Gabriela Biló/Estadão
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Crescimento cíclico ou retomada sustentada?

Ao contrário dos EUA, da Europa e de boa parte da Ásia, não sairemos do buraco crescendo aceleradamente

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h54

O bom resultado do crescimento do PIB no primeiro trimestre produziu um carrego estatístico bastante forte para este ano, o que levou a uma revisão generalizada das projeções: o último Boletim Focus aponta uma expansão do PIB na ordem de 5%, sendo que muitas instituições projetam números ainda mais elevados.

Cinco razões nos levam a ser um pouco mais cautelosos, projetando um número da ordem de 4,7%, ainda assim, bem melhor do que tínhamos no início do ano, o que é obviamente muito bem-vindo. 

Em primeiro lugar, a MB Agro revisou a projeção do PIB agrícola para zero, o que contrasta com a significativa expansão acima de 5% calculada pelo IBGE no primeiro trimestre. A partir daí, as colheitas dos principais produtos deverão ser significativamente menores do que aquelas registradas no ano passado: o algodão teve um plantio menor, o que aponta para uma queda de produção de 18%, o milho da segunda safra está sofrendo muito com a seca (queda de 16%), fenômeno que também afeta a cana (-7%), a laranja (-30%) e o café (-22%), sendo que, neste último caso, também existe a influência da bianualidade tradicional na cultura. 

Em segundo, embora a vacinação tenha se acelerado, ainda precisaremos chegar a outubro para que uma proporção mais robusta da população receba as duas doses. Ao mesmo tempo, parece que estamos entrando numa terceira fase da pandemia.

Mesmo que a atividade econômica continue mostrando resiliência aos esquemas de redução da mobilidade (o que deve ser atribuído a melhores protocolos de segurança e à contínua expansão da utilização da internet nos negócios), é inequívoco que em alguma medida a retomada estará limitada. 

Em terceiro lugar, a aguda escassez de água, resultante da prolongada seca, vai em alguma medida limitar o crescimento, tanto pelo racionamento (via forte elevação de tarifas) quanto, eventualmente, pela necessidade de algumas medidas diretas junto ao sistema de produção. No ano passado, ao fim de junho, os reservatórios do Sudeste/Centro Oeste tinham 52% de água e, hoje, têm apenas 30%. Em novembro, o nível de água atingiu 17%, o que significa que o risco de chegarmos na mesma época em níveis críticos é elevadíssimo. E a projeção dos climatologistas é de chuvas dentro da normalidade para o período, que é de seca. 

Em quarto, a inflação do ano será bastante robusta. Projetamos que fique em 6,2%, o que sugere que a meta do próximo ano está correndo risco. Daí porque o Banco Central não teve alternativa senão abandonar a ideia de ajuste parcial da Selic para outro no qual se buscará a taxa neutra, estimada em 6,5%, o que encarece o crédito e limita o crescimento. 

É importante registrar que a elevação de certos preços está machucando particularmente as menores rendas, dado que alimentação, energia elétrica, gás de cozinha, custo de transportes e material de construção estão mostrando elevações muito mais fortes do que a média. 

Por fim, o resultado positivo do PIB é universalmente percebido como decorrência do boom de commodities, afetando, especialmente, o agronegócio, a mineração e o petróleo. Dadas as características destes setores, altamente intensivos em capital, o impacto sobre emprego é muito modesto. Assim continuará a ser no horizonte previsível.

O resultado é desemprego alto e forte contração de renda. Nossa economista, Amanda Lara, calculou que, com os microdados da PNAD, o número de domicílios na classe D e E aumentou em quatro milhões entre o primeiro trimestre de 2020 e o de 2021.

Mobilidade para baixo é o antidesenvolvimento econômico. O consumo das famílias seguirá muito pressionado, como o primeiro trimestre mostrou. 

Como os anúncios de novos investimentos estão muito concentrados nas áreas de commodities, a taxa agregada deverá continuar abaixo dos 20% do PIB, o que nos manterá presos a um crescimento na faixa de 2% ao ano, como o Boletim Focus nos mostra.

Ao contrário dos EUA, da Europa e de boa parte da Ásia, não sairemos do buraco crescendo aceleradamente. Na segunda década perdida (2011-2020), acumulamos eventos que tornam o crescimento sustentado quase impossível. 

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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