Crédito dá sinais de vida, mas sob nova ameaça

O ministro da Fazenda, Pedro Malan, voltou da Europa na sexta-feira dizendo que houve "alguma retomada" no crédito ao Brasil, depois de uma série de palestras das autoridades econômicas no exterior durante a semana. De fato, o mercado de crédito, que estava fechado há meses, começa a dar sinais de vida. Na semana passada, alguns bancos e empresas de primeira linha conseguiram fechar operações pequenas. As captações externas estão voltando aos poucos - mas sempre com operações estruturadas, com seguros, ou garantidas por exportações, dizem especialistas. No início do ano, as emissões tinham em média um prazo de dois a três anos. Agora, quando conseguem, as empresas têm de fazer securitizações (dívida garantida por uma receita futura) ou aceitar prazos bem mais curtos. Na sexta-feira, foi anunciada uma captação de US$ 100 milhões do Bradesco com eurobônus. O prazo, porém, foi de 92 dias. Os bancos nacionais estão procurando alternativas para suavizar a aversão dos estrangeiros. O Unibanco, por exemplo, conseguiu nesta semana redirecionar para o comércio exterior US$ 50 milhões de um empréstimo de US$ 150 milhões para infra-estrutura fechado com o International Finance Corporation (IFC). "A partir daí, como uma espécie de aval informal do IFC, estamos buscando linhas com bancos internacionais para aumentar esse volume", explica Sérgio Zappa, diretor de Mercado de Capitais e Instituições Financeiras do Unibanco. O "carimbo" do IFC funcionaria como uma diminuição do risco. O Itaú está fazendo uma operação semelhante com o IFC, de redirecionamento de linhas. As linhas de crédito comerciais de bancos estrangeiros ao Brasil - uma fonte extremamente estável de financiamento até serem incluídas no calote argentino na virada do ano - caíram 22% em julho, em relação ao mesmo período de 2001, para US$ 12,2 bilhões, segundo um documento distribuído pelo Banco Central para investidores estrangeiros na quarta-feira. E as emissões privadas no exterior em junho e julho ficaram em US$ 670 milhões, 89% abaixo do nível registrado no ano passado, de acordo com a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Analistas acreditam que os bancos estão um pouco menos arredios para emprestar ao Brasil. "Em conversas informais com os bancos, é possível constatar uma leve melhora", disse o diretor de pesquisa para a América Latina da consultoria americana Ideaglobal, Ricardo Amorim. A opinião de que há sinais de melhora é compartilhada pelo economista-chefe o BBV Banco, Octavio de Barros. No entanto, justamente quando o aperto de crédito começa a melhorar, um evento externo ameaça aumentar o sentimento global de aversão ao risco e dificultar ainda mais a recuperação econômica. "Acreditamos que acontecimentos negativos no ambiente internacional, principalmente um ataque dos Estados Unidos ao Iraque e seus potenciais impactos na aversão ao risco e nos preços do petróleo, vão neutralizar os impactos positivos da melhora de José Serra (PSDB) nas pesquisas e a melhora nas contas externas", escreveu Amorim, em um relatório distribuído na sexta-feira a clientes. E mesmo a percepção de que o crédito ao Brasil está sendo retomado varia de acordo com o especialista consultado, já que o Banco Central não divulga periodicamente essa informação e as avaliações do mercado têm de depender dessas "conversas informais" com os bancos. O analista de bancos da Standard & Poor´s Chuck Rauch, por exemplo, diz que não constatou nenhuma retomada de crédito ao Brasil nos bancos estrangeiros. "Pode ser que haja uma retomada, mas eu ainda não ouvi falar dela", diz ele. QuitandaHá ceticismo até mesmo no Bank of International Settlements (BIS), o banco central dos bancos centrais. Segundo um funcionário que não quis se identificar, qualquer credor está "muito relutante" em aumentar seus empréstimos para o Brasil neste momento. "A grande questão é: ante uma grande crise internacional, como uma guerra contra o Iraque, será que os bancos vão pelo menos manter a atual exposição?" Ele cita a Coréia no fim de 1998, quando os bancos, apesar das promessas informais de manutenção do crédito, continuaram reduzindo sua exposição ao país. Um executivo da área internacional de um grande banco estrangeiro no Brasil usa um exemplo prosaico para retratar o aperto de crédito para o País. "Vamos dizer que as empresas precisando de recursos sejam consumidores que vão à quitanda: no ano passado, antes do 11 de setembro, elas tinham uma ampla variedade de frutas para escolher, e muitas estavam em promoção. Agora, quem quiser alguma fruta, só consegue comprar maçã, e ainda assim bem cara", diz. "Mas pelo menos tem maçã. Em julho, nem maçã tinha." Para Philip Wooldridge, economista do BIS e um dos autores do Relatório Trimestral, a tendência de aperto no crédito para países emergentes e a "fuga para qualidade", com migração para investimentos mais seguros como títulos do Tesouro americano, começou no início do ano e deve durar até o cenário internacional se estabilizar. Zappa, do Unibanco, lembra que os bancos estrangeiros estão pressionados em seus países por causa de problemas passados, como a participação em escândalos corporativos, no caso dos Estados Unidos, e perdas com a Argentina. "Todo mundo está entre a cruz e a caldeirinha: entre atender aos pedidos do governo brasileiro e enfrentar os analistas de olho nos balanços dos bancos." Este mês, encerra-se mais um trimestre e muitos bancos estão receosos de mostrar ao mercado um aumento no crédito a um devedor arriscado como o Brasil. Como os bancos sofreram pesadas perdas com empresas americanas e calote na Argentina e o estouro da bolha da internet varreu bilhões de dólares do mercado acionário, o crédito mundial diminui. "No mundo inteiro o crédito bancário sofreu um encolhimento significativo, com muitas seqüelas para os mercados periféricos", diz Zappa.

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