Alex Silva/Estadão - 26/4/2021
Comércio no centro de São Paulo: para alguns economistas, menor isolamento social, mesmo que abaixo do necessário para conter a doença, pode estar atrapalhando menos a economia. Alex Silva/Estadão - 26/4/2021

Crescimento do PIB mostra uma luz no fim do túnel?; leia análise

A economia brasileira tem sido, em parte, puxada pela rápida recuperação da economia global, mas há incertezas em relação à vacinação

Marcelle Chauvet*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 18h42

A atividade econômica no Brasil teve um desempenho acima do esperado no primeiro trimestre de 2021. Os fatores que mais contribuíram para o crescimento foram a alta nos investimentos e nas exportações.

Tem havido uma recuperação econômica robusta em países com maiores níveis de vacinação e contenção da pandemia, como os Estados Unidos, China e alguns países da Europa. Isso levou a um aumento dos preços das commodities e da demanda externa por produtos brasileiros. A taxa de câmbio desvalorizada também contribuiu para o aumento das exportações brasileiras.

A economia brasileira tem sido, em parte, puxada pela rápida recuperação da economia global, que deve crescer por volta de 5,8% este ano à medida que a vacinação é disseminada e os negócios voltam às suas operações normais. Existem várias fricções e disparidades no crescimento entre países, principalmente entre as economias emergentes, as quais têm o seu crescimento comprometido pela vacinação lenta de suas populações. 

Nos Estados Unidos, o crescimento esperado para 2021 é acima de 6%, tendo como fatores o elevado gasto do consumidor, na medida em que a economia e os negócios abrem, o governo despeja trilhões de dólares para ajudar a recuperação econômica e a política monetária é extremamente expansiva. A alta taxa de vacinação e os contínuos esforços do governo americano para vacinar a população associados a uma queda brusca nos novos casos de covid-19 sinalizam que a economia americana deve abrir completamente nos próximos três meses.

Existem, porém, riscos e incertezas que podem diminuir o crescimento nos Estados Unidos, principalmente com relação à evolução da pandemia, e esses riscos se multiplicam para o caso do Brasil, o qual tem crescido no vácuo da expansão econômica global, mas com elevado número de casos de covid-19. A rapidez na produção e distribuição de vacinas pode se desacelerar por motivos não previstos, enquanto que mutações podem levar a novos casos.

Esse cenário seria avassalador para o Brasil, já que os números de casos têm se mantido em patamares elevados. Novas ondas da pandemia e a lentidão na vacinação poderiam levar a maiores restrições de distância social, até mesmo autoimpostas pela população em face a óbitos elevados. 

Existe ainda o risco relacionado à alta inflacionária nos Estados Unidos, devido ao crescimento acelerado e a gargalos no setor produtivo, o que pode levar o Federal Reserve (o banco central americano) a um aumento antecipado dos juros, com uma possível correção no mercado financeiro, prejudicando os negócios e consumo, e provocando movimentos externos de capitais desfavoráveis ao Brasil.

A luz no fim do túnel é clara e é o que tem estimulado o crescimento econômico mundial: vacinação acelerada e ampla da população permitindo uma abertura dos negócios e aumento do consumo. O Brasil precisa seguir a luz e sair do túnel.

Professora titular de Economia da Universidade da Califórnia

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PIB cresce 1,2% no 1º trimestre, mesmo com piora da pandemia

Resultado, que veio acima do esperado, confirma a melhora de perspectivas para o ano; a economia brasileira voltou ao patamar do quarto trimestre de 2019, período pré-covid

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 09h01
Atualizado 01 de junho de 2021 | 15h40

RIO - A economia brasileira começou 2021 em crescimento, confirmando a melhora de perspectivas para o ano como um todo e aumentando as chances de as perdas causadas pela covid-19 serem recuperadas até dezembro. O Produto Interno Bruto (PIB, valor de tudo o que é produzido na economia em determinado período) cresceu 1,2% no primeiro trimestre, na comparação com os últimos três meses do ano passado, informou nesta terça-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o terceiro resultado positivo após o tombo do segundo trimestre de 2020.

