Crescimento e inflação na China

Em março, o índice de preços ao consumidor avançou 5,4% em relação ao mesmo período do ano passado, o maior aumento registrado em 32 meses

David Barboza, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2011 | 00h00

Wang Jianren, um aposentado de 56 anos que vive nesta agitada cidade de 20 milhões de habitantes, diz que ao longo dos anos a China se beneficiou enormemente com o rápido crescimento econômico. Mas, como tantas outras pessoas aqui, ele se queixa de que a inflação começa a engolir esses ganhos.

"Os preços subiram muito", disse Wang ontem, na feira. "É muito ruim essa gangorra dos preços. Preços instáveis deixam as pessoas nervosas e tornam a sociedade instável. Nesse sentido, nossa geração chega a ter saudade da era de Mao."

A China se encontra hoje nesta difícil situação: o crescimento acelerado fez disparar os motores econômicos do país, mas também provocou uma inflação persistentemente alta, que ameaça superaquecer a economia e comprometer a expansão que o país vem registrando seguidamente.

Na sexta-feira, tivemos uma confirmação disso, quando a China anunciou que a atividade econômica cresceu 9,7% no primeiro trimestre deste ano, com certeza o desempenho mais elevado entre as maiores economias mundiais. Mas o governo anunciou também que, em março, o índice dos preços ao consumidor subiu 5,4% em relação ao mesmo período do ano passado, o maior aumento em 32 meses.

Os analistas não se surpreenderam com os novos dados, mas alguns especialistas acreditam que os números podem estar aquém da taxa real de crescimento e da inflação. Por exemplo, os empréstimos bancários se recuperaram consideravelmente no mês passado, e, este ano, os preços dos alimentos, da energia e das matérias-primas tiveram um grande aumento. Somente no mês de março, disse o governo, os preços dos alimentos subiram 11,7%.

Para impedir um superaquecimento, Pequim tenta frear o crescimento e conter a inflação. Nos últimos seis meses, aumentou as restrições aos empréstimos bancários, elevou os juros, aumentou os subsídios à agricultura e até mesmo impediu que as companhias chinesas elevassem os preços ao consumidor.

Entretanto, os analistas afirmam que os resultados não chegam a convencer. O crescimento começou a se reduzir desde o ritmo espantoso de 10% ao ano em 2010, mas a inflação não cedeu; na realidade, aumentou. Segundo alguns analistas, é possível que a inflação atinja o pico em junho.

Embora o governo tenha prometido frear o mercado imobiliário, os preços dos imóveis residenciais continuam subindo, e grande parte do crescimento do país continua sendo alimentado pelos projetos imobiliários e pelos investimentos do governo em infraestrutura.

No primeiro trimestre deste ano, os investimentos em ativos fixos, um parâmetro abrangente da atividade do setor da construção, registraram um salto de 25% em relação ao mesmo mês do ano passado e os investimentos imobiliários tiveram um crescimento de nada menos que 37%, informou o governo na sexta-feira.

Os preços da gasolina também subiram acentuadamente, acompanhando os preços globais do petróleo. Na China, os preços da gasolina aumentaram de cerca de US$ 3,82 o galão (3,8 litros), ou US$ 1 o litro, em 2009, para cerca de US$ 4,50 o galão hoje. As cadeias de fast food elevaram os preços, e, somente no ano passado, o preço da fruta subiu mais de 31%. Os preços das exportações também estão aumentando por causa da elevação dos custos das commodities, das matérias-primas e da mão de obra. E como a China é o maior exportador mundial, o que ocorre em suas fábricas das regiões costeiras do país poderá influir consideravelmente nos preços em outras partes do mundo.

Na realidade, nas principais zonas exportadoras da China, os gerentes das fábricas costumam queixar-se da escassez de mão de obra e do aumento dos custos trabalhistas.

O governo estimulou o aumento dos salários na esperança de reduzir a enorme disparidade das rendas entre ricos e pobres, e entre a população urbana e a rural. Mas isto contribuiu para elevar os custos da produção.

Muitos analistas afirmam que o governo terá de fazer muito mais para domar a inflação.

"Apesar do período de aperto mais agressivo dos últimos anos, o governo aparentemente não consegue desacelerar a economia", escreveu Alistair Thornton, analista da IHS Global Insight, em um relatório de pesquisa na sexta-feira. "Com as expectativas de inflação ainda muito fortes e os preços a níveis desconcertantes, o governo terá de persistir na sua política de aperto."

O atual boom da China começou no início de 2009, durante a crise financeira global, quando Pequim acelerou agressivamente a expansão econômica com um pacote de estímulo de US$4 trilhões e empréstimos recordes pelos bancos estatais.

Uma política monetária pouco restritiva e enormes investimentos em projetos públicos locais revigoraram uma poderosa expansão econômica que, segundo os analistas, provocou vertiginosos aumentos dos preços dos terrenos, das habitações e dos alimentos.

Entretanto, já no início de 2009, começaram as preocupações com o crescimento chinês, em grande parte por causa do temor do aumento dos preços dos imóveis, dos elevados empréstimos bancários e dos investimentos excessivamente agressivos dos governos locais, muitos dos quais haviam acumulado enormes dívidas. Nos últimos meses, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e um grande número de economistas vêm advertindo a China de que uma eventual bolha do crédito e dos ativos poderá comprometer seriamente a expansão da nação. Alguns especialistas sugerem que a enorme alta dos preços poderá se desfazer, levando a uma onda de empréstimos podres nos grandes bancos estatais. Por enquanto, a principal preocupação da China é combater a inflação e impedir que a alta dos preços dos imóveis residenciais alimente a agitação social.

O governo já prometeu gastar bilhões de dólares nos próximos anos oferecendo habitações a preços acessíveis. E Pequim afirmou que fará todo o possível para deter a escalada dos preços dos produtos de consumo diário, ordenando inclusive às companhias que não aumentem o preço dos seus produtos.

Mas, na opinião de muitos especialistas, as medidas do governo também poderão ser contraproducentes. Por exemplo, não permitir que as companhias elevem os preços poderá levar a uma pressão inflacionária ainda maior e a criar outras distorções no mercado, afirmam.

Outra tática adotada pelo governo são os investimentos pesados na irrigação de fazendas em áreas sujeitas a grandes secas, com a oferta de subsídios agrícolas e a redução de impostos e tarifas dos transportes. Mas muitos produtores rurais afirmam que estas medidas não funcionam.

Chen Weihong, 42, que dirige uma granja de verduras na província de Sichuan, na região central do país, disse que seu negócio foi afetado pela alta dos preço do diesel e das matérias-primas. Mas principalmente, afirmou, seu problema é o custo da mão de obra. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.