Crédito e pagamentos eletrônicos

Durante muito tempo e até meados do século passado, o brasileiro precisava andar com dinheiro no bolso para pagar todas as suas compras, do pãozinho ao material de construção. Fosse pela menor penetração do sistema bancário ou pela realidade econômica menos propensa ao risco de crédito, a maior parte da população só podia contar com o dinheiro na mão como recurso financeiro. Como alternativa à moeda física, e com a evolução gradual do sistema de pagamentos, o cheque passou a ganhar espaço e a venda a prazo no carnê, oferecida pelas lojas de varejo, foi ficando mais comum entre a população de baixa renda, com a estabilização de preços pós-1994 e os ciclos de expansão do crédito.

RÔMULO DIAS, PRESIDENTE DA CIELO, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h07

A indústria dos meios eletrônicos de pagamento foi afinando aos poucos essa realidade em sua evolução histórica. O conceito de cartões de pagamento, datado da década de 1920 e cunhado nos Estados Unidos, revolucionou as relações de consumo. No caso brasileiro, eles já respondem por quase um terço de tudo o que é consumido pelas famílias. E é das credenciadoras o papel de pavimentar esse caminho, levando a infraestrutura de pagamento com cartão a qualquer município coberto pela rede de telefonia. Em comunidades indígenas, nos dias atuais, comprar bens e serviços utilizando cartão já é possível. Prova de que o hábito de compra do brasileiro está intimamente ligado ao uso do plástico no nosso país.

Acesso ao crédito. O cartão vem ganhando cada vez mais participação entre a parcela bancarizada da população, e arregimentando mais adeptos ao sistema financeiro. A solidificação das bases da nossa economia, desde o Plano Real, em 1994, foi um momento de inflexão para o aumento da oferta de crédito no Brasil, afiançada no amadurecimento do ambiente econômico, com inflação domada e consumo interno salutar. A partir dali, a indústria de cartões assistiu a seguidas ondas de crescimento sustentado na expansão do consumo, e demonstrou pujança no mercado brasileiro, evoluindo a taxas acima de 20% todos os anos.

Vivemos o mais perene ciclo de crédito desde o Plano Real, e a participação do pagamento eletrônico no arranjo da expansão econômica é fundamental pela capacidade da indústria de se modernizar, de oferecer canais adequados de financiamento e de responder às demandas de crédito existentes. Já é possível, por exemplo, utilizar as linhas de crédito aportadas pelos bancos, destinadas a financiar o consumo das famílias, diretamente nos terminais de vendas com cartão disponíveis nas lojas de todo o país - o maior salto dos últimos 15 anos nessa indústria, desde que o cartão passou a figurar entre os nossos hábitos. A nova opção moderniza o sistema ao 'plastificar' o carnê de papel e permite que o consumidor compre bens em até 48 vezes, com a facilidade propiciada pelo cartão, ao mesmo tempo em que o varejista recebe o valor no dia seguinte, como numa venda à vista. Para o comércio, é mais dinheiro em caixa.

Assim, apostando em tecnologia, torna-se mais fácil e próximo do consumidor o acesso ao crédito, tangibilizado diretamente numa máquina de cartão em qualquer tipo e porte de comércio. Retomando a compra do pãozinho e do material de construção de que falei no início: é cada vez mais comum a realização de transações de pequeno valor com cartão nas atividades do dia a dia, pela comodidade, praticidade e segurança, dentre outros benefícios do plástico, como o acúmulo de pontos para compra de passagens aéreas, por exemplo. Agora, a expectativa é que a facilidade do cartão também comece a aculturar o brasileiro para o consumo de bens de maior valor pelo crediário, como mais um instrumento de inclusão financeira.

A despeito de 2012 ter se revelado um ano mais desafiador, é possível enxergar alguns componentes que suportam o ciclo de crédito no horizonte próximo e, por consequência, o aumento da participação do cartão nos gastos privados: a fatia do crédito no PIB brasileiro cresceu em bom ritmo na última década e está na faixa dos 50%, mas há espaço para crescer se considerarmos que esse porcentual em economias mais maduras ultrapassa os 100%. Com o pacote econômico colocado em prática pelo governo federal, o custo do dinheiro também tende a ficar mais acessível. Isso significa mais capacidade de pagamento em um cenário que caminha para o alargamento de prazos, somado à queda de juros balizada pelo menor nível histórico da taxa Selic. A manutenção de emprego e renda em um patamar saudável ao desenvolvimento econômico, por sua vez, resguarda o poder de compra da população, o que completa o estado de confiança no fôlego do mercado doméstico e no crescimento sustentável do crédito no Brasil.

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