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Crescimento do comércio mundial

A recuperação da crise de 2008/09 deve muito à valorização das commodities

Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2019 | 05h00

Foi com alívio que o mercado financeiro reagiu à decisão do Fed de suspender a normalização monetária. Qualquer que tenha sido a motivação – o susto com a queda dos preços das ações; o medo da desaceleração mundial; a pressão de Trump; ou a fraqueza da inflação –, tal decisão reduziu os riscos e estimulou os fluxos de capitais para os países emergentes, o que é positivo. 

Mas para que nossa recuperação se acelere é preciso ampliar a demanda agregada, que pouco é afetada por aquela decisão. Por outro lado, os dados evidenciam uma elevada correlação positiva entre as taxas de variação do PIB brasileiro e do índice CRB de preços de commodities. Correlação elevada não significa causalidade, mas os testes adequados mostram que são as variações do índice CRB que causam as variações do PIB brasileiro. Quais são os canais de transmissão? Fortes elevações de preços de commodities aumentam a taxa de crescimento das exportações, que disparam várias reações que são capturadas no “efeito multiplicador”, ampliando a demanda e acelerando o crescimento.

A intensa recuperação da crise de 2008/09 deve muito ao crescimento dos preços de commodities. Entre o “vale” da crise e o valor máximo atingido em 2011, tanto o índice CRB quanto o valor mensal em dólares das exportações brasileiras quase dobraram. Mesmo sendo o Brasil uma economia bastante fechada ao comércio internacional tal impulso gerou uma sensível expansão da demanda agregada, contribuindo significativamente para o crescimento do PIB de 7,5% em 2010. Para repetir aquele “milagre” precisaríamos de um novo ciclo de elevação do PIB mundial e do índice CRB, o que nos leva a olhar para os dois maiores importadores de commodities do mundo: China e Europa.

O JP Morgan (Made in China 2025: a New World Order?) estima que entre 2021 e 2025 o PIB potencial da China crescerá 5,4%, caindo para apenas 4,5% entre 2016 e 2030. Enquanto seguia um “modelo exportador”, a China mantinha o renminbi depreciado e os salários baixos, o que estimulava os investimentos em exportações, mas agora o país volta-se para o mercado interno elevando o consumo das famílias, o que requer o crescimento dos salários reais expressos em preços de bens tradables e reduz o estímulo aos investimentos. As enormes taxas chinesas de crescimento pertencem ao passado!

O crescimento da Europa também vem desacelerando. Na área do euro, os países renunciaram à autonomia monetária, e há algum tempo o BCE está no “zero Bound”. Não há, também, nenhuma latitude para utilizar estímulos fiscais. Finalmente, a Europa está imersa em várias crises que reduzem os investimentos, como: o Brexit; a crise do governo Macron; a crise política da Itália; e a recessão na Turquia, que transmite impulsos negativos para a área do euro. 

Em 2017, a economia da área do euro vinha se recuperando, com os PMIs e as taxas de crescimento da produção industrial em elevação. Demorou algum tempo para que se percebesse, ainda em 2018, que seu crescimento perdia força. Afinal, naquele momento o mundo estava mais preocupado com os efeitos da normalização monetária nos EUA, passando a prestar atenção na Europa somente quando o Fed começou a dar sinais de mudança. Ao final de 2018, vários países apresentavam contrações da produção industrial, com clara desaceleração no crescimento do PIB da área do euro. 

A economia da Europa precisa de estímulos, mas não tem instrumentos – nem monetário, nem fiscal –, e começa a ocorrer algo muito preocupante. Em edição recente, o Financial Times comenta criticamente o “manifesto França-Alemanha”, que estabelece as bases para uma “política industrial” europeia. Da boca para fora, os dois países louvam as virtudes da competição e do livre-comércio, mas no fundo do coração o que existe é o desejo de unir grandes empresas alemãs e francesas, como na recente tentativa envolvendo Alstom e Siemens, criando “campeões” que se anteponham à China. É como se o tamanho da empresa garantisse a competitividade, ignorando que crescem a concentração e o poder de mercado, sem reflexo na eficiência. 

Com o PIB da China desacelerando e a Europa iniciando um exercício de utilização dos ensinamentos da “nova matriz macroeconômica”, não há muita esperança de crescimento dos preços de commodities. Mais do que nunca a nossa recuperação cíclica depende de nós mesmos. 

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS

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