Crenças firmes

Os valores corporativos das grandes empresas asiáticas parecem estar recuperando força - mas as aparências enganam

O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2015 | 06h01

Quando a Ásia mergulhou na crise de 1997-98 e o Fundo Monetário Internacional (FMI) submeteu os governos da região ao receituário econômico ocidental, imaginou-se que os opacos e excessivamente diversificados grupos empresariais asiáticos também acabariam tendo de adotar o modelo anglo-saxão de capitalismo. Controladas por magnatas ou pelo Estado, essas corporações se tornariam mais transparentes e focadas, tratariam com mais respeito os interesses dos investidores e passariam a ser administradas por profissionais.

Hoje, a ideia de que a Ásia corporativa um dia se alinharia com o Ocidente parece ter sido fruto de alguma alucinação. Cerca de 70% dos mercados acionários asiáticos correspondem a estatais ou a "business houses" - grandes conglomerados geralmente controlados por uma família. As empresas da região desembolsam apenas um terço de seus lucros em dividendos e buy-backs (ações emitidas com compromisso de recompra), ao passo que na Europa e nos Estados Unidos o desembolso é de três quartos e de 90% dos lucros, respectivamente. Em 2014, a Apple gastou mais com recompras de ações do que as 500 maiores empresas asiáticas juntas. No continente, a moderna doutrina da geração de valor para o acionista nunca conquistou.

Sem reformas. De fato, para quem tem sangue anglo-saxão, a Ásia corporativa com frequência parece estar voltando no tempo. Veja-se o caso das supostas reformas a que os chineses pretendem submeter suas empresas estatais. Em janeiro, o CITC, um conglomerado que cresceu muito durante o governo de Deng Xiaoping, vendeu participações para o grupo CP, uma empresa tailandesa cujo patriarca tem origens chinesas, e para a trading japonesa Itochu.

Nos anos 70, CP e Itochu foram algumas das primeiras empresas estrangeiras a investir na China. A utilização de participações cruzadas e a falta de clareza sobre os objetivos estratégicos da nova sociedade remetem a uma época em que tudo era mais turvo. Em setembro, a gigante de energia Sinopec, também chinesa, vendeu participação em sua unidade de marketing e distribuição, no valor de US$ 17,5 bilhões, para um consórcio de entidades estatais, empreendedores e empresas de fachada sediadas em paraísos fiscais. O negócio é um exemplo perfeito da falta de transparência que está no cerne da governança chinesa.

A crise do crédito imobiliário e outros escândalos mancharam a imagem do capitalismo anglo-saxão. Muitas das estrelas nascentes do setor de tecnologia ocidental desdenharam de seus ideais. A empresa de comércio eletrônico chinesa Alibaba lançou ações no mercado americano com uma estrutura de propriedade complexa, que deixa os investidores quase impotentes - inspirando-se tanto em jovens figurões do Vale do Silício quanto em seus pares mais antigos com sede na Ásia. Na Índia, como fazem há dezenas de anos, os maiores conglomerados privados se imiscuem em todos os cantos da economia. A Reliance Industries recentemente comprou uma emissora de televisão, ampliando sua influência política. A Tata Sons, que é sólida na governança corporativa, mas completamente desleixada na alocação de capital, está abrindo duas empresas aéreas (a primeira que o conglomerado teve foi estatizada em 1953).

As business houses coreanas, chamadas de chaebols, às vezes também dão a impressão de estarem voltando ao passado. A Hyundai deixou alguns investidores espantados ao gastar US$ 10 bilhões na aquisição de um imóvel no luxuoso bairro de Gangnam, onde a montadora pretende erguer uma nova sede. A filha do magnata que administra a Korean Air foi condenada à prisão em fevereiro por humilhar uma comissária de bordo que teria lhe servido nozes sem seguir a etiqueta corporativa. Para os coreanos, o caso mostra como até hoje as famílias que controlam os chaebols arranjam para si privilégios e tratamento diferenciado. Uma pesquisa realizada recentemente pela corretora de valores CLSA conclui que a governança corporativa - medida por critérios como independência do conselho de administração - piorou na Ásia de 2012 para cá.

