Cresce dependência brasileira das commodities, mas os preços caem

Com a dificuldade da indústria brasileira de ganhar mercado no exterior, matérias-primas passam a ter mais espaço na pauta de exportações, mas preço de produtos como soja e minério de ferro estão em queda, o que afeta o resultado da balança comercial

Mariana Durão , O Estado de S. Pauio

14 de setembro de 2014 | 05h00

RIO - A contínua queda dos preços internacionais de commodities, como a soja e o minério de ferro, acende o sinal amarelo para a balança comercial brasileira. As exportações de manufaturados seguem minguando, minadas por fatores como a crise da vizinha Argentina, seu principal comprador. O resultado é que o País está mais dependente da venda de matérias-primas justamente quando muitas estão em um ciclo de baixa que pode se intensificar em 2015. 


De janeiro a agosto, os produtos básicos representaram 50,4% da receita de exportação, segundo os últimos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). É a maior participação desde 1978. As vendas de manufaturados recuaram 7% em relação ao mesmo período de 2013, para US$ 53,5 bilhões. Já a lista dos básicos - que inclui minério de ferro, soja, petróleo em bruto, milho e carnes - teve vendas 4,7% maiores, somando US$ 77,6 bilhões. 


“O Brasil aumentou sua dependência das commodities porque a fonte de geração de divisas em manufaturados está secando com seu principal mercado, a Argentina. O problema é que as cotações internacionais (das commodities) não estão demonstrando o vigor que gostaríamos, principalmente o minério de ferro e a soja para 2015”, diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro. 


Carro-chefe das exportações, o minério de ferro acumula uma queda de preços de 40% no ano, alimentada pelo aumento da oferta mundial e números menos vigorosos na economia chinesa. A cotação da matéria-prima negociada na China saiu de US$ 135 a tonelada em janeiro para US$ 81,90 na quinta-feira, a mais baixa dos últimos cinco anos. Em relatório, o banco Goldman Sachs disse que a “era do ferro” chegou ao fim, e o preço pode cair ainda mais. 


Vale. Maior exportadora do País, a Vale registrou receita 10,8% menor nas vendas externas de janeiro a julho. Mesmo com vantagens em termos de custos logísticos e da alta qualidade de seu minério, a empresa faturou US$ 12,8 bilhões, ante US$ 14,4 bilhões nos sete primeiros meses do ano passado. 


Ao comentar o cenário, em resposta ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o presidente da Vale, Murilo Ferreira, classificou o momento como “doloroso”, pela queda de preço tão acentuada, mas “saudável” na medida em que trará recompensas aos produtores mais eficientes e que produzem minério de melhor qualidade a custos competitivos. Ele aposta na recuperação de preços. “Acreditamos que estamos atingindo um piso de preço e, face ao início de redução de estoques nos portos chineses, o preço apresentará uma recuperação, fixando-se ao redor de US$ 95 até o final do ano.” 


A AEB calcula que a receita com a exportação de minério de ferro some US$ 30,055 bilhões em 2014, caindo 7,5% e sendo ultrapassada pela do complexo soja (US$ 30,6 bi). O preço mais baixo tende a ser compensado em parte pelo maior volume vendido. A AEB estima que o preço médio efetivo de exportação (FOB) do minério fique em torno de US$ 80 por tonelada e caia a US$ 65 em 2015. 


Alimentação. A balança comercial também sofre pressão do lado das commodities agrícolas. Os preços mundiais dos alimentos atingiram em agosto o menor nível em quatro anos, refletindo a queda das cotações de lácteos e grãos, informou relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O documento traz outra má notícia para o comércio exterior ao indicar que a pressão tende a se agravar nos próximos meses. 


O Departamento de Agricultura dos EUA projeta safras recordes de soja e milho no país e uma nova safra histórica de soja no Brasil. Com base nisso, a FAO estima que os estoques globais de grãos atingirão 616 milhões de toneladas no ciclo 2014/15, alta de 6% ante o período anterior e o maior estoque global formado em 15 anos. 


A Fundação de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) está revisando sua projeção de déficit de US$ 3,5 bilhões para o saldo comercial. A economista Daiane Santos diz que o número ficará menos negativo mas não pela melhora do lado das exportações e sim por conta do recuo das importações, um sinal de desaquecimento da economia. “A concentração da pauta nos básicos aumentou e a fatia dos manufaturados caiu, o que torna mais preocupantes as notícias negativas sobre os preços de commodities como o minério.” 


Preste atenção: Dependência Negativa

1.Os produtos básicos representam 50,4% da receita das exportações. É a maior participação desde 1978. As importações recuaram 7% no período e as exportações dos básicos foram 4,7% maiores.

2. Como carro-chefe das exportações do Brasil, o minério de ferro acumula uma queda de 40% nos preços neste ano por causa do aumento da oferta mundial e pela desaceleração da China.

3. As commodities agrícolas também pressionam a balança comercial brasileira. Os preços mundiais dos alimentos atingiram o menor nível em quatro anos.

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