Marcos Santos/USP Imagens
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Crescimento do investimento é pontual, mostra estudo do IBRE

Parte relevante dessa melhora veio da alta maior nos preços dos bens de capital em relação aos preços da economia como um todo

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2022 | 17h05

A taxa de investimentos na economia brasileira alcançou, no terceiro trimestre do ano passado, o patamar de 19% do PIB. É o maior nível desde o 2.º trimestre de 2015, quando também estava em 19%. E uma alta considerável em relação aos 15,7% do 3.º trimestre de 2020. Mas, segundo um estudo de pesquisadores do Ibre/FGV, esses números foram impulsionados por fatores pontuais, e não indicam robustez da atividade econômica.

Pelo estudo, parte relevante dessa melhora veio da alta maior nos preços dos bens de capital em relação aos preços da economia como um todo. No 3.º trimestre do ano passado, enquanto a inflação geral acumulava aumento de 9,9% em um ano, os investimentos medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida dos investimentos no PIB) tinham encarecido 15,3%. 

Outros dois fenômenos ocasionais também estariam por trás desse crescimento. O primeiro é a internalização abrupta das plataformas de petróleo, por conta de uma operação apenas contábil: a mudança no Repetro, que permitiu a empresas transferirem o título de propriedade desses equipamentos de subsidiárias no exterior para a sede brasileira.

O segundo é o forte crescimento dos investimentos em tratores e outras máquinas agrícolas, e em caminhões e ônibus, ambos muito influenciados pelos preços internacionais de commodities.

“Não significa que os investimentos estão bombando”, diz Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV. “Os investimentos estão mais recuperando perdas recentes, ajudados por uma base de comparação muito baixa.”

Trajetória de queda

A taxa de investimentos no Brasil vinha em trajetória declinante desde 2014, na esteira da recessão e da elevada ociosidade da economia. Esse indicador é calculado através da razão entre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e o PIB, a preços correntes, não em volume, ou seja, sem descontar a inflação do período.

“O preço do investimento que fica no numerador aumentou mais que o preço do PIB que fica no denominador. Então por uma influência do preço dos investimentos aumentando mais que o preço dos outros produtos, por causa dessa influência, a taxa de investimentos sofreu um repique pra cima”, explicou Ricardo Barboza, pesquisador do Ibre/FGV, que assinou o estudo sobre o tema ao lado de Claudio Considera e Isabela Kelly. “Sobre esse aspecto, a gente não tem muito o que comemorar, porque é como se comemorasse uma mudança de preços relativos. Não tem muita consequência para a economia de um aumento de uma taxa de investimento governado por esse fator.” 

No terceiro trimestre de 2020, os preços do PIB subiam 4,7%, enquanto os da FBCF aumentavam 6,2%. A trajetória se manteve semelhante nos trimestres seguintes: alta de 5,1% nos preços do PIB contra 8,8% na FBCF no 4º trimestre de 2020; 6,5% para o PIB e 11,4% para a FBCF no 1º trimestre de 2021; e 7,8% para o PIB e 13,2% no 2º trimestre de 2021; até alcançar os 9,9% para o PIB e 15,3% para a FBCF no 3º trimestre de 2021.

Já em relação às máquinas e equipamentos, os segmentos mais exportadores foram os que mais aumentaram compras no ano passado, disse Paulo Castelo Branco, presidente executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei).

Segundo ele, houve recuperação na importação de bens de capital em 2021, embora os investimentos ainda estejam abaixo do patamar de 2013, que ele define como “o ano da saudade de todo mundo”. De 2014 pra frente nós só tivemos tombos, por vários motivos”, disse Castelo Branco. 

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