Com esse resultado, o PIB brasileiro voltou ao patamar do quarto trimestre de 2019, período pré-pandemia. Apesar da melhora, o PIB ainda está 3,1% abaixo do ponto mais alto da atividade econômica do País, alcançado no primeiro trimestre de 2014.

 

Entre as atividades da economia, a agropecuária teve o melhor desempenho, com alta de 5,7% de janeiro a março, enquanto a indústria avançou 0,7% e serviços, 0,4%. O consumo das famílias recuou 0,1% no primeiro trimestre o e o do governo caiu 0,8%.

No início deste ano, com o recrudescimento da pandemia e sem o auxílio emergencial pago pelo governo federal para ajudar as famílias mais pobres, as projeções chegaram a apontar para uma retração. Mesmo assim, a economia acabou demonstrando mais força do que o inicialmente esperado. Mês a mês, os dados setoriais vieram acima do que o esperado, desencadeando uma série de revisões para cima nas estimativas, especialmente mês passado, quando os últimos números de março foram divulgados. 

Desde então, economistas têm citado uma série de motivos para o desempenho mais forte. Houve um menor isolamento social, na comparação com o início da pandemia - seja porque as regras de restrição foram mais brandas seja porque foram menos seguidas -, os juros estão historicamente baixos - mesmo após as altas recentes anunciadas pelo Banco Central (BC) -, há efeitos defasados de estímulos do ano passado e a alta nas cotações das commodities impulsiona as atividades exportadoras, como a agropecuária, a mineração, a extração de petróleo e a produção de celulose.

Com isso, o PIB avançou 1% sobre o primeiro trimestre de 2020, quando foram registrados os primeiros impactos da pandemia na economia. Nessa base de comparação, foi a primeira alta desde o quarto trimestre de 2019, ou seja, desde que a crise causada pela covid-19 se instalou no mundo.

Antes da divulgação dos dados pelo IBGE, pesquisa do Projeções Broadcast apontava para um crescimento econômico de 4,2% este ano - em abril, pesquisa semelhante apontava para 3,2%. Como a alta de 1,2% no primeiro trimestre, veio acima do apontado na pesquisa da última sexta-feira do Projeções Broadcast, de aumento de 0,7%, a estimativa para o crescimento de 2021 poderá ser revisada para cima.

O banco Barclays, por exemplo, revisou para 4,3% sua projeção de crescimento econômico para este ano, ante 3,2% anteriormente. Mesmo assim, o economista para o Brasil do Barclays, Roberto Secemski, não vê muito espaço para continuar nesse ritmo. A estimava para 2022 é de 1,9%.

“Estamos repondo as perdas de 2020. No último trimestre de 2021, voltaríamos ao patamar do PIB pré-pandemia, mas, na tendência de médio prazo, não vejo por que ser melhor do que antes. Não é o novo normal crescer 4,3%”, disse Secemski, para quem a pandemia segue como o maior risco para a atividade este ano.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, ponderou que a atividade econômica surpreendeu à custa de uma maior circulação das pessoas, o que aumenta o risco de uma terceira onda da pandemia. Em março, foram 66,9 mil mortos por covid-19 no País, número que saltou para 82,4 mil em abril. Desde o início da pandemia, até a segunda-feira, 31, o total de mortos soma 463 mil.

Por causa do menor isolamento social, Vale está pessimista com o desempenho do PIB no segundo trimestre, especialmente em junho, quando “é muito provável que tenhamos uma nova fase emergencial, com a economia em ritmo semelhante a março e abril”.

“A vacinação está muito atrasada e as autoridades não conseguem segurar as pessoas em casa, até porque o auxílio emergencial não é suficiente”, afirmou o economista, explicando que, por causa das incertezas sobre os rumos da pandemia, sua projeção de crescimento para 2021 segue em 3,2%.

