Charles Osgood/NYT
Charles Osgood/NYT

Crescer em um bairro ruim é prejudicial para o sucesso econômico

Consequências deste fato podem ser muito mais graves do que os cientistas sociais julgavam anteriormente

Justin Wolfers, The New York Times

29 de março de 2016 | 05h00

O bairro no qual a criança cresce é um fator determinante do seu sucesso econômico na idade adulta. Isto era sabido há algum tempo, mas uma nova pesquisa sugere que as consequências deste fato podem ser muito mais graves do que os cientistas sociais julgavam anteriormente. Estas conclusões poderiam modificar a política nacional da habitação de maneira fundamental.

A nova descoberta é que grande parte das nossas evidências mais importantes sobre os efeitos de uma infância vivida num ambiente ruim decorre da análise de crianças cujos pais trabalham e se dedicam a protegê-las dos perigos existentes ao seu redor. Os efeitos negativos produzidos num bairro ruim são talvez muito maiores para as famílias de baixa renda com pais menos motivados.

Um recente trabalho de pesquisa realizado por Eric Chyn, um economista que concluiu sua tese na Universidade de Michigan, analisa este conceito. As conclusões de Chyn receberam grande atenção dos economistas do país. (Eu sou um dos orientadores de Chyn.)

Há muito, sabe-se que as crianças de bairros problemáticos se tornam adultos problemáticos. Mas é muito mais difícil entender se são os bairros que causam esta desvantagem mais tarde, ou se o problema está nas dificuldades que levam as famílias para bairros ruins.

O experimento "Moving to Opportunity" realizado pelo governo federal proporcionou a evidência mais nítida dos efeitos provocados pelo fato de uma família deixar um bairro ruim. De 1994 a 1998, este experimento social em larga escala convidou famílias de baixa renda que viviam em casas subvencionadas pelo governo a entrar numa loteria que poderia modificar totalmente sua vida. Usando aproximadamente o método dos pesquisadores da área de medicina em seus testes clínicos, a loteria atribuiu aleatoriamente uma espécie de tratamento experimental aos vencedores, enquanto os perdedores funcionaram como grupo de controle. Os vencedores receberam subsídios que os ajudaram a pagar o aluguel quando eles se mudaram para uma casa subvencionada. Os perdedores permaneceram na habitação subvencionada desde que continuassem tendo este direito.

Os ganhadores e os perdedores da loteria foram seguidos nos anos seguintes, e um importante estudo realizado no ano passado pelo economista de Stanford, Raj Chetty, juntamente com Nathaniel Hendren e Lawrence F. L Katz de Harvard - estudo sobre o qual já escrevi - concluiu que as crianças que se mudaram quando eram mais novas puderam desfrutar de uma renda consideravelmente maior do que as pessoas de idade semelhante cujos pais não ganharam. (Katz foi meu orientador no doutorado).

A concessão aleatória de lugares neste programa implica que podemos confiar que estas diferenças são decorrentes da mudança. Mas segundo Chyn, o experimento reduz consideravelmente a importância do ambiente. O problema, ele afirma, não está em comparar os que ganham a loteria com os que perdem. 

Ao contrário, prossegue, tanto o grupo avaliado quanto o de controle já haviam em parte educado os filhos contra os efeitos de um bairro ruim. Somente 25% das famílias que tinham direito de participar da loteria haviam se candidatado, e Chyn afirma que os candidatos estavam particularmente motivados a proteger seus filhos contra os efeitos negativos de um bairro ruim.

Na realidade, as evidências qualitativas de uma investigação anterior corroboram esta conjetura. Entrevistas mais aprofundadas feitas por Jeffrey R. Kling, atualmente no Departamento do Orçamento do Congresso, e Jeffrey B. Liebman e Katz de Harvard revelaram que estas famílias "organizaram toda a sua vida em torno da proteção dos filhos contra os verdadeiros perigos da vida num gueto". As mães se concentraram intensamente na educação dos filhos", e como resultado "os filhos mais novos em particular raramente podiam sair do apartamento, e nunca longe do olhar vigilante da mãe".

 

A implicação é que o experimento relativo à habitação revela o efeito da mudança da família de um bairro ruim, no caso dos menos afetados pelo bairro ruim. A fim de testar sua teoria, Chyn precisava comparar os resultados da participação numa loteria voluntária da habitação com um experimento que essencialmente obriga todas as famílias a entrar na loteria.

Felizmente para Chyn, a demolição de muitos prédios de habitações públicas em Chicago, no final dos anos 90, ilustra efetivamente esta experiência. De 1995 a 1998, o Departamento da Habitação de Chicago demoliu muitos arranha-céus com habitações subvencionadas pelo governo, inclusive os que poderiam ser reconhecidos na seriado de televisão dos anos 70, Good Times.

Estas demolições foram de fato uma loteria, porque favoreceram o deslocamento de algumas famílias - aquelas cujos edifícios foram demolidos - mas não aquelas cujos edifícios permaneceram de pé. Portanto as famílias que saíram o fizeram por motivos aleatórios. E assim como na loteria Moving to Opportunity, as famílias que "ganharam" a loteria - ou seja, aquelas cujos edifícios seriam demolidos - receberam um subsídio que as ajudaria a pagar o aluguel, se abandonassem os prédios. As famílias cujos edifícios não foram demolidos constituíram na realidade um grupo de controle, porque continuaram morando em casas subvencionadas sem serem perturbadas.

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Crianças obrigadas a abandonar a habitação pública passaram a ter rendas anuais 16% superiores às das que permaneceram, e tiveram 9% mais probabilidades de se empregarem na vida adulta
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Chyn concluiu que estas demolições tiveram efeitos consideráveis - e muito positivos - nas crianças que foram obrigadas a sair dos edifícios. As crianças obrigadas a abandonar a habitação pública passaram a ter rendas anuais 16% superiores às das que permaneceram, e tiveram 9% mais probabilidades de se empregarem na vida adulta. Acima de tudo, o fato de terem de sair da habitação pública representou um aumento de cerca de US$ 45 mil aos ganhos de uma vida para cada uma destas crianças. Os efeitos talvez sejam ainda maiores para as que se mudaram quando eram muito novas.

Mais ou menos na mesma época, o Departamento da Habitação de Chicago também realizou uma loteria em pequena escala que concedeu aos vencedores os mesmos subsídios para a habitação. Como no caso da loteria "Moving to Opportunity", esta foi opcional, e portanto só se candidataram ao projeto os residentes de casas subsidiadas pelo governo. A análise de Chyn deste experimento alternativo conclui que ele produziu resultados muito menos impressionantes, e os filhos das famílias que ganharam a loteria continuaram a apresentar resultados mais ou menos semelhantes aos das famílias perdedoras.

O contraste é considerável, e sugere que a política da habitação que também visa ajudar os que de outro modo não poderiam se candidatar ao projeto, pode representar o melhor negócio.

Evidentemente, restam várias questões em aberto. Tanto o estudo sobre a demolição quanto o da loteria de Chicago são prejudicados porque suas amostras são relativamente reduzidas. E há muitos fatores - como a probabilidade estatística - que podem explicar o motivo pelo qual diferentes experimentos produzem efeitos diferentes. / Tradução de Anna Capovilla

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