Filosofia. É possível que os asiáticos tenham apenas um jeito próprio de fazer negócios. Não é de hoje que os acadêmicos debatem a hipótese de que a presença de sistemas judiciários fracos e mercados de capitais incipientes teriam levado as empresas da região a se diversificar e se amparar em laços políticos e familiares. Para seus detratores, essa estratégia gera nepotismo. Seus fãs dizem que ela permite que a tomada de decisões considere objetivos de longo prazo. Mas os dois lados provavelmente agora concordam com a proposição de que os valores corporativos "asiáticos" só tendem a se fortalecer com o progressivo aumento da importância do continente na economia mundial.

O fato, porém, é que esse ponto de vista é movido pela mesma falta de curiosidade intelectual que animava a crença de que a Ásia imitaria o Ocidente. Tendências de longo prazo forçarão as companhias asiáticas a mudar, como mostra o exemplo de Li Ka-shing, o segundo homem mais rico do continente. Em janeiro, o magnata anunciou o desmembramento dos ativos de seu império nos ramos de imóveis, varejo e telecomunicações. A decisão facilitará o processo de sucessão, auxiliando os filhos de Li - que está com 86 anos - a controlar o grupo. É o tipo de coisa que deixa os investidores institucionais felizes: entre janeiro e março, as ações do conglomerado registraram valorização de US$ 12 bilhões. Além disso, a medida ajuda a atrair investimentos, possibilitando ganhos de escala para os principais negócios do grupo. Na semana passada, Li concretizou a aquisição, por US$ 15 bilhões, da O2, uma das maiores operadoras de telefonia da Grã-Bretanha.

Três forças - a mortalidade, a necessidade de satisfazer os acionistas e o imperativo do ganho de escala global - impulsionarão as mudanças em outras empresas. A idade média dos cinco empresários mais ricos de Hong Kong é de 82 anos. Na Coreia do Sul, a Samsung e a Hyundai tentam reordenar suas cadeias de ativos, a fim de preparar a chegada de uma nova geração ao comando. Para tanto, precisam conquistar o apoio dos investidores. Depois do escândalo envolvendo sua nova sede, a Hyundai promoveu uma recompra de ações. Ambos os conglomerados enfrentaram rebeliões de acionistas e foram obrigados a abandonar planos de reestruturação.

Com o envelhecimento dos patriarcas, os investidores institucionais tendem a ganhar mais influência, sobretudo porque há um número cada vez maior de asiáticos economizando para a aposentadoria. Fundos globais, como o BlackRock, já são os maiores investidores institucionais em muitas empresas. No mês passado, o fundo de previdência estatal sul-coreano se opôs à eleição de dois diretores de empresas do grupo Hyundai. O fundo de previdência estatal japonês tem pressionado empresas a ampliar seus lucros. Em 13 de março, a japonesa Fanuc, uma fabricante de robôs extremamente fechada, anunciou que pretende criar um departamento de relações com os investidores e pagar mais dividendos. A empresa tem estado na mira do fundo ativista Third Point.

Nem todas as áreas da economia são afetadas pela globalização - o setor imobiliário, celeiro de muitas fortunas asiáticas, não é para o bico de quem vem de fora. Mas os grupos que atuam em setores abertos à competição externa terão de concentrar seu poder de fogo, a fim de garantir economias de escala, em vez de seguir o velho hábito da diversificação sem direção. Duas das empresas asiáticas de maior valor de mercado - a seguradora AIA, de Hong Kong, e a fabricante de chips TSMC, de Taiwan - são multinacionais focadas. Outras virão.

O resultado de tudo isso talvez seja um conjunto de companhias asiáticas como a do antiquado Li - com famílias (ou o Estado) ainda exercendo algum controle, mas com transparência e prestação de contas aos outros investidores, e dando ênfase à escala global. A ideia de que as empresas asiáticas se aproximariam do ideal anglo-saxão era uma miragem. Mas não é menos ilusão acreditar que elas vão continuar como são.

THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO

SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM

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