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Cresce dependência brasileira do capital especulativo

Déficit em transações correntes está perto de US$ 90 bi, e entrada de investimento estrangeiro direto, de US$ 60 bi, não cobre o rombo

JOÃO VILLAVERDE, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2015 | 02h01

BRASÍLIA - A economia brasileira está mais dependente dos capitais estrangeiros especulativos. No momento em que o BC voltou a elevar a taxa básica de juros, a Selic, a dependência do País desses juros altos também aumentou.

Com um déficit em transações correntes na faixa de US$ 90 bilhões, mas com uma entrada de investimento estrangeiro direto que deve ser muito inferior - próxima de US$ 60 bilhões, segundo o Banco Central -, a diferença precisa ser fechada pela entrada dos capitais estrangeiros especulativos.

Eternamente combatidas pelo PT e pela própria presidente Dilma Rousseff desde quando comandava a Casa Civil do governo Luiz Inácio Lula da Silva, as entradas de capitais estrangeiros de curto prazo, que chegam no Brasil para aproveitar as elevadas taxas de juros, vão agora ajudar a financiar o buraco.

As transações correntes apresentam o saldo entre todo o dinheiro que entra em um País e todo o dinheiro que sai. Entre 2004 e 2007, o Brasil registrou superávits na chamada conta corrente. A partir de 2008, com a crise internacional e a perda de dinamismo da balança comercial - onde os maiores fluxos de dólares estão concentrados -, a situação mudou.

Novo rumo. Até 2012, o déficit nas transações correntes do País era totalmente financiado pela entrada de investimento estrangeiro direto. Desde então, o rombo foi aumentando e a dependência dos capitais especulativos, que aproveitam as taxas de juros, também.

"A situação é delicada e o patamar do déficit é extremamente desconfortável. Mas o buraco de quase US$ 30 bilhões deve mesmo ser fechado com o ingresso de capital para a renda fixa, para aproveitar as nossas taxas de juros", avalia Rafael Bistafa, da Rosenberg Associados.

Neste mês de março, com a entrada em vigor do programa de expansão monetária da União Europeia, aumentará muito a liquidez no mundo. Isto é, com a maior impressão de euros, na Europa, como forma de estimular o crescimento na região, a quantidade de dinheiro aumentará.

Nesse cenário, atrativos como a taxa básica de juros, a Selic, hoje em 12,75% ao ano, reluzem ainda mais. O mundo ainda convive com juros reais negativos nos países desenvolvidos e a China, o maior entre os emergentes, tem cortado juros.

"Esses juros mais altos no Brasil aumentam a rentabilidade das aplicações em títulos públicos. Temos um patamar de juros mais alto que nos países avançados, então operações de 'carry trade' que ajudam a financiar o déficit em transações correntes", afirma a economista Julia Gottlieb, do Itaú Unibanco.

Ela fez referência à operação de "carry trade", quando os investidores tomam empréstimos em países de juros baixos, como o Japão, onde a taxa real é negativa, e aplicam em títulos de países com juros mais elevados, como é o caso do Brasil.

A especialista do Itaú Unibanco, no entanto, aponta para um fato que pode ser um complicador nessa engenharia: a taxa de câmbio. Nas últimas semanas, o dólar aumentou no Brasil, ultrapassando R$ 3 pela primeira vez em quase 11 anos. "A rentabilidade dessas operações de 'carry trade' dependem do câmbio. Se o investidor achar que o câmbio vai se depreciar mais, diminui um pouco o apetite. Esses fluxos de capitais estrangeiros para títulos públicos são mais voláteis que o investimento direto."

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