Por outro lado, alguns economistas têm destacado que o isolamento social, mesmo que abaixo do necessário para conter a doença, pode estar atrapalhando menos a economia, o que pode ter acontecido na atividade econômica do primeiro trimestre.

No início da pandemia, as restrições ao contato levaram a uma paralisação inédita da produção, das vendas e dos serviços, derrubando a atividade econômica. Com o passar dos meses, o efeito da menor mobilidade sobre os indicadores econômicos caiu, diz um relatório da LCA Consultores, sugerindo a “hipótese” de que, “com o passar do tempo, as economias se adaptaram à pandemia”, com “uso intensivo de tecnologia, sistemas híbridos (presencial e virtual) de trabalho e ampliação do e-commerce”.

 

Pela ótica da demanda, na falta do auxílio emergencial, o consumo das famílias encolheu 0,1% sobre o quarto trimestre de 2020 e caiu 1,7% em comparação com o mesmo trimestre do ano passado.

Além da interrupção da transferência de renda - que só seria retomada em abril, com valor mensal abaixo do ano passado -, o consumo teve pouco impulso da renda do trabalho no início do ano. A taxa de desemprego no País alcançou 15,1% em março, segundo cálculos do pesquisador Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE - no primeiro trimestre, incluindo janeiro e fevereiro, a taxa ficou em 14,7%.

Outro estudo de Hecksher sugere que os países onde houve mais mortes pela covid-19 foram também os que perderam mais postos de trabalho na crise. Os dados mostram que, em 2020, o Brasil registrou proporcionalmente mais mortes pela doença do que 95% dos países - considerando 178 nações, com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao mesmo tempo, o nível de ocupação (proporção de pessoas em idade de trabalhar que estão efetivamente trabalhando) no Brasil teve uma queda mais intensa do que 84,1% dos países - num grupo com 63, com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“Tem gente que vai ficar surpresa, porque esperava que, talvez, deixando morrer um pouquinho mais, conseguiríamos salvar um pouquinho mais de emprego, mas não é o que parece que está acontecendo em nenhum lugar do mundo. Onde teve mais morte está havendo mais queda de emprego”, disse Hecksher.

Ainda na ótica da demanda do PIB, os investimentos, medidos pela formação bruta da capital fixo (FBCF), avançaram 4,6% sobre os três últimos meses do ano passado e saltaram 17% na comparação com o primeiro trimestre de 2020.

Com um menor isolamento social, o PIB de serviços, componente pela ótica da oferta que vinha apresentando recuperação mais lenta do que os demais no segundo semestre do ano passado, avançou 0,4% no primeiro trimestre, na comparação com o período imediatamente anterior.

Só que a desorganização da economia causada pela pandemia se mantém. Serviços presenciais - como hotéis, bares, restaurantes, salões de beleza e academias de ginástica - seguem com recuperação acumulada mais tímida, enquanto serviços financeiros e de alta tecnologia, além da produção de bens, mantêm a trajetória positiva

 

O PIB da indústria registrou alta de 0,7%, após dois avanços seguidos no segundo semestre de 2020. Para Bráulio Borges, economista sênior da LCA Consultores, o desempenho da indústria também ajuda a explicar o ritmo de crescimento acima do inicialmente esperado. Isso porque, conforme o economista, a produção industrial - que, ainda no ano passado, superou o nível anterior à crise - é puxada pela recomposição de estoques.

Nos primeiros meses de pandemia, os estoques foram a níveis historicamente baixos, porque, por um lado, as fábricas pararam como nunca haviam feito antes, e, por outro, famílias e empresas correram para estocar bens, com receios de escassez. Na segunda metade de 2020, quando a maioria dos países reabriu parte das atividades, muitas fábricas retomaram a produção a pleno vapor, para recompor os estoques baixos. Ao mesmo tempo, o consumo se recuperou mais rapidamente do que se esperava e foi direcionado para os bens, pois as restrições aos gastos com serviços continuaram.

