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Crescer com a crise

Da crise nascem oportunidades, de situações adversas se extrai força para superar dificuldades. Essas sentenças têm sido repetidas em todo o mundo nos últimos meses. Mas o governo Lula não as tem seguido, recusa o caminho de atacar a crise econômica usando ela mesma como estímulo para aliviar seu impacto na vida dos brasileiros. Perde chance, tempo e oportunidade.Até agora o governo tem enfrentado a crise a partir de seus sintomas: se há escassez de crédito, trata de suprir a falta liberando o compulsório aos bancos ou criando novas linhas para socorrer a indústria automobilística, a construção civil, a agricultura, as exportações. Se o câmbio dispara, oferta dólar ao mercado para controlar a cotação. E aconselha os brasileiros a gastar, consumir e a não acreditar que o futuro será pior que o presente, embora pesquisa da Fiesp constate que o emprego caiu 0,41%, entre setembro e outubro, em São Paulo.O presidente Lula não tem recorrido a oportunidades que o momento oferece nem usado de criatividade e inteligência para atacar a crise de forma estrutural, capaz de produzir efeitos positivos de longo prazo para o desenvolvimento econômico. Se pensasse além dos primeiros sintomas financeiros, trataria de preparar o País para enfrentar a longa recessão econômica nos países ricos, agindo em três direções: Eliminando gastos correntes do governo no Orçamento de 2009, redirecionando os recursos para investimentos; destravando as amarras ao investimento privado, sobretudo em projetos de infra-estrutura que gerem empregos e desafoguem o crescimento econômico; e aproveitando a onda de preocupação com o futuro para arrancar do Congresso a aprovação das reformas (política, tributária, previdenciária e trabalhista) e tocar as microrreformas, melhorando as relações políticas, as contas públicas, o ambiente de negócios e reduzindo o custo de produzir no Brasil.Dessas três linhas de ação só as reformas dependem mais do Congresso que do Executivo, e dificilmente haveria tempo para aprovar todas até o final do mandato de Lula. Mas governo e partidos aliados poderiam concluir, pelo menos, as reformas tributária e previdenciária. Já seria um extraordinário avanço. O problema é que este governo só decide tocar ações favoráveis ao País quando elas não se chocam com o interesse político-eleitoral e com a popularidade do presidente. Por isso, em vez da reforma previdenciária, uma comissão do Senado aprovou, na quarta-feira, proposta do senador petista Paulo Paim (RS) que acrescenta R$ 9 bilhões ao déficit do INSS, ampliando-o para R$ 42 bilhões. Somado ao rombo de R$ 43 bilhões da Previdência dos servidores públicos, o contribuinte brasileiro banca R$ 85 bilhões/ano com aposentadorias e quase nada sobra para aplicar em investimentos, melhorar a infra-estrutura, fomentar o crescimento e gerar empregos.Atacar os sintomas da crise e tentar suprir a escassez de crédito são ações necessárias neste momento, mas seu efeito é de curto prazo e a crise promete ser mais longa do que os olhos de Lula alcançam. É preciso planejar ações de longo prazo, preparar a economia real para se defender da recessão, do desemprego e do encolhimento da renda nos EUA, na Europa e no Japão, que prometem ser longos.Investidores estrangeiros têm apontado o Brasil como um país dos mais resistentes à crise, uma boa oportunidade de negócios neste momento, portanto. Investir na crise acelera o crescimento econômico e ajuda a afastar o fantasma do desemprego. Mas atrair investimentos implica destravar as amarras da burocracia, que impõe prazo médio de quatro, cinco meses para abrir uma empresa; melhorar a legislação sobre concessão de serviços públicos; despolitizar as agências reguladoras, substituindo diretores de indicação partidária por quadros técnicos competentes; e dar a necessária autonomia a essas agências, garantindo ao investidor que seu negócio não enfrentará o velho jogo de troca de favores políticos e corrupção.Na época do mensalão, com o tema corrupção invadindo o ambiente econômico, investidores desistiram de aplicar seu dinheiro no Brasil. Para mudar a percepção de um país permissivo com a corrupção é preciso punir corruptos. Exatamente o inverso do que acaba de fazer o governo, perdoando e acobertando entidades que nada têm de filantrópicas e são acusadas de inúmeras irregularidades, entre elas, fraudar o Fisco. Assim o governo Lula não ajuda, atrapalha. *Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-RJ (sucaldas@terra.com.br)

Suely Caldas*, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

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