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Cresce o temor de pouso forçado da economia chinesa

Modelo de crescimento adotado pelo país há 15 anos levou ao excesso de capacidade, com empreendimentos à espera de clientes

Fernando Nakagawa, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 03h00

Cresce a preocupação de que a China possa estar em meio ao processo de pouso forçado da economia. Dados fracos reforçam o entendimento de que o país não enfrenta apenas uma desaceleração temporária e analistas já preveem que a turbulência chinesa tem chances de persistir por vários meses. O medo é que a piora da situação enterre de vez a expressão “ritmo chinês”. Para explicar a mudança do momento da segunda maior economia do mundo, economistas citam da mudança na demografia até a supercapacidade de alguns setores da economia.

De principal motor do crescimento mundial a motivo de dor de cabeça. Em uma frase, essa pode ser a síntese da história econômica recente da China. O país, que crescia a um ritmo de dois dígitos e conseguiu amenizar a crise financeira de 2008, parece estar em um momento de inflexão: a atividade esfria há vários trimestres, há indicação de contração nas fábricas, as exportações desaceleram, as ações despencam sem motivo aparente e, em um movimento surpreendente, Pequim flexibilizou o câmbio e permitiu alta de 3% do dólar sobre o yuan.

“A desaceleração da China é mais que cíclica. Nossos economistas avaliam que a China enfrenta um declínio estrutural na tendência de crescimento e que não vivemos apenas o impacto de fatores cíclicos ou da apreciação do yuan vista desde o último verão”, dizem os analistas do banco francês BNP Paribas. Para os economistas da casa, já é possível falar em “um novo paradigma chinês”. Para o banco francês, esse novo paradigma tem duas razões.

A primeira é demográfica. “A China enfrenta a mesma reversão acentuada na população economicamente ativa como o Japão no fim da década de 90”, diz o BNP Paribas. “Em segundo, o modelo de crescimento adotado há 15 anos depende da acumulação de capital e isso levou ao excesso de capacidade em alguns setores”, dizem os economistas do BNP. A preocupação com o excesso de capacidade coincide com o noticiário dos últimos meses que exibiu diversos casos de infraestruturas sem uso. Apesar da maior população do mundo, há várias novas cidades vazias e empreendimentos (hotéis e edifícios residenciais) sem ocupação à espera de clientes.

Para os analistas do Lloyds Bank, a desconfiança com a China cresce porque praticamente todas as frentes geram dúvida no investidor. Há, por exemplo, firme desaceleração na atividade, exportações apresentam resultado volátil e há ansiedade crescente sobre o que o governo fará no câmbio e com a queda das ações. Também há temor de bolha em setores como o imobiliário e dúvidas sobre a saúde do sistema financeiro. 

Mercado. Enquanto investidores tentam entender o momento, a China também é palco de um debate que pode se tornar uma queda de braço. Pequim tem dado demonstrações de que acredita que o Estado pode controlar parte do funcionamento do mercado. Analistas dizem que fundos ligados às estatais têm comprado ações em reação à queda dos preços nas Bolsas de Xangai e Shenzhen, mas a mão vendedora privada tem prevalecido.

Os economistas do banco inglês não arriscam uma aposta mais assertiva, mas dizem que será “inevitável” que Pequim seja forçado a conceder mais poderes ao mercado.


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