“Para recompor os estoques, a produção tem que crescer acima da demanda. Só que a demanda não ficou parada, cresceu (no segundo semestre). A indústria ‘bombou’ no mundo todo, mas ainda não foi suficiente para elevar estoques para níveis adequados”, disse Borges.

Ainda na ótica da oferta, a agropecuária cresceu 5,7% ante o último trimestre do ano passado, diante das perspectivas de mais uma safra recorde de grãos, com exportações em alta. São as atividades que saíram ganhando na retomada, como exportadores do agronegócio e da mineração, que têm puxado também os investimentos.

Destacando o caráter ainda desigual, entre os setores, da retomada da economia, Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, lembra de uma ameaça ao crescimento que entrou nos radares na última semana: a crise hídrica, que, pela falta de chuvas, levou os reservatórios das usinas de geração hidrelétrica a níveis históricos de baixa e ameaça até mesmo a produção agrícola. Por isso, Lacerda segue conservador em suas projeções e mantém a estimativa de um avanço de 3,0% no PIB de 2021. 

O risco de restrição no fornecimento de eletricidade não está ainda no radar dos empresários, que vem relatando aumento da confiança, em linha com uma atividade econômica melhor do que o previsto inicialmente. O Índice de Confiança Empresarial (ICE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) subiu 7,9 pontos em maio ante abril, para 97,7 pontos, maior patamar desde março de 2014, antes da recessão que se estendeu até 2016.

“A impressão que dá é que, quando passou o pior momento da segunda onda da pandemia, a demanda voltou e deu uma lufada de otimismo”, avaliou Aloisio Campelo Júnior, superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). / COLABORARAM THAÍS BARCELLOS e GUILHERME BIANCHINIM

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PIB se recupera, mas gerar empregos ainda é um desafio; leia análise

Economia cresceu mais que o esperado; dúvida é se esse é um movimento sustentável

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 10h15

O Brasil terminou 2020 em meio a pelo menos duas catástrofes: a sanitária, com cerca de 195 mil mortes pela covid-19 (uma média de 665 por dia desde a primeira morte, em 12 de março), e a econômica, expressa em uma queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2021, o cenário mudou. A catástrofe sanitária piorou: no primeiro trimestre, o número de pessoas que perderam a vida para a covid chegou a 123,5 mil, uma média de 1,37 mil por dia. Mas a economia deu sinal de vida e subiu 1,2%, um número surpreendente.

Na economia brasileira, é sempre uma tarefa inglória relacionar os números da atividade com a vida real, embora não sejam coisas incompatíveis. Neste momento, por exemplo, o País bate recordes de desemprego. Muita gente depende do auxílio emergencial do governo, este ano muito menor que o do ano passado, para sobreviver. Mas, na economia, as exportações, por exemplo, também batem recorde.

Há mundos muito diferentes dentro da economia. Veja o agronegócio: parece desconhecer a palavra crise. De janeiro a março, o setor cresceu espantosos 5,7%, puxado por uma demanda global muito forte pelos produtos agrícolas nos quais o Brasil é um grande fornecedor internacional, como a soja e o milho, o que fez disparar os preços. 

Essa demanda global crescente pelas commodities também puxou a indústria, que subiu 0,7% no primeiro trimestre. Nessa conta entram o minério de ferro e o petróleo, produtos nos quais o Brasil também é forte e cujos preços também dispararam.

Mas esses não são os setores que mais empregam. O grosso das pessoas trabalha no setor de serviços, e esse tem tido um desempenho mais modesto. Registrou uma alta de 0,4% no trimestre - depois de uma queda de 4,5% no ano passado. Esse é o setor que depende talvez mais diretamente da vacinação em massa para se recuperar. Sem isso, restaurantes, lojas, salões de beleza, por exemplo, não conseguem voltar à atividade normal, e não vão empregar. Gerar empregos é o desafio mais imediato para conter a catástrofe social.

Há outros desafios, claro, no caminho da recuperação econômica. Se a vacinação não acelerar, se novas variantes do coronavírus surgirem, as mortes voltarem a subir, houver mais fechamentos das cidades, qual será o efeito? Se a demanda pelas commodities começar a arrefecer, o que pode acontecer?

