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Crescimento: não podemos contar com impulso externo

Acabou o período no qual o mundo tinha um comportamento benigno

Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2018 | 05h00

Conhecidos os dados do PIB dos três primeiros trimestres, sabemos que em 2018 o Brasil deve ter crescido 1,3%, e já há no mercado financeiro projeções de um crescimento maior em 2019. Há projeções mais otimistas e mais conservadoras, mas não quero entrar nessa “bolsa de apostas”. Quero apenas chamar atenção para o fato de que, qualquer que ele seja, terá de contar com forças domésticas, principalmente a formação bruta de capital fixo, e não as vindas da economia internacional. 

Mudou o cenário mundial. Na Europa, as taxas de crescimento da produção industrial da França, Espanha, Itália e Alemanha, caíram ao longo de 2018. O ano se iniciou com taxas anuais em torno de 4% e termina com taxas nulas, com reflexos na clara desaceleração do PIB na área do euro. Eventos políticos – como a crise enfrentada por Macron, na França; a substituição de Merkel, na Alemanha; o choque entre a Itália e a União Europeia sobre as metas fiscais; a incerteza sobre o Brexit, na Inglaterra, e a profunda crise vivida pela Turquia – acentuam essa tendência.

Dani Rodrik (The Globalization Paradox) chama atenção para as contradições enfrentadas pelos países na área do euro. Tendo renunciado à sua própria moeda, o que lhes permitiria beneficiar-se da flutuação cambial e de estímulos monetários em períodos de queda de crescimento, somente lhes restaria recorrer a um governo supranacional que elevasse os gastos nas áreas deprimidas, reