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Crepúsculo de uma era

Na última sexta-feira, a Agência Internacional de Energia (AIE) advertiu que o consumo de petróleo crescerá menos em 2016. Neste 2015 até agora, a demanda foi, em média, 1,8 milhão de barris por dia superior à de 2014. Em 2016, o aumento do consumo será de apenas 1,2 milhão.

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2015 | 03h00

Como a produção vem crescendo mais do que isso (cerca de 2,5 milhões de barris por dia), as novas estimativas apontam para encalhes crescentes do produto e de seus derivados. Bastou essa observação da AIE para que na sexta-feira os preços caíssem quase 3,0% no mercado futuro de Nova York.

Alguns dias antes, o secretário-geral da Opep, Abdallah Salem el-Badri, advertiu os sócios mais aflitos do bloco, os mesmos que vêm pedindo reduções unilaterais de produção, que a Opep já não controla o mercado. Se é para influenciar os preços, disse ele, é preciso que outros grandes produtores (especialmente os Estados Unidos e a Rússia) também concordem em cortar a produção para obter uma reação.

Afora isso, por imperativos ambientais, grande número de países vai se comprometendo a reduzir substancialmente a queima de combustíveis fósseis para substituí-los por energia de fonte limpa e renovável. Em junho, o Grupo dos Sete (G-7 – Estados Unidos, Canadá, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) anunciou a intenção de bani-los de seus países até 2100. Em dezembro, a 21.ª Conferência do Clima (COP 21), que acontecerá em Paris, deve intensificar esse discurso. A Toyota, maior produtora de veículos do mundo, avisou no fim de outubro que prevê até 2050 o fim da produção de seus carros a gasolina e a diesel, hoje correspondentes a 85% da oferta de suas marcas. 

Essas e outras novidades são suficientemente relevantes para demonstrar que o petróleo enfrenta gradativa, mas aparentemente inexorável, perda de importância na matriz energética mundial.

Para o ex-ministro Delfim Netto, por exemplo, já não pairam dúvidas de que entrou numa fase firme de decadência, equivalente à que atingiu em cheio o carvão na passagem do século 19 para o século 20.

Nem o governo brasileiro, nem a Agência Nacional do Petróleo, nem a Petrobrás parecem dispostas a enfrentar seriamente a nova relação de forças. Como a Coluna de ontem observou, em vez de apontar os custos reais de produção, a diretoria da Petrobrás prefere limitar-se a dizer que aumenta substancialmente a produtividade do petróleo nas operações do pré-sal. Com isso, parece evitar discussões sobre a necessidade de rever a política do setor.

Por enquanto, a decisão é evitar novos leilões, seja porque a Petrobrás já não está em condições de assumir mais compromissos, seja porque o nível baixo de preços já não atrai interessados como há alguns anos.

Essa omissão traz o risco de que o Brasil acabe por não tirar proveito de suas imensas reservas de óleo e gás. Duas são as hipóteses básicas. A primeira é a de que os preços não se recuperem mais. Nesse caso, “se os custos de produção não forem reduzidos de maneira a ficarem compatíveis com os preços, a situação do setor no Brasil pode ficar desesperadora. É como se, de repente, o País perdesse um terço de sua produção, que hoje vem do pré-sal”, alerta o ex-diretor-geral da ANP David Zylbersztajn. 

A outra hipótese é a de que, lá na frente, os preços se recuperem. Nesse caso, adverte outro especialista do setor, Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (Cbie), por falta de leilões, o Brasil pode não ter produção suficiente para tirar proveito deles: “Há uma demora de cerca de seis anos para um campo começar a produzir”. 

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