Crédito escasso afeta o agronegócio

Contratação de financiamentos para custeio no 1º quadrimestre  caiu 18,8%; agricultores reclamam do aumento dos juros

Victor Martins, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 08h11

BRASÍLIA - O agronegócio, que ajudou a sustentar a economia nos últimos dois anos, com taxas robustas de crescimento, está sob risco de perdas diante da escassez de crédito, juros mais altos e da disparada do dólar em relação ao real. Diante da dificuldade de acesso a novos financiamentos, produtores rurais já atrasam a compra de insumos para a próxima safra.

Levantamento feito pelo Broadcast, serviço de notícias tempo real da Agência Estado, com dados do Banco Central mostra que a queda de contratações para custeio no primeiro quadrimestre do ano foi de 18,86% em comparação a igual período de 2014. O desempenho do crédito foi influenciado, entre outros fatores, pela menor captação da poupança rural e por uma retração dos depósitos à vista - principais fontes para o financiamento do agronegócio.

De janeiro a abril do ano passado, o sistema financeiro havia feito R$ 19,921 bilhões em contratos de crédito rural voltados para o custeio. Este ano, no mesmo período, essa cifra foi de R$ 16,164 bilhões. Os dados do BC mostram que o financiamento que usa fundos da poupança rural, por exemplo, encolheu 26,97%, passando de R$ 10,388 bilhões para R$ 7,586 bilhões, valores referentes apenas a contratos de custeio.

Nos financiamentos que têm como fundo os depósitos à vista, o tombo foi de 23,40%, passando de R$ 8,279 bilhões para R$ 6,342 bilhões no período. De acordo com o Banco Central, esses valores estão contratados e são classificados como crédito aberto à disposição do tomador, o que não significa que eles foram totalmente concedidos. Ou seja, a liberação efetiva para o produtor na agência bancária pode ser ainda menor do que os dados revelam.

“O crédito não está aparecendo na ponta, para o tomador. Já existe atraso na aquisição de insumos. Essa compra já deveria estar acontecendo, mas não foi por falta de crédito”, disse o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Ricardo Tomczyk.

Menos contratos. No Banco do Brasil, instituição que detém fatia em torno de 70% do mercado de crédito rural, os contratos chegaram ao menor nível para abril desde 2013, somando R$ 2 bilhões para custeio. Em abril do ano passado, o custeio para agricultura e pecuária havia somado R$ 3,79 bilhões. Em abril, o BB detinha 66,65% dos contratos de custeio.

André Nassar, secretário de Política Agrícola do Ministério do Agricultura, afirma que a maior dificuldade do setor gira em torno dos recursos para o fim da safra, dinheiro classificado como pré-custeio e que é usado pelos agricultores para comprar insumos antes do início da safra agrícola.

“Não foi possível tornar viável o pré-custeio. Este ano não existe esse dinheiro. Os juros subiram e os depósitos (funding) caíram, o que gerou um estrangulamento”, explicou o secretário. Segundo ele, no lugar do pré-custeio, o Banco do Brasil conseguiu ofertar linhas de curto prazo, o que deixou os produtores insatisfeitos. “Os produtores estão perdendo oportunidade para comprar insumos”, disse.

Nassar explicou ainda que sempre que a taxa básica da economia, a Selic, sobe, há uma redução dos recursos disponíveis para os financiamentos (ou funding, no jargão do setor). “E isso sempre gera desaceleração na agricultura”, observou. “Este ano estamos trabalhando no limite do funding.”

De acordo com o secretário, há discussões para tentar ampliar a oferta de recursos, mas sem nada definido ainda. Questionado se a mudança nas regras de exigibilidade da poupança rural - com aumento do porcentual que deve ser aplicado na agricultura - trará algum alívio, Nassar afirmou que será positivo por aumentar o volume de recursos.

Tomczyk, da Aprosoja-MT, prevê dificuldades para o financiamento da próxima safra. Calcula que, para fazer o mesmo trabalho da safra anterior, será preciso mais recursos por conta do aumento do dólar em relação ao real, já que os insumos são cotados na moeda norte-americana. O custo desse crédito também promete ser um desafio a mais para o fluxo de caixa dos produtores. Os juros médios do Plano Safra podem subir de algo ao redor de 6,5% para 9% ao ano.

“Estamos enfrentando aumento de custo de produção e, se a taxa de juros vier muito maior, vai impactar diretamente nos custos e achatar ainda mais as margens”, argumentou Tomczyk. “Esse cenário pode significar lucro menor e, em alguns casos, até prejuízo”, lamentou.

Custo elevado. Sérgio Bortolozzo, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), disse que, na prática, ainda não existe linha de pré-custeio e as taxas de juros apresentadas aos produtores foram contestadas pela entidade. O custo do crédito foi considerado demasiadamente elevado.

“Isso tem nos incomodado. Os custos de produção têm subido e esse câmbio, que é favorável para a venda do nosso produto, se continuar subindo, vai se tornar impeditivo para a compra do insumo. Por isso precisamos comprá-los o quanto antes”, relatou.

O Banco do Brasil divulgou seu balanço financeiro esta semana e o único segmento cujas projeções de desempenho para 2015 não foram alcançadas foi o de agronegócio.

De acordo com a instituição, os financiamentos para o setor devem crescer de 10% a 14% neste ano. No primeiro trimestre, porém, o avanço ficou em 9%, abaixo da expectativa. O BB explicou, em relatório, que houve menor volume contratado na linha de crédito agroindustrial na comparação em 12 meses.

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