Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Apesar de baixo, crescimento da economia está perto da capacidade máxima, mostra estudo da FGV

Queda da capacidade produtiva reduziu a diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial, o chamado ‘hiato do produto’; pesquisador da FGV ressalta que essa redução não é comum

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2022 | 19h40

RIO - A economia brasileira está próxima de alcançar a sua capacidade máxima produtiva, fechando assim o chamado hiato do produto, diferença entre o crescimento efetivo do Produto Interno Bruto (PIB) e o PIB potencial. No entanto, o fenômeno ocorreu por uma redução dessa capacidade produtiva, e não por um avanço mais contundente da atividade econômica, que permanece aquém do ápice registrado em 2014, mostra um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

A estimativa sugere que a economia brasileira tem menos espaço para se expandir sem que gere uma inflação de demanda. No quarto trimestre de 2021, o hiato do PIB foi de -0,4%, calcularam os pesquisadores Elisa Andrade, Claudio Considera e Juliana Trece, da FGV. Um ano antes, ao fim de 2020, o hiato do produto como um todo estava em -3,2%. 

A capacidade ociosa permanecia mais elevada na indústria, cujo hiato era de -2,5% no último trimestre de 2021, enquanto nos serviços o resultado estava em -0,6%.

“Não foi porque cresceu a economia, foi porque o produto potencial caiu”, resumiu Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV.

O pesquisador explica que houve uma redução da ociosidade da economia brasileira nos últimos anos provocada por uma perda da capacidade produtiva.

“Isso não é uma coisa comum: reduzir o produto potencial. O comum é o hiato se fechar porque o produto efetivo está se aproximando do potencial. O PIB potencial poderia até estar crescendo menos, mas o que ocorreu com ele não é normal, é que ele vem caindo desde o segundo trimestre de 2019. O efetivo também cai, por conta da recessão”, explicou Considera.

O estudo da FGV mostra que o hiato começou a crescer durante a recessão econômica iniciada em 2014, quando o PIB efetivo passou a cair, enquanto que o PIB potencial continuava avançando. O PIB potencial oscilou positivamente até 2017, quando entrou em trajetória de queda, seja pela perda da produtividade do capital seja pela perda da produtividade do trabalho.

O choque provocado pela pandemia de covid-19 aumentou repentinamente a diferença entre o PIB potencial e o PIB efetivo, mas a recuperação da atividade econômica nos trimestres seguintes e a manutenção da tendência de queda do PIB potencial praticamente eliminaram esse hiato ao fim do ano passado.

O levantamento da FGV considera o PIB efetivo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estima o PIB potencial através da produtividade total dos fatores, que considera a capacidade instalada de capital e a utilização da oferta de mão de obra.

“Após atingir seu ponto mínimo no segundo trimestre de 2020, como reflexo do choque econômico causado pela pandemia, nos dois trimestres seguintes houve recuperação do PIB, do Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) e dos indicadores de mercado de trabalho. Dessa forma, reduziu-se a diferença entre o produto efetivo e seu potencial. No quarto trimestre de 2021 o hiato praticamente fechou, registrando -0,4%”, escreveram os pesquisadores, no estudo.

O hiato entre o PIB efetivo e o PIB potencial é um dos elementos acompanhados pelo Banco Central para determinar os rumos da política monetária no País. O hiato indica a capacidade que a atividade econômica tem para crescer sem que gere pressões inflacionárias.

O cálculo da FGV, porém, diverge do mencionado pelo Banco Central no último Relatório de Inflação, divulgado em março deste ano. A autoridade monetária estimou que o hiato foi de -1,6% no quarto trimestre de 2021, com tendência de crescimento no primeiro trimestre de 2022.

O PIB chegou ao fim de 2021 em patamar 0,5% acima do quarto trimestre de 2019, período pré-pandemia, mas ainda 2,8% abaixo do pico alcançado no primeiro trimestre de 2014, informou o IBGE à época da última divulgação das Contas Nacionais Trimestrais, também em março deste ano.

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