Crédito farto não levava em conta viabilidade de projetos

Bancos financiaram construção de imóveis, rodovias e ferrovias sem se preocupar se receitas cobririam dívidas

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h07

Com o sistema financeiro dominado pelo Estado, é pouco provável que a China tenha um colapso dos bancos ou uma crise súbita como a experimentada pelos Estados Unidos depois da quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008, afirmam os economistas americanos Michael Pettis e Patrick Chovanec.

Mas o aumento do peso da dívida vai pôr em xeque a receita de crescimento impulsionado por investimentos que turbinaram a expansão chinesa dos últimos anos, em especial depois da crise financeira global.

O resultado será a acentuada desaceleração do ritmo de crescimento da segunda maior economia do mundo, com impacto negativo para o Brasil, que se beneficiou da forte demanda chinesa por commodities a partir de 2000, prevê Pettis.

O dinheiro usado na China para construção de imóveis, rodovias, ferrovias, fábricas, metrôs e aeroportos teve origem em uma profusão de crédito bancário concedido sem grande preocupação com a viabilidade do empreendimento e sua capacidade de gerar receita suficiente para o pagamento da dívida.

No período de janeiro de 2009 a dezembro de 2011, os bancos chineses fizeram novos empréstimos no valor de 25 trilhões de yuans (US$ 3,93 trilhões ou R$ 7,96 trilhões), o que supera todo o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano passado, de US$ 2,5 trilhões, e representa mais da metade do PIB chinês de 47 trilhões de yuans em 2011.

"Nós vamos ter um processo longo e difícil, que levará à acentuada desaceleração da China e afetará de maneira muito negativa o Brasil", declarou Pettis, professor da Universidade de Pequim. Sua previsão é que o país cresça a uma média de 3,0% nos próximos dez anos, depois dos 10% anuais registrados nas últimas três décadas.

Em sua opinião, a coreografia será mais parecida à lenta agonia japonesa do que ao súbito colapso americano. Ainda assim, ele acredita que "o ajuste vai ser mais doloroso do que muitos esperam".

Chovanec, da Universidade Tsinghua, também não considera possível um colapso dos bancos, que deverão ser socorridos pelo Estado, mas observou que as "crises regionais" e a injeção de recursos necessária para contê-las podem ter um efeito paralisante sobre a economia.

Segundo ele, as dificuldades de pagamento enfrentadas por alguns devedores provocarão um efeito dominó e chegarão a empresas que até então não apresentavam dificuldades. Nesse cenário, o governo deverá usar dinheiro público para apagar incêndios que se multiplicarão, o que reduzirá sua capacidade de gerar crescimento.

Os investimentos foram o principal motor propulsor da China nos últimos anos e responderam por mais da metade dos 9,2% de expansão registrados em 2011, porcentual que Chovanec via como insustentável.

Com exportações fracas e consumo doméstico ainda sem músculos, Pequim terá dificuldade em encontrar novas fontes de crescimento para sustentar índices de expansão próximos dos dois dígitos. / C.T.

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