Crescer com produtividade

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Crescer com produtividade

A queda abrupta da atividade gera todo tipo de dificuldades – financeiras, técnicas, pessoais e operacionais –, dado que o sistema econômico não tem flexibilidade para encolher sem fricção

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 05h00

Quanto mais passa o tempo, mais claro fica quão desastroso foi para o País o momento final do período PT/Dilma.

Como faz todos os anos, quando da divulgação do PIB do terceiro semestre, o IBGE mostra as revisões finais dos dados de crescimento dos períodos anteriores. Assim, é possível ver que, de 2014 a 2018, o PIB total caiu, mesmo depois de crescimento em 2017 e 2018, mais de 4%; o da indústria, quase 10%; e o da construção civil, espantosos 28%! Apenas a agropecuária cresceu 13%, mostrando que aí temos uma coisa diferente e muito positiva.

A queda abrupta da atividade gera todo tipo de dificuldades – financeiras, técnicas, pessoais e operacionais –, dado que o sistema econômico não tem flexibilidade para encolher sem fricção.

Assim, o desastre vai além da produção e do emprego e se expressa também em grandes quedas da produtividade. E aqui o espanto é enorme. Como mostraram Fernando Veloso e colegas (no Portal FGV), a produtividade por hora trabalhada, entre 2013 e 2018, caiu 0,4% ao ano na média do País, 0,9% ao ano na indústria de transformação, 2,9% ao ano na construção civil e 1,5% ao ano nos serviços.

Não sem surpresa, o único setor a continuar a ter uma evolução positiva foi a agropecuária, no qual a produtividade cresceu robustos 7,1% ao ano, ou 41% acumulado no período. A mudança tecnológica contínua e a abertura ao mercado internacional explicam esse desempenho.

Parte da queda de produtividade decorre da subutilização de capital e será recuperada quando o crescimento voltar. Mas parte dessa queda vem da realocação das ocupações: na busca pela sobrevivência, muita gente caminha na direção da informalidade e de outros segmentos menos produtivos. É a expansão do comércio ambulante em tempos de comércio eletrônico.

A queda da produtividade em outros serviços (-2,4% ao ano) e no setor de transportes (-2% ao ano) vem diretamente desse processo de precarização, que vai levar tempo para ser superado. Assim, o País tem dois problemas simultâneos: voltar a crescer de forma mais sustentada, ainda que pouco, e elevar gradualmente a velocidade da expansão via maior produtividade de todos os fatores de produção, como faz a agropecuária.

Tenho tratado do primeiro tópico em artigos aqui publicados. Tenho dito que podemos, sim, voltar a crescer, desde que se complete o ajuste fiscal com alguma ferramenta de controle do crescimento da folha de pagamento do setor público, que se eleve o investimento em infraestrutura via concessões e capital privado e que continue a recriação de um mercado de crédito, a partir da inflação e juros baixos e maior competição no sistema financeiro.

Entretanto, a segunda questão é bem mais difícil, a começar do triste espetáculo da educação brasileira, atualmente comandada por um brincalhão. Essa precariedade está na base do pouco preparo da nossa gente para absorver as novas técnicas. Como implementar produção enxuta e indústria 4.0 quando boa parte das pessoas têm dificuldade de entender um texto ou de fazer operações matemáticas básicas?

Uma segunda dificuldade é enfrentar a grande heterogeneidade e distância entre empresas líderes e as outras. Explico-me: em quase todos os setores da atividade econômica, é possível encontrar companhias líderes com boa estrutura de capital, boa gestão, boa governança e com perfeita noção da direção do seu setor no resto do mundo. Empresas que têm atravessado a crise exatamente como o agronegócio: crescendo e com bons resultados. Infelizmente, são poucas.

Entretanto, a média do desempenho dos setores é muito baixa, porque muita gente já havia ficado para trás, antes mesmo da recessão. Ao contrário do agronegócio, no geral, nossa indústria buscou conforto e agasalho do governo como forma de enfrentar a competição externa. O resultado foi um fiasco monumental, como mostram os dados mais recentes e tristes experiências como estaleiros e refinarias como Comperj e Abreu e Lima.

Quando a crise chega com tudo, os balanços enfraquecem e muita gente entra no modo sobrevivência, esperando um quase milagre para seguir adiante. Nessas condições, é indispensável reduzir a dispersão de comportamentos para poder acompanhar a retomada que já está acontecendo em boa parte dos que estão na liderança.

Menciono aqui o êxito de programas de consultoria comandados pelo Senai e chamados de Brasil Mais Produtivo e Indústria

Mais Avançada, nos quais um grupo de médias e pequenas empresas foi capacitado e viu sua produtividade se elevar substancialmente, inclusive com técnicas de indústria 4.0, num exemplo virtuoso de trabalho do sistema S.

Essa redução da distância em relação a líderes, se ampliada, permitiria que a retomada cíclica da atividade fosse reforçada, fazendo com que o impacto positivo das reformas, de algum avanço na infraestrutura e de outras melhoras no ambiente de negócios possam elevar a taxa possível de crescimento sustentável (PIB potencial) e de nossa competitividade.

Difícil, mas não impossível.

* JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS É ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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