A inflação também pode provocar algum desarranjo. Alguns analistas já veem o IPCA chegando a mais de 8% neste meio de ano no acumulado em 12 meses. O IGPM anual está perto de 40%, puxado exatamente pela disparada das commodities. Com isso, o juro básico (a Selic) já está subindo, e as previsões para o ano já chegam a 6,5%. Ainda baixo para o padrão Brasil. Mas não é mais o juro de 2% do início do ano.

E tem as reformas, claro. Sempre apontadas como fundamentais para o crescimento sustentado do País, mas sempre negligenciadas. A tributária, fatiada no Congresso, caminha para ser apenas um arremedo de reforma, com impacto muito menor do que as empresas, principalmente, realmente precisam. A administrativa, também fundamental para modernizar a estrutura do Estado e reduzir os gastos do governo, também parece que dificilmente vai andar - como revelado aqui no Estadão, o presidente Bolsonaro não parece que vai mover alguma palha em prol dessas mudanças. 

Ou seja, o PIB do primeiro trimestre surpreendeu e isso é algo para ser comemorado. Mas a trajetória da recuperação ainda tem obstáculos demais a serem removidos.

*EDITOR DE ECONOMIA 

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'Não vemos terceira onda com força para reduzir atividade econômica', diz sócia da Tendências

Para a economista Alessandra Ribeiro, pandemia, vacinação lenta e crise energética são riscos que podem limitar crescimento, mas não mudar tendência de recuperação

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 15h24

Até fevereiro, o clima entre os economistas era de pessimismo geral. Aos poucos, durante o último mês do primeiro trimestre, isso foi mudando, conforme saíam dados que indicavam que a atividade econômica ganhava tração. Esse movimento culminou com a divulgação, nesta terça-feira, 1º, do resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu 1,2% no primeiro semestre.

Entre os fatores que fizeram mudar o panorama econômico estão o impulso decorrente do crescimento dos Estados Unidos e da China e a ineficácia das medidas de isolamento social, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Assim, o recrudescimento da pandemia que começa a ser verificado agora também não deve ser suficiente para mudar o rumo da economia. 

“Está cada vez mais difícil levar as pessoas ao isolamento. Uma terceira onda aparece como risco no sentido de limitar a expansão da economia, mas vemos esse efeito perdendo força para trazer a atividade econômica muito para baixo”, destaca Alessandra. Outros riscos no radar são a lentidão na vacinação e a crise energética, de acordo com a economista.

Apesar de a recuperação começar a se consolidar, ela deve vir acompanhada de uma desigualdade ainda maior, acrescenta Alessandra. “O que observamos é que o mercado de trabalho formal tem mostrado recuperação e o informal ainda está num ritmo lento. Olhando para frente, essa é a tendência.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Houve um momento no primeiro trimestre em que parecia que a economia ia se deteriorar ainda mais. Os economistas estavam pessimistas com a aceleração da segunda onda da covid, a desvalorização do real e a interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás. O que aconteceu para esse cenário mudar?

Nós, na Tendências, também estávamos entre os mais cautelosos com a atividade econômica. Tínhamos uma projeção de queda de 0,6% no PIB do primeiro trimestre, depois atualizamos para alta de 1%. Teve uma surpresa com a resiliência da economia brasileira nesses primeiros meses do ano. Tínhamos alguns fatores de preocupação: o fim do auxílio emergencial até março e o efeito disso no consumo, ao lado das pressões inflacionárias em itens muito sensíveis na cesta de consumo, como alimentação e combustível. Ao mesmo tempo, havia uma incerteza grande em relação à situação fiscal, com aquele imbróglio no Orçamento limitando o apetite para decisões de consumo e investimento. Demos muito peso para esses elementos. Talvez tenhamos subestimado algumas coisas. O primeiro fator importante é o cenário externo: a melhora na China, nos Estados Unidos e também na Europa, mas aí um pouco menos. Isso teve um efeito importante para as economias emergentes. Temos exportações importantes tanto de commodities como de produtos manufaturados. Em relação ao consumo, se de um lado teve um efeito negativo em classes mais baixas, teve outro efeito nas classes mais altas. Essas voltaram a consumir, especialmente até fevereiro. Vimos isso batendo em vendas de bens duráveis, como automóveis. No investimento, também houve um efeito positivo nas linhas relacionadas à agropecuária e ao transporte. Outro ponto é que as medidas de isolamento tiveram menor eficácia. Houve uma queda na mobilidade na segunda quinzena de março, mas muito menor do que no ano passado.

