Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Credores aprovam plano de PDG, mas solução para clientes ainda é incerta

Plano de recuperação aprovado por bancos, que detêm 80% da dívida de R$ 6 bi da companhia, deixa de fora maior parte das obras inacabadas

Circe Bonatelli, Fernando Scheller e Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2017 | 05h00

Após nove meses de negociação, a incorporadora PDG aprovou ontem seu plano de recuperação judicial, que envolve quase R$ 6 bilhões em dívidas. O plano definiu como será o pagamento aos credores, em especial os bancos, que detêm 80% dos débitos. A situação para quem ainda espera pela entrega de um imóvel no entanto, é incerta.

A retomada das obras não foi tratada no plano e depende de uma nova rodada de negociação com bancos. Há 19 empreendimentos inacabados. Para terminá-los são necessários R$ 730 milhões – dinheiro que a PDG não tem. Uma fonte próxima à empresa diz que são boas as chances de um acordo para financiar os empreendimentos, já que grande parte está com mais de 80% das obras concluídas. Há incerteza, porém, se haverá recursos para os que estão em estágio inicial ou ainda nem começaram a sair do chão. 

Os clientes que compraram imóveis na planta terão de discutir a conclusão do negócio diretamente com a empresa, fora do processo de recuperação judicial. Já existem comissões organizadas de adquirentes, que tentam transferir o empreendimento da PDG para outra construtora. Muitos dos compradores já entraram com ações na Justiça contra a empresa.

Dos 19 empreendimentos inacabados da PDG, só três estão incluídos na recuperação judicial. Os demais ficaram de fora, a pedido dos bancos, porque têm patrimônio de afetação – uma espécie de poupança para garantir o término do empreendimento.

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No entanto, como a PDG sofre com prejuízos milionários há muitos anos, o advogado Hamilton Quirino – que representa um grupo de compradores de um projeto da PDG, o Niemeyer Monumental – diz que o dinheiro nem sempre existe na prática. No caso do empreendimento localizado em Niterói (RJ), quase nada sobrou em caixa dos R$ 49 milhões pagos pelos clientes. Agora, os consumidores tentam se unir para repassar o projeto a outra incorporadora (leia mais abaixo). 

Plano. A PDG depende da venda de ativos para pagar seus credores. O problema é que a conta não fecha. Enquanto a dívida beira R$ 6 bilhões, estima-se que o estoque de terrenos e imóveis da companhia valha R$ 2,3 bilhões, contando obras prontas e inacabadas. 

O plano prevê que o dinheiro levantado com vendas vá para os bancos, mas só depois de a PDG bancar despesas para seguir operando, quitar dívida trabalhista e uma pequena parcela do que deve aos credores sem garantia (R$ 88 milhões, divididos em um pagamento individual máximo de R$ 35 mil). Em todos os casos, o prazo máximo para quitação é de 180 dias.

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“Com a aprovação do plano, a PDG poderá voltar à normalidade no pagamento de suas despesas. Isso é importante para que ela volte a operar”, disse Eduardo Munhoz, advogado responsável pelo plano de recuperação judicial da PDG. Considerada a complexidade do caso, que envolve 23 mil credores, o tempo de negociação foi curto. “Temos um número mínimo de brigas e de contencioso.”

 Apesar de a companhia ter muitos problemas a resolver ao longo de 2018, o presidente da PDG, Vladimir Ranevsky, afirma que a incorporadora será capaz de voltar a lançar novos empreendimentos imobiliários a partir de 2019 – esse prognóstico é visto como excessivamente otimista por fontes próximas à companhia, uma vez que a dívida é muito superior aos ativos.

Fontes ligadas à empresa dizem que a companhia deve encerrar a fase atual para, talvez, voltar ao mercado com um novo nome. Ranevsky nega a troca de nome e diz que a empresa quer antecipar “o máximo possível” o retorno dos lançamentos.

'Única saída para nós é a retomada das obras' 

Uma das situações mais dramáticas entre as obras da PDG é a do empreendimento comercial Oscar Niemeyer Monumental, que deveria ter sido entregue em agosto deste ano, mas ainda não teve uma estaca fin cada no chão. “A única coisa que foi feita foi a escavação. Não houve nem o trabalho de fundação. Na prática, nada foi feito”, diz o advogado Hamilton Quirino, que representa os donos das 243 unidades vendidas, alguns dos quais têm ações judiciais contra a incorporadora.

Um dos investidores do Niemeyer Monumental – projeto desenvolvido pelo criador de Brasília, morto em 2012 – foi o despachante Ivan Tavares Fontes, que vê na retomada das obras a “única chance” de reaver o dinheiro. Ivan comprou duas salas, com desembolso total de R$ 410 mil. 

Diante do investimento já feito, ele diz não ver outra saída a não ser a retomada das obras. “O empreendimento não tem dinheiro, e o terreno valeria hoje cerca de R$ 10 milhões, insuficiente para ressarcir aqueles que já pagaram.”

Debate. A associação dos compradores vai se reunir no sábado para debater o repasse do empreendimento a outra construtora que já se mostrou interessada na obra. “O desafio é reunir ao menos os donos de metade das unidades para seguirmos em frente a proposta.”

O novo parceiro teria o direito de vender o restante das unidades – no total, são 770. Quem já pagou pela sala comercial só deverá fazer contribuições adicionais depois que a obra estiver mais adiantada. 

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