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Crédito é ameaça ao programa de concessão

Dos quatro leilões de rodovias previstos no cronograma do Ministério do Planejamento, apenas um deve sair este ano

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2015 | 23h00

RIO - Com a elevação da taxa de juros, a perda do “grau de investimento” pela agência Standard & Poor’s (S&P) e as desconfianças geradas pela Operação Lava Jato, a restrição de crédito para as empresas do setor de infraestrutura tornou-se mais uma ameaça ao sucesso das concessões à iniciativa privada. Fontes ouvidas pelo Estado preveem que, dos quatro leilões de rodovias que restam no cronograma do Ministério do Planejamento para este ano, apenas um deverá sair, o da chamada Rodovia do Frango, entre Paraná e Santa Catarina.

A preocupação das empresas de infraestrutura com o crédito quase triplicou nos últimos 12 meses, segundo dados da Sondagem da Construção, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Em setembro de 2014, 11,7% das empresas entrevistadas citavam o acesso ao crédito como “fator limitativo”. No mês passado, 30,6% apontaram o crédito como problema - o segundo mais citado, perdendo apenas para a “demanda insuficiente”.

Os dados para as empresas que atuam com obras de infraestrutura são piores que a média e totalmente diferentes de cinco anos atrás. Em setembro de 2010, só 5,6% das empresas, no total, e 4,7%, para o segmento de infraestrutura, mencionavam o acesso a crédito como problema, o menor dos fatores limitativos. Para Ana Castelo, pesquisadora da FGV, o quadro é de travamento de crédito.

“O travamento de crédito tem dois elementos distintos, mas somados”, disse um executivo de banco de investimento, que pediu para não ser identificado, referindo-se à desconfiança gerada pela Operação Lava Jato, que implica construtoras, umas mais, outras menos; e a situação macroeconômica geral, que inclui alta dos juros.

Paulo Cesena, presidente da Odebrecht Transport, braço do grupo que atua nas concessões em logística, afirmou em evento recente que a disponibilidade de financiamento é o principal desafio para sustentar os investimentos privados em infraestrutura e criticou publicamente a exigência de garantias em excesso pelos bancos. 

Nesse quadro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sofre “pressão por todos os lados”, conforme disse um executivo. Única fonte de crédito de longo prazo no País, a instituição de fomento ainda analisa pedidos de financiamento da primeira fase do Programa de Investimentos em Logística (PIL).

O banco de fomento era peça central do modelo dessa primeira fase, pois o crédito barato garantia lances com forte deságio nos leilões cujo critério de seleção era o menor pedágio a ser cobrado. O problema é que, de 2013 para hoje, o quadro mudou. Com a Lava Jato avançando, o BNDES e os bancos privados, que atuam repassando o crédito da instituição de fomento (e, quando fazem isso, assumem o risco), passaram a olhar as garantias com lupa. 

Em março, o Estado mostrou que os projetos de empresas ligadas de alguma forma à Lava Jato analisados pelo BNDES envolviam R$ 31,1 bilhões em financiamento.

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