Estamos, então, crescendo à custa de mortes? Ou por que as exportações de commodities estão em alta graças às economias chinesa e americana?

Do lado externo, há um suporte importante. Quando EUA crescem 6,5% e China, 8,5% ao ano, o efeito na gente é grande tanto do ponto de vista de commodities como do de manufaturados. Nesse primeiro trimestre, a agropecuária puxou o crescimento na margem, e muito baseado na soja. A indústria extrativa também ajudou. Mas também tem, sim, a questão de as medidas de isolamento terem menos eficiência, e o reflexo disso aparece no número de mortes. Agora, outro ponto é a própria adaptação de muitos negócios à pandemia. O pessoal não fica mais paralisado como no começo, aprendeu a lidar com a quarentena.

O PIB cresceu, em parte, porque não houve uma redução significativa da circulação de pessoas. Isso dá espaço para o contágio do coronavírus se acelerar novamente. Qual impacto podemos esperar da pandemia na economia nos próximos trimestres?

À luz do que a gente aprendeu nesse começo de ano, tenderia a achar que os efeitos de uma terceira onda para a economia devem ser similares aos do primeiro trimestre. Está cada vez mais difícil levar as pessoas ao isolamento. Uma terceira onda aparece como risco no sentido de limitar a expansão da economia, mas vemos esse efeito perdendo força para trazer atividade econômica muito para baixo. Além desse risco, temos outros: o ritmo de vacinação lento e a questão energética. Todos esses elementos parecem mais como limitadores, mas não como fatores que vão mudar dramaticamente o cenário de crescimento deste ano. Sobre a crise energética, vários especialistas têm falado que é difícil ter aquele quadro de 2001, com uma restrição fortíssima na oferta. Devemos ter energia mais cara com risco de blecautes pontuais. Muitos economistas estão falando de um PIB de 5% neste ano, achando que vai ter até um ‘boom’ a partir do terceiro trimestre, conforme se tenha mais pessoas vacinadas. Nós estamos com 4%. Até vemos uma aceleração no terceiro e no quarto trimestre, mas ainda temos posição mais cautelosa por causa desses riscos.

A taxa básica de juros, a Selic, em um patamar baixo ajudou a economia no primeiro trimestre. O Banco Central, porém, começou a elevá-la. Essa mudança pode segurar a economia no fim do ano?

Mesmo com a mudança na política monetária, ela continuará estimulativa. Vai dar menos suporte para a economia, mas ainda vai dar. O juro neutro hoje é estimado entre 6,5% e 7% por algumas casas. Abaixo desse patamar, ainda é estimulativo. Nós estamos projetando 5,5% de juros para o fim do ano.

O agronegócio, um setor que emprega pouco, foi o que mais cresceu no início do ano. A sra. também comentou que, no primeiro trimestre, houve queda no consumo entre as rendas mais baixas e aumento entre as mais altas. Esses fatos indicam que veremos uma retomada mais concentradora de renda?

Esse é o cenário. A crise foi muito regressiva e afetou muito mais os mais pobres do que os mais ricos. O que observamos é que o mercado de trabalho formal tem mostrado recuperação, e o informal ainda está num ritmo lento. Olhando para frente, essa é a tendência. Trabalhadores formalizados, com maior escolaridade, tenderão a puxar mais do que o informal.

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