Cresce troca de salário maior por menor

Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), salário médio dos admitidos em março era 12,8% inferior ao dos demitidos; em maio de 2011, diferença era de 5,2%

Luiz Guilherme Gerbelli, Anna Carolina Papp, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2015 | 05h00

 Em dezembro, a reestruturação pedagógica de um colégio particular de São Paulo pôs fim ao emprego da professora Denise Gonzaga, de 27 anos. Foram meses em busca de um novo trabalho. Próximo da volta às aulas, enfim, foi contratada por uma escola menor. O problema: o salário é um terço menor do que o anterior, e a conta do mês passou a não fechar. “Estou tendo de me privar de muita coisa que gostava de fazer. Na acupuntura não vou mais, esportes não pratico mais. Algumas coisas eu tive de cortar”, afirma ela. “Trabalhava meio período e agora trabalho o dia inteiro.” 

O aperto no orçamento por meio do salário está se tornando mais comum para o brasileiro. A diferença entre o salário dos trabalhadores desligados em relação ao dos admitidos cresceu. Isso significa que, com a economia em recessão, as empresas estão cortando custos demitindo trabalhadores mais bem remunerados, enquanto as vagas abertas pagam menos. 

Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), ilustram essa relação desfavorável para o trabalhador. Em março, a diferença foi de 12,8%. No mesmo mês de 2014, estava em 9,8%. “As empresas têm feito programas de aposentadoria ou de demissão voluntária para minimizar os custos. São desligados principalmente os trabalhadores com salário mais altos, e os admitidos têm perfil salarial menor. Isso faz com que essa razão venha aumentando”, afirma Rodrigo Leandro de Moura, pesquisador e professor do Ibre/FGV e responsável pela compilação dos dados.

Os salários de desligamento sempre foram maiores do que os de admissão, mas essa relação já foi mais favorável para o trabalhador que buscava emprego, sobretudo até 2012. Em maio de 2011, por exemplo, a diferença foi de apenas 5,2%. “A relação entre os salários de desligamento e demissão caiu entre 2009 até meados de 2012, mas desde então vem crescendo, com fortes oscilações”, diz Moura. 

O movimento de correção dos salários também pode ser explicado, em parte, pelo ganho real que os trabalhadores conquistaram nos anos de forte crescimento econômico. Quando o mercado de trabalho estava aquecido – mesmo nos anos de baixo crescimento –, a maioria das categorias conseguia aumentos reais nos salários nas negociações. Muitas empresas também concediam reajustes com receio de perder a mão de obra qualificada, na expectativa de retomada do crescimento.

“Algumas empresas deram aos seus trabalhadores aumentos maiores do que poderiam ter concedido, porque a pessoa podia não estar tão completa do ponto de vista da competência. Mas o mercado estava demandante (de profissionais) e era uma maneira de reter o profissional”, afirma Betania Tanure, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

Substituição. A mudança no perfil do mercado de trabalho por meio do corte de custos já é sentida pelas empresas de recrutamento e seleção. Na Page Personnel, 80% da demanda deste ano tem sido para a substituição de profissionais, e não em aumento e criação de novos cargos. 

“O que também pauta essas substituições é um esforço da empresa em qualificar a mão de obra. Os momentos mais difíceis obrigam as empresas a ter uma leitura muito mais crítica dos recursos e da alocação deles”, diz Ricardo Haag, diretor da Page Personnel. “As empresas, portanto, olham de maneira crítica as suas equipes e em alguns momentos entendem que não precisam de profissionais tão seniores e caros para realizar determinada função.” 

Para Gustavo Tavares, diretor da consultoria de gestão de negócios Hay Group, embora a diferença entre salários de admissão e desligamento não seja algo novo, ela pode se acentuar em momentos de crise. “Num momento de desaceleração da economia, isso acaba se potencializando, e pode ocorrer com mais frequência em alguns setores”, diz. Ele afirma que um movimento comum é, no caso de corte em cargos mais altos, como diretoria ou presidência, a alocação de um outro executivo da própria empresa, que irá ganhar de 15% a 20% a menos que o que saiu.

Segundo um estudo da consultoria, o custo da saída de um empregado gira em torno de 12 a 18 meses o seu salário, levando em conta questões como o investimento em sua capacitação. 

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