Hélvio Romero/Estadão - 11/9/19
Hélvio Romero/Estadão - 11/9/19

Crescimento do PIB da construção civil pelo 2º trimestre seguido puxou investimento, diz economista

Esse resultado não se via há mais de cinco anos; ainda assim, PIB do setor está 30% abaixo do período pré-crise

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 13h31

O grande destaque do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, que cresceu 0,6% sobre o período imediatamente anterior e surpreendeu o mercado, foi o desempenho da construção civil, segundo Braulio Borges, economista da LCA e pesquisador da FGV. O PIB da construção civil imobiliária, que representa quase a metade do investimento, cresceu pelo segundo trimestre consecutivo em termos dessazonalizados. “A gente não via isso há mais de cinco anos”, afirma o economista. 

Ao lado do investimento, que avançou 2% no terceiro trimestre sobre o anterior, o consumo das famílias, com avanço de 0,8%, foi outro destaque positivo do PIB, que cresce a um ritmo anualizado de 2%. Segundo Borges, a dúvida que existe é se esse crescimento irá se sustentar após o fim dos estímulos do FGTS ao consumo e também por conta da desaceleração da economia mundial. A seguir trechos da entrevista.  

O crescimento de 0,6% do PIB do terceiro trimestre surpreendeu?

Sim, veio um pouco acima do que a LCA estava projetando, que era um crescimento de 0,4%. Sempre alertamos que nas divulgações de terceiros trimestres a nossa estimativa não é comparável ao que o IBGE divulga porque nesse período o instituto revisa as séries históricas de dois anos antes. E nunca conseguimos ter uma ideia exata da magnitude das revisões.

Com esse resultado, qual é o ritmo de crescimento da economia?

Se pegarmos o segundo e o terceiro trimestres, a grosso modo, dá para dizer que a economia está crescendo a um ritmo anualizado de 2% na margem. Depois de ter andando de lado entre meados do ano passado e o começo deste ano, a economia parece que ganho mais tração.

De onde está vindo o crescimento?

Vem tanto do consumo como também do próprio investimento. O investimento parece finalmente dar algum sinal de vida justamente porque a construção civil, que é quase a metade da Formação Bruta de Capital Fixo, está reagindo.

A construção civil imobiliária?

No PIB, não conseguimos fazer distinção dos segmentos da construção civil. Mas temos outras informações que indicam que não é uma retomada tão abrangente: a área de infraestrutura está meio parada e o investimento público continua caindo. Mas o setor de construção civil residencial parece que está andando e puxando a retomada da do PIB da construção civil. O PIB da construção civil cresceu pelo segundo trimestre consecutivo em termos dessazonalizado e não víamos isso há mais de cinco anos.

A construção civil já recuperou o nível pré-crise?

O PIB da construção civil está muito abaixo do que estava em 2014, está 30% abaixo do que estava antes da recessão. Se fizermos essa comparação para o PIB total está 3,6% abaixo do começo de 2014.  A construção está se recuperando, mas o caminho é muito mais longo do que o PIB como um todo. Mas isso está ajudando a puxar o investimento, o mercado de trabalho. A retomada do investimento tem muito a ver com a retomada da construção civil, muito embora a gente veja o restante do investimento mostrando alguma recuperação.

E o consumo das famílias?

O PIB está crescendo na margem a um ritmo de 2% ao ano e o consumo das famílias ajudando.

Esse crescimento é sustentável?

Temos  alguma dúvida em relação à sustentabilidade desse ritmo. Se por um lado a economia ganhou tração, por outro lado a gente tem uma economia mundial e mesmo a Argentina em tendência de desaceleração. Por mais que isso não afete tanto a economia brasileira diretamente, porque o peso da exportação não é tão grande assim, o fato é que os efeitos indiretos da desaceleração global vão se refletir sobre a nossa economia. Um exemplo claro é  a nossa produção industrial está andando de lado há mais de um ano muito por conta do colapso argentino. Se a indústria não cresce, ela não contrata, se não contrata, as pessoas não consomem. Tem efeitos indiretos que acabam atrapalhando a retomada do próprio consumo das famílias, do próprio investimento que é feito no Brasil. Tem uma certa dúvida sobre a sustentabilidade desse ritmo vindo da liberação do FGTS também. Em outros momentos o FGTS teve impacto importante, porém efêmero. Depois que a liberação acabou, a economia voltou a andar de lado.

O FGTS está ajudando o crescimento?

Ele está ajudando agora e vai ajudar mais no final do ano e começo do ano que vem. A grande dúvida é, uma vez que esse estímulo cesse, será que ele  vai funcionar como uma faísca para fazer a economia manter esse ritmo ou não?  Pode-se argumentar que em comparação com liberações que houve de FGTS e abonos no passado, hoje o juro está mais baixo e as condições da economia parecem estar melhores. Talvez hoje a chance que a economia consiga de fato se sustentar sem a ajuda dessa muleta a partir do segundo e terceiro trimestres do ano que vem parece ser bem maior.

A LCA mudou as previsões do PIB para este ano e para o ano que vem depois do resultado do terceiro trimestre?

Provavelmente o crescimento deste ano deve ficar em torno de 1,1% e 1,2%, antes estávamos projetando 0,9%. Quarto trimestre ainda estamos fechando os números, mas vamos revisar para cima. A nossa projeção para o ano que vem é  2,3% e provavelmente vamos para perto de 2,5%, mas não temos o número fechado. 

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