte do governo, não quer dizer que não seja necessário o monitoramento das condições do mercado, como tem feito o Banco Central por meio das chamadas "medidas prudenciais". São procedimentos que as instituições financeiras devem observar para evitar não apenas uma expansão desordenada do crédito, mas também de blindagem quanto ao risco ao sistema financeiro.   O cenário com o qual o governo trabalha é o de contenção do ritmo de crescimento do crédito com o objetivo de desacelerar a demanda interna para que a inflação não saia do controle.   Os dados do BC também ajudam a entender porque a inadimplência global no sistema financeiro, apesar da ligeira elevação dos calotes de pessoa física nos últimos dois meses, vem caindo desde 2003. Para definição do nível de risco dos empréstimos são levados em conta uma série de parâmetros definidos pelo BC, que vão desde situação econômico-financeira dos devedores e grau de endividamento até atrasos nos pagamentos.   Por exemplo, para ser classificado como risco normal, um empréstimo não pode chegar a ter atrasos superiores a 60 dias. São os próprios bancos, com base nos critérios estabelecidos pela autoridade monetária, que encaixam o crédito em determinada categoria de risco.   O economista da Tendências Consultoria Bruno Rocha concorda com a avaliação de que o crédito cresce no Brasil sem a ampliação do risco de inadimplência. "Os dados do BC são bem favoráveis. O crescimento das operações de risco normal é bastante importante, bem como a flutuação moderada da inadimplência, que não deve fugir muito do atual patamar.   Isto mostra bastante solidez", afirmou Rocha. Pondera, no entanto, que a análise de risco precisa ir além dos dados do BC. Segundo ele, a Tendências faz um cálculo que considera, também, o comprometimento da renda das famílias com empréstimos.   O indicador mostra que em maio o orçamento familiar dispensou mais dinheiro para as obrigações financeiras, o que eleva o risco de inadimplência. "Mas isso não chega a preocupar, embora seja algo para ficar atento", disse Rocha, que prevê que a inadimplência das pessoas físicas chegará em 7,5% no final do ano, subindo um pouco em relação aos atuais 7,3%.   Consignado   Para o economista da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, a melhora da qualidade do crédito nos últimos anos está relacionada ao forte crescimento das operações de crédito consignado - com desconto em folha de pagamentos - e de financiamento de veículos, ambos com importantes formas de garantia.   Essas duas modalidades tendem a perder fôlego, na avaliação de Solimeo. Se isso acontecer, o mais provável é o crescimento de operações com nível de risco maior, como cheque especial e financiamento via cartão de crédito.   Nos cinco primeiros meses do ano, o ritmo de expansão tanto do cheque especial como do cartão de crédito foi superior às modalidades com maior nível de garantia. Por outro lado, avalia Solimeo, com o processo de alta nos juros, os bancos tendem a ser mais conservadores nos empréstimos, o que pode compensar o movimento de demanda por modalidades com menor garantia. A conseqüência disso, explica, será a desaceleração no ritmo de expansão do crédito e da atividade econômica interna, o que ajudará no combate à inflação, prioridade número um do governo.

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