Crescimento industrial ainda ampliará importações

A manutenção do ritmo de crescimento da indústria brasileira deve continuar a pressionar a balança comercial do País em 2001. O aquecimendo da atividade produtiva vai atrair mais insumos, matérias-primas e componentes importados, embora o melhor desempenho dos produtos agrícolas possa evitar um déficit expressivo ao final do ano, na avaliação de analistas. O diretor da área de Economia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização (Sobeet), Antônio Correa de Lacerda, estima um saldo negativo entre US$ 1 bi e US$ 2 bi em 2001, diante de US$ 667 mi em 2000. No ano passado, só o setor eletroeletrônico registrou déficit de U$ 7 bi, apesar do crescimento de 36% das exportações e de 20% das importações em relação a 1999. O déficit pode chegar a US$ 8 bi este ano, na opinião de Lacerda, com a chegada das novas tecnologias de telefonia móvel (bandas C, D e E). Para o economista, três setores ainda representam preocupação em função da dependência externa: o de eletroeletrônicos, produtos químicos e farmacêuticos e metal-mecânico. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) trabalha com a previsão de crescimento de 20% das importações de bens de capital em 2001 por todos os setores produtivos, incentivadas pela recente redução das alíquotas de importação de bens de capital de 5% para 4% no caso dos 414 produtos na lista de ex-tarifários e de 18% para 14% para os demais bens de capital. A balança, entretanto, conseguirá um equilíbrio em função das exportações de produtos agrícolas e redução dos preços do petróleo. Vaca louca - O economista da Tendências Consultoria Integrada, Fábio Silveira, avalia que a demanda por farelo de soja vai crescer com a substituição da proteína animal nas rações para alimentar bovinos em países onde houve registro da doença da vaca louca. O farelo deve ajudar a puxar os preços também da soja em grão. Outro alívio, afirmou Silveira, virá por meio da queda nos preços do petróleo no mercado internacional. O produto, que pressionou fortemente a balança no ano passado em janeiro deste ano, já está com preços menores e deve cair ainda mais, com reflexos também sobre os petroquímicos e derivados, dos quais o Brasil é grande importador. "Não vamos dizer que a situação não preocupa, mas é preciso filtrar as informações", afirmou Silveira, que projeta um déficit de US$ 1 bi em 2001. Ele destaca que a situação ficará mesmo delicada caso os commodities agrícolas e o petróleo não tenham a reação esperada. "O problema de nossa balança é depender demais de expectativas, que causam muita oscilação nos preços das commodities, ao contrário de produtos de médio ou alto valor agregado", explicou. Silveira apontou ainda dois fatores que podem refrear o crescimento econômico brasileiro e conter as importações. O primeiro é o ritmo lento de recuperação da massa salarial, o que evita um crescimento muito grande de demanda. O outro é o aumento da inadimplência, decorrente da expansão muita rápida das operações de crédito verificada no ano passado. A Associação Comercial de São Paulo já apontou em janeiro uma elevação dos registros de atraso de 20% sobre dezembro e 51% sobre janeiro de 2000. "Os números não têm uma relação direta entre si, mas mostram que os consumidores ainda não aprenderam a gastar", afirmou Silveira. Para ele, estes fenômenos vão controlar o fluxo de importações que viriam mais para frente.

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