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‘Crescimento baixo gera tensões e mina acordos’, diz Azevêdo

Em sua posse, Azevêdo pedirá para que países não abandonem sistema multilateral; missão é vista como 'impossível'

Entrevista com

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo,

09 de setembro de 2013 | 02h11

GENEBRA - Não haverá uma recuperação acelerada da economia mundial nos próximos anos e, diante desse cenário, o risco é de proliferação de tensões políticas em diversos países que, como consequência, minariam a capacidade de a comunidade global chegar a acordos.

Quem faz o alerta é o brasileiro Roberto Avezêdo que, na prática, assume hoje a direção da Organização Mundial do Comércio (OMC). Oficialmente, ele começou a trabalhar há uma semana e, nos últimos dias, esteve na cúpula do G-20 para se apresentar aos líderes mundiais. Mas será hoje, em Genebra, que ele fará seu primeiro discurso aos 159 países sobre seu plano de governo.

Na pauta, sua visão para o comércio e sua estratégia para recuperar a credibilidade de uma entidade cada vez mais ignorada pelas grandes potências. Azevêdo fará um apelo aos países para que não abandonem o sistema multilateral, mesmo diante de sua paralisia e da proliferação de acordos bilaterais. Para muitos, porém, Azevêdo terá uma "missão impossível". A seguir os principais trechos da entrevista.

Existe uma crise no sistema multilateral?

O multilateralismo como um todo, e não apenas no aspecto comercial, está passando por um processo de reacomodação. Principalmente depois de 2008, o mundo testemunhou uma nova configuração de forças. Acho que os emergentes são vistos hoje como participantes importantes dos foros de governança global e como competidores. Mostraram resiliência diante da crise, aumentaram em termos de competitividade e sofisticação os sistemas produtivos. Não necessariamente o multilateralismo está em crise. Mas está procurando se ajustar a essa configuração que é recente e desafiante em função da maior heterogeneidade dos atores centrais.

O sr. acredita que existem resistências para aceitar essa nova configuração de forças?

Todo processo de acomodação e de mudanças experimenta forças em todas as direções. Forças para promover a transição e forças para defender a manutenção do status quo. Isso é natural.

Como o sr. vê o cenário da economia e do comércio nos próximos anos?

É difícil imaginar o futuro da economia mundial com uma recuperação vigorosa e acelerada nos próximos anos. Pode até acontecer, mas não está no cenário dos analistas. Todos preveem crescimento moderado ou mesmo modesto, talvez um pouco melhor nos emergentes. Há fortes indícios também de que, nas maiores economias, o crescimento virá sobretudo do aumento de produtividade, e não das taxas de emprego. Crescimento baixo com desemprego acentuado significa normalmente situações de tensão política doméstica, que tende a afetar todas as discussões no plano global. Essa tensão dentro das fronteiras tende a se refletir também fora delas.

A variação de moedas que temos visto afetará o comércio?

Não há dúvidas de que a taxa de câmbio tem impacto nas relações comerciais. Como isso pode ser pensado, discutido, encaminhando? Essa é a grande questão. Talvez uma das grandes questões do milênio. Como essa questão afeta todas as relações econômicas e comerciais, as decisões dos agentes econômicos são pautadas por cálculos que incluem taxas de câmbio. Não vejo como possam dirigir suas operações e montar suas equações sem levar em consideração essa variável.

Como o sr. vê a política comercial brasileira diante das acusações de EUA e Europa de que o Brasil é protecionista?

A OMC é o melhor foro para tratar desse tipo de divergências. Os membros da organização sempre se acusam mutuamente de práticas protecionistas. A OMC oferece um bom foro para monitoramento recíproco e, em última instância, um mecanismo de solução de controvérsias muito eficaz e onde os aspectos jurídicos prevalecem sobre os políticos.

O sr. é o primeiro brasileiro a conduzir uma entidade do sistema de Bretton Woods. Que peso isso adiciona a seus ombros?

Já tivemos outros brasileiros em cargos importantes: Rubens Ricupero, José Graziano. Claro que a OMC tem um perfil diferenciado, já que é um dos principais foros da governança global. Quanto ao fato de ser um brasileiro... claro, tenho muito orgulho. Mas esse é um desdobramento natural para o País. O Brasil, em algum momento, chegaria a essa posição. Se não fosse a OMC, seria em outro foro importante. O Brasil é um país que, ao participar dos foros internacionais centrais, com maturidade e de forma construtiva, expõe a qualidade de seus quadros. Um país que não faz parte desses foros tem mais dificuldade de colocar na vitrine seus diplomatas e representantes.

Quando terminar seu mandato, pelo que quer ser lembrando?

Eu acho que a OMC já viveu dias melhores. Já teve momentos de maior dinamismo, em que atraiu muito a atenção dos governos e da opinião pública. Não por pirotecnia, mas por estar negociando temas de grande relevância para a economia e o comércio mundial. Ao sair, gostaria de ter colocado a OMC no bom caminho, com a relevância que ela já desfrutou.

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