Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Crescimento da demanda por commodities e revisão para cima do PIB ajudam Bolsa

No pregão de ontem, Ibovespa bateu recorde de fechamento e encerrou aos 125,5 mil pontos, apesar de alta da inflação e da pandemia fora de controle; percepção geral, porém, é de que covid afetou menos a economia local do que se esperava 

Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

Apesar de o Brasil ainda mostrar um alto índice de mortes e casos de covid-19 e de se falar em uma terceira onda da pandemia por aqui, o principal índice da Bolsa de São Paulo, a B3, atingiu ontem a máxima histórica no fechamento do pregão, aos 125.561 pontos. O crescimento da demanda global por commodities ajudou no resultado, mas a leitura de analistas é de que a resiliência da economia brasileira em meio à crise do coronavírus é a principal explicação para o novo recorde. Os riscos à frente são conhecidos: a lentidão da vacinação e a alta da inflação.

Em maio, o Ibovespa acumula alta de 5,61%, em desempenho melhor que o dos índices das bolsas de Nova York e de países emergentes como China e México. Marcado pela discussão sobre a possível alta nos juros nos Estados Unidos, com o salto da inflação americana, o mês também registrou indicadores econômicos melhores do que o esperado no Brasil. Isso elevou a expectativa para o PIB nacional em 2021.

“Continuamos vendo o ‘boom’ das commodities e os ventos (positivos) internacionais soprando”, diz Jerson Zanlorenzi, responsável pela área de renda variável e derivativos do BTG Pactual Digital. “O mercado voltou a criar esperanças com a economia local.” E isso inclui o próprio BTG: agora, o banco espera que o PIB brasileiro cresça 4,3% neste ano, ante 3,5% anteriormente.

Embora a previsão seja ajudada pela base fraca de comparação em 2020, quando a economia tombou 4,1%, analistas afirmam que uma revisão positiva influencia as projeções para os ganhos das empresas de capital aberto. Lucros maiores abrem mais espaço para que os índices acionários subam – significam que os investidores vão ganhar mais com ações, seja com o aumento dos preços ou com pagamentos de dividendos.

“Na China, essa recuperação aconteceu no ano passado, e depois vieram os Estados Unidos. Nós estamos no meio do caminho, e as estimativas cresceram bastante nas últimas duas ou três semanas, o que segurou o Ibovespa”, diz Gilberto Nagai, chefe de renda variável da BNP Paribas Asset Management. “Se a previsão de que a ‘empresa’ Brasil vai crescer 3,5% aumenta para 4,3%, então o lucro também aumenta.”

Esse fator ganha peso em especial para investidores de outros países. Cesar Mikail, gestor de renda variável da Western Asset, afirma que os estrangeiros comparam as perspectivas para os lucros das empresas brasileiras com o que se espera para os de outros países, como os EUA. Com o dólar desvalorizado e revisões positivas do cenário local, as ações brasileiras ficaram “baratas”.

“Quando se compara o S&P em dólares e o EWZ (principal fundo de índice de ações brasileiras listado nos EUA), o EWZ está barato. Estamos sendo negociados com desconto em relação à média histórica”, diz. Segundo ele, a relação entre preço dos ativos e a previsão de lucros está abaixo da média para as ações da B3.

Vacinas e energia

Mesmo com as investigações da CPI da Covid e a situação desafiadora das contas públicas, o mercado financeiro tem considerado a vacinação como o fator mais importante para o desempenho da Bolsa. O viés é otimista: com as vacinas adquiridas pelo governo, bancos afirmam que a imunização será suficiente para que a economia retome no segundo semestre. Se o ritmo não se confirmar, o mercado tende a perder força.

“Os números das empresas (no primeiro trimestre) foram bons sem vacinação. Com vacinação, seriam ainda melhores”, afirma Mikail, da Western. Um “número mágico”, segundo ele, seria a vacinação de mais de 1 milhão de pessoas por dia. Desde o começo da vacinação contra a covid no Brasil, em janeiro, houve picos em que o número foi atingido, mas ele não se sustentou diante da escassez de doses. Hoje, o total de vacinados está em 20,7% da população.

Diante da falta de insumos, a perspectiva é que essa aceleração leve meses. “Até o fim do ano, estamos falando de vacina, de a vida voltar o mais rápido possível à normalidade. As pessoas estão com demandas represadas e, se isso for postergado, é um risco”, diz Fernando Barbara, chefe de renda variável do Andbank Brasil.

Além da pandemia, o fator climático também começa a entrar no radar. Ontem, o governo publicou um alerta de emergência hídrica para o período de junho a setembro em cinco Estados, entre eles São Paulo. Isso poderá resultar na redução de geração de energia pelas hidrelétricas, aumentando os preços e, consequentemente, a inflação – o que pode atrapalhar a atividade econômica como um todo.

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