Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Crédito mais barato para setores em crise pode dificultar ação do BC

Decisão do governo de voltar a usar bancos públicos para liberar crédito com taxas menores para setores em crise trouxe preocupação sobre o impacto da medida na inflação

Adriana Fernandes, Ricardo Brito, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2015 | 21h47

BRASÍLIA - Além de sinalizar uma mudança de direção na política econômica, a decisão da presidente Dilma Rousseff de voltar a usar os bancos públicos para liberar crédito com taxas mais baixas para setores em crise trouxe uma preocupação sobre o impacto da medida na inflação.

Interlocutores da área econômica do governo disseram ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, que essa mudança está sendo feita “por necessidade” diante do aprofundamento da crise econômica e também por causa da busca de um acordo político para garantir a governabilidade. Mas, dizem as fontes, é preciso ter muita “cautela” e uma “coordenação” das políticas com o Banco Central (BC).

Fontes do próprio governo alertam que as medidas de estímulos ao crédito com taxas mais baratas vão na direção contrária às políticas de ajuste anunciadas no início do ano e podem atrapalhar a credibilidade da política econômica nesse momento decisivo para o Banco Central domar as expectativas de inflação.

A medida estimula o crédito, coloca mais recursos no mercado e incentiva o consumo, no momento em que o BC trabalha para conter a inflação e trazê-la para o centro da meta.

Ao longo dos últimos meses, o BC trabalhou para baixar a expectativa de inflação para o centro da meta (4,5%), com avanços que podem ser observados principalmente nas projeções para 2017. O Boletim Focus, que registra as projeções dos analistas de mercado, apontou recuo nas expectativas para o IPCA de 2017. A previsão para 2017 está em 4,55%, colada no centro da meta de 4,5%. 

Para 2016, porém, as projeções do IPCA, que vinham caindo, apresentaram ligeira alta pela segunda vez consecutiva. A projeção subiu de 5,43% para 5,44%. O uso dos bancos públicos só alimenta as incertezas que podem limitar o alcance da política monetária.

Ensaio. A decisão reedita a política “anticíclica”, muito usada durante a gestão do ministro Guido Mantega, e tão criticada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Mas deu argumentos ao Palácio do Planalto para buscar apoio político-empresarial, no momento em que a presidente Dilma foi alvo de protestos de rua no domingo, estimulados pelo PSDB.

A mudança de rota nas políticas já está sendo vista na Esplanada dos Ministérios como um “ensaio” na direção de uma nova inflexão desenvolvimentista, mais intervencionista, de Dilma, por necessidade política e, principalmente, econômica, diante do quadro recessivo.

Recado de Levy. Em seu discurso de posse em janeiro, Joaquim Levy deu um recado de que a política desenvolvimentista promovida pelo antecessor Guido Mantega estava com os dias contados. O ministro indicou que, daquele dia em diante, o empresariado teria de caminhar com as próprias pernas, sem concessões do governo:

“O patrimonialismo é a pior privatização da coisa pública. É um mecanismo excludente. A antítese desse sistema é a impessoalidade, o que permite a iniciativa privada se desenvolver sem depender do Estado.”

Mas, diante das críticas de falta de reação à crise econômica, o governo deu uma cartada para tentar amealhar apoio político e do empresariado, ao baixar juros para empresas tomadoras de empréstimos.

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