Crédito direcionado afeta a política monetária

As operações de crédito direcionado aumentaram de 34,2% dos saldos de empréstimos em 2008 para quase 47,6% em 2012 – e quanto maiores, mais reduzem o efeito da política monetária, segundo os economistas Marco Bonomo e Bruno Martins em texto em fase de discussão publicado pelo Banco Central. Em resumo, as altas do juro básico que deveriam afetar a todos, reduzindo a oferta de crédito, perdem eficiência porque muitos tomadores têm acesso ao crédito em condições mais favoráveis e continuam se endividando.

O Estado de S.Paulo

25 de março de 2016 | 03h00

O crédito direcionado pesa muito na estrutura de financiamentos: atingiu R$ 1,582 trilhão em fevereiro, quase 50% do total do crédito (R$ 3,2 trilhões). Para as empresas, o crédito direcionado pesa mais que o crédito livre.

Entre as principais modalidades de crédito direcionado estão os empréstimos do BNDES corrigidos pela TJLP, de 7,5% ao ano; o crédito rural concedido com recursos dos depósitos compulsórios depositados no Banco Central; o crédito habitacional baseado na captação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que rende 3% ao ano mais a TR, e a caderneta de poupança (6% ao ano mais a TR); e o crédito à exportação. Para o estudo foram analisadas operações bancárias realizadas por cerca de 300 mil empresas não financeiras. Os resultados não deixam dúvidas.

O canal de crédito da política monetária é menos eficaz para as empresas com mais acesso aos empréstimos direcionados (ou seja, realizados com interferência do governo). Quando o BC eleva em 1% a taxa básica de juros, há uma queda de 3% nas operações de crédito, mas a queda é um terço menor no crédito direcionado; e se o custo dos empréstimos livres aumenta 1,15%, o juro do crédito subsidiado sobe apenas 0,89%.

Economistas como Márcio Garcia, da PUC-Rio, há muito enfatizam as distorções provocadas pelos juros subsidiados. O pior efeito é o de que os juros no mercado de taxas livres poderiam ser menores se não existissem as operações direcionadas – ou se estas tivessem pequena expressão. Juros mais baixos reduziriam o custo de capital das empresas, contribuindo para a recuperação da economia brasileira.

É possível, reconhecem os economistas, que o crédito subsidiado reduza os riscos das empresas favorecidas. Mas para a maioria das empresas que dependem do crédito livre para se manter vivas a situação seria melhor com a redução do crédito direcionado.

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