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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Crescem rumores sobre eventual renúncia do presidente do BC

A capital argentina voltou a viver momentos de tensão, nesta sexta-feira à tarde, quando foram intensos os rumores de uma eventual renúncia do presidente do Banco Central, Mario Blejer. O motivo dos boatos foram os freqüentes choques ocorridos nos últimos dias entre o BC e o Ministério da Economia sobre que tipo de solução poderia ser aplicada para terminar com o ?corralito?, como é denominado o semicongelamento de depósitos bancários.A idéia do ministro da Economia, Roberto Lavagna, é implementar uma saída para o ?corralito? na qual os prazos fixos e contas correntes retidas seriam trocados por bônus em pesos e dólares, em prazos de cinco e dez anos, dos quais alguns seriam compulsórios e outros voluntários. Dentro desse plano, os bancos arcariam com parte dos custos.O governo do presidente Eduardo Duhalde pretende encontrar uma saída urgente para o ?corralito?, já que ele é fonte de protestos diários de correntistas furiosos com o confisco bancário e estão minando a sustentabilidade do governo. Além disso, os recursos na Justiça para liberar os depósitos congelados podem colocar em risco a liquidez do sistema financeiro.No entanto, Blejer, que trabalhou no Departamento de Oriente do Fundo Monetário Internacional (FMI) até meados do ano passado, prefere que os bônus tenham prazos de dez anos e sejam todos compulsórios. As divergências entre o BC e o ministério da Economia ameaçam causar uma onda de renúncias. Blejer manteve diversas reuniões com Juan Carlos Maqueda, presidente do Senado, provisoriamente a cargo da presidência da República, enquanto Duhalde está na Europa. Além disso, reuniu-se com o ministro do Interior, Jorge Matzkin e o chefe do gabinete de ministros, Alfredo Atanasof. No entanto, analistas calculam que o desenlace desta crise de poderes ainda vai esperar até terça-feira, quando o ministro Lavagna se reunirá em Washington com o diretor do FMI, Horst Köhler.Especula-se em Buenos Aires que Lavagna será pressionado para implementar uma saída compulsória do ?corralito?, que, embora possa causar um grave custo político, estaria mais ao agrado do FMI e dos bancos. Por causa dos rumores, o dólar voltou a subir. Nos bancos, sua cotação foi de 3,30 pesos, enquanto nas casas de câmbio ficou em 3,47 pesos. Cerca de 1,040 milhão de pais e mães de família desempregados começaram a receber ontem (sexta-feira) 150 pesos mensais, que constituem o subsídio dos planos temporários de trabalho. Esta é a forma encontrada pelo governo Duhalde de aliviar os graves efeitos do desemprego, que atinge mais de 23% da população economicamente ativa.Os desempregados receberão seu subsídio em ?lecops?, equivalentes a pesos. O ?lecop? é um bônus criado meses atrás pelo governo federal, para ser utilizado como ?moeda paralela? para o pagamento de funcionários públicos e fornecedores do Estado. A ministra do Trabalho, Graciela Camaño, sustentou que ?o lecop é a única moeda com a qual o governo conta para pagar os planos de trabalho?.No total, o programa de trabalho temporário custará ao governo federal 1,8 bilhões de pesos ? em lecops - por ano. Segundo Camaño, os fundos para financiar este programa seriam provenientes dos impostos sobre as exportações.O pior para a Argentina ainda estaria por vir. O fundo do poço poderia ocorrer no próximo trimestre, segundo o ex?ministro da Economia, Ricardo López Murphy. O ex?ministro sustenta que a recessão se aprofundará logo depois de julho, e que, no fim do ano, a queda do PIB estará entre 13% e 15%. No entanto, segundo López Murphy, esta é uma perspectiva otimista. ?Tudo dependerá de que o governo não opte pelo caminho de gerar uma hiperinflação.?Mesmo antes de chegar ao fundo do poço, os argentinos já padecem o pior momento da história econômica do país. Segundo a Fundação Mercado, atualmente as famílias argentinas somente podem adquirir 45,2% dos bens e serviços da cesta básica de consumo que compravam há três anos. Desde 1999, afirma a Fundação, o salário real encolheu 54,71%. Só entre janeiro e abril deste ano, as receitas das famílias argentinas caíram em média 14,8% de forma nominal.Uma pesquisa da Universidade Torcuato Di Tella indica que, em maio, a confiança dos consumidores teve uma queda de 6,4% em relação a abril. Segundo a Di Tella, enquanto, no mês passado, 45% dos pesquisados responderam que a situação macroeconômica da Argentina estará pior daqui a um ano, esta proporção passou para 56% em maio.A falta de perspectivas para o futuro está causando uma perda acelerada das poucas esperanças que existiam sobre o país. Segundo uma pesquisa da Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), um de cada cinco argentinos planejam deixar a Argentina e emigrar em busca de oportunidades melhores. O alvo da maior parte dos imigrantes é a Espanha. Para ali, planejam emigrar 34% dos argentinos que querem partir.Os Estados Unidos ocupam o segundo lugar, com 32% das preferências. Outros 8% pretende ir para a Itália, enquanto 6% escolheriam outros países europeus. Nesses países, os argentinos pretendem escapar do índice de desemprego de mais de 23% (que alguns analistas calculam em 30%), da queda de mais de 10% do PIB prevista para este ano, além da perspectiva de inflação de mais de 80%.As pessoas mais interessadas em emigrar são os menores de 35 anos, desempregados e com grau universitário. Segundo Horacio O?Donnell, reitor da UCES, o desejo de emigrar que atinge os argentinos ?é um sinal da erosão das esperanças, a frustração dos jovens diante deste país que estão herdando?.Leia o especial

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