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Crescei e multiplicai-vos

A competição acirrada no mercado interno anima universidades indianas a partirem para o exterior

The Economist

14 de outubro de 2015 | 02h04

Sabe-se que há universidades estrangeiras que miram com olhos cúpidos o viçoso mercado de ensino superior indiano. Não tão conhecido é o fato de que algumas universidades indianas têm se aventurado no exterior. Atul Chauhan, presidente da Amity University, enumera vários países, entre os quais Estados Unidos, Grã-Bretanha, China, Cingapura e Emirados Árabes Unidos, onde sua instituição mantém postos avançados de ensino. Este mês, a Amity, uma entidade sem fins lucrativos que, de forma pouco comum, pertence a um conglomerado com fins lucrativos, o AKC Group, vai inaugurar na Romênia mais um campus. Os próximos países da lista são Austrália, Alemanha, Brasil e Japão, entre outros. "A meta é estar presente em 50 países nos próximos dez anos", diz Chauhan.

O campus original da Amity é formado por um conjunto de prédios de tijolos aparentes e vidro, a leste de Délhi. Seu departamento de comunicações é mais bem equipado que os estúdios das emissoras de rádio e TV que há nas redondezas. A instituição oferece mais de 240 cursos (principalmente nas áreas de engenharia e administração) e diz ter 125 mil alunos, a maioria deles nas mais de 20 unidades que tem na Índia. São cerca de 10 mil os matriculados no exterior.

Os planos de expansão enchem os olhos dos executivos da Amity, ainda que algumas instituições concorrentes digam que construir um sem-fim de campi não é a mesma coisa que implantar uma cultura docente, contratar professores competentes e atingir elevados padrões acadêmicos. "Quem tenta abraçar o mundo corre o risco de enfiar os pés pelas mãos", diz com desdém o presidente de uma rival indiana da Amity.

A instituição de Chauhan já sofreu alguns tropeços. Teve de adiar, por exemplo, o investimento de US$ 152 milhões que pretendia fazer num campus em Londres, depois que o governo britânico enrijeceu as normas para a concessão de vistos, afugentando muitos potenciais estudantes estrangeiros. Chauhan diz que os recursos foram aplicados na aquisição de uma área de 6 hectares em Dubai, onde agora a instituição tem 2 mil alunos - prova, diz ele, de que "pretendemos nos manter aqui pelos próximos 100 anos".

Os conceituados institutos de tecnologia indianos, que pertencem à administração pública e, em vista disso, são menos ágeis que entidades privadas, não têm, por ora, planos de se expandir no exterior. Mas, diz Shobha Mishra Ghosh, do FICCI, um grupo lobista de Délhi, há no país uma série de universidades particulares com recursos mais do que suficientes para se aventurar em outras terras - e algumas delas estão justamente fazendo isso. O mercado indiano cresce em ritmo acelerado. De acordo com algumas estimativas, 42 milhões de indianos estarão cursando o ensino superior em 2020. Mas a competição é dura: mais de 35 mil faculdades e 700 universidades disputam estudantes. Faz sentido, portanto, tentar atrair os 28 milhões de pessoas com ascendência indiana que vivem no exterior, assim como os 200 mil indianos que todos os anos vão estudar em outros países.

Filhos de famílias ricas com notas baixas são uma clientela interessante para os campi que as universidades indianas têm no exterior, diz Ghosh. Um curso de graduação chega a custar US$ 13 mil por ano em Dubai, valor três vezes superior ao que se paga num campus indiano. Mas a disputa por vagas pode ser menos intensa. Vinod Bhat, vice-presidente do Manipal Group, uma rede de seis universidades, diz que todos os anos 60 mil jovens competem por uma das 190 vagas do curso de medicina oferecido pela instituição que deu origem ao grupo, cujo campus fica no Estado de Karnataka, no sul da Índia. Já na faculdade de medicina que a rede tem em Pokhara, no Nepal, a disputa não é tão acirrada.

Ranendra Narayan Saha, presidente do Instituto de Tecnologia e Ciências Birla (BITS, na sigla em inglês), concorda que os campi estrangeiros atraem indianos ricos que não conseguiriam uma vaga nas universidades do país. Sua instituição abriu uma unidade em Dubai no ano 2000, e pretende passar de 1,8 mil para 2,5 mil alunos em quatro anos. A maioria é de indianos, muitos deles matriculados em cursos de engenharia ou biotecnologia, embora Saha faça planos de ampliar a diversidade.

Até agora, o Manipal Group é mais bem-sucedida instituição universitária indiana a se aventurar no exterior. Fundado em 1953, o grupo atualmente tem dois campi na Malásia, responsáveis pela formação de um em cada cinco médicos do país. O Manipal também conta com postos avançados em Dubai, em Antígua e no Nepal. "Estamos olhando com muito interesse para a África do Sul e o Sri Lanka", diz Bhat. "O Manipal é mais que uma marca indiana", sustenta ele, pois muitos de seus alunos malaios não são indianos étnicos. Como também não são os 4 mil médicos e os 6 mil engenheiros que se graduaram nos campi que o Manipal tem pelo mundo afora e que atualmente trabalham nos Estados Unidos.

O Observatory on Borderless Higher Eduction, um centro de estudos e pesquisas britânico, prevê que até 2020 universidades de todo o mundo manterão 280 campi no exterior, frente a 82 em 2006. Grande parte dessa expansão acontece em sentido "Sul-Sul", como é o caso das instituições indianas com unidades espalhadas pela África e Ásia.

As instituições de ensino superior da Índia têm outra razão para partir para o exterior: um dos critérios que garantem uma boa nota nos rankings internacionais mais importantes é a proporção de alunos estrangeiros matriculados. Com alguns campi no exterior, é mais fácil atingir esse objetivo. O BITS é um caso raro de universidade privada indiana que conseguiu entrar no ranking global do Times Higher Education - embora apenas na faixa que reúne as instituições que ficaram entre a 600ª e a 800ª posição.

Os presidentes das universidades privadas indianas admitem que, apesar de todos os motivos que justificam a expansão no exterior, não se trata de uma rota para o sucesso fácil. "Nós trabalhamos com um horizonte de dez a quinze anos. Somos muito pacientes", diz Chauhan, da Amity. Mesmo assim, diz Bhat, do Manipal, "é preciso olhar para o mundo como se fosse o seu mercado" - mas sem esquecer que o prêmio mais polpudo está em casa.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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