Cresce preocupação no Brasil com crise europeia

Crescimento menor da Alemanha e França e risco de calote da Grécia ampliam entre os analistas e o governo brasileiros os sinais de alerta

Lu Aiko Otta e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Aumentou a preocupação do governo com a crise econômica na Europa. O risco de calote na dívida grega e os sinais que a retomada do crescimento na Alemanha e na França está perdendo o fôlego foram registrados na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada no último dia16, que justificou a elevação da taxa de juros em 0,25 ponto porcentual, para 12,25% ao ano.

Para a equipe econômica, a situação no velho continente é um ponto a mais de incerteza num quadro internacional já bastante complicado, o que cria um dilema. De um lado, é preciso esfriar a economia para combater a inflação. De outro, é preciso preservar o dinamismo do mercado interno, para que o País não seja surpreendido mais à frente com o impacto de um possível agravamento da crise na zona do euro no comércio internacional. Encontrar a medida certa entre as duas coisas é o centro das atenções dos economistas do governo neste momento.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem dito a seus auxiliares que os países europeus em crise precisam de injeção de dinheiro, e não de planos que tenham como condição pesados ajustes na economia. A avaliação no governo é de que é imprescindível que a Alemanha deixe de impor severas condições para uma nova ajuda ao governo grego. O default da Grécia é apontado, no entanto, como uma "questão de tempo", devido à forte resistência da população em aceitar as reformas necessárias para sanar as finanças do país.

A crise grega traz dois tipos de efeito para o Brasil. O primeiro, potencial, é a moratória dos títulos emitidos por aquele país provocar uma crise no sistema bancário europeu. Isso poderia atrasar ainda mais o processo de recuperação econômica da região, com reflexos no comércio brasileiro. Além disso, uma moratória pode provocar um efeito chamado "aversão ao risco", no qual os investidores procuram aplicações mais seguras. Nesse caso, há risco de fuga do capital especulativo que se encontra no País.

"Se isso ocorrer, a Europa desacelera e o dólar dá um pulo" , disse o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "Até a Europa se recuperar serão de dois a três anos, e será necessária outra rodada de estímulos ao crescimento em uma situação em que os governos já estão com a corda no pescoço." Embora se acredite que uma eventual crise bancária na Europa não terá a mesma intensidade da de 2008 e 2009, a avaliação feita no governo brasileiro é que os bancos da região ainda estão com exposição elevada em títulos dos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).

O segundo efeito já está presente na economia brasileira. "Já estamos sendo prejudicados, e não é de hoje", sentencia o economista-chefe da Austin Ratings, Alex Agostini. Ele explica que a Europa é uma parceira comercial importante. "A crise também tira o fôlego de melhora na valorização dos ativos", disse. Por exemplo, a Bolsa de Valores de São Paulo até hoje não recuperou o volume de negócios que havia antes da crise. Em 2008, a negociação na Bolsa bateu na casa dos 76.000 pontos e atualmente está oscilando entre 62.000 pontos e 65.000 pontos.

Além disso, diante dos riscos, o crescimento fica menor do que poderia. Os empresários ficam mais conservadores e tendem a refrear investimentos, segundo avalia o economista Bráulio Borges, da LCA.

Parada súbita. Na contramão dos que se preocupam com a lentidão na recuperação das economias avançadas, alguns economistas começam a falar em "parada súbita" no crescimento da economia brasileira. O País tem atualmente déficit em suas transações com o exterior, o que equivale a dizer que ele utiliza poupança externa para se financiar. Isso hoje é fácil porque a taxa de juros interna, muito elevada, atrai grande volume de recursos externos.

Porém, em algum momento no futuro próximo os EUAe a Europa voltarão a crescer, o que os levará a elevar as taxas de juros, hoje próximas a zero. Um ajuste nos juros lá fora poderia levar os capitais especulativos aplicados a aqui a saírem bruscamente e em grande volume.

Nesse caso, o Brasil teria uma interrupção em sua trajetória de crescimento.

Para Borges, essa hipótese é no momento exagerada. Ele observa que, antes da crise de 2008, falou-se muito de um "sudden stop" na economia americana. "Mas na época os Estados Unidos tinham um déficit em conta corrente de 7%", disse. Hoje, o déficit brasileiro está na casa dos 2%.

"O risco de uma parada brusca fica mais longe à medida que as economias internacionais crescem menos do que o esperado", disse o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central. "O aperto da política monetária dos Estados Unidos vai demorar e a Europa continua cheia de problemas, não tem como subir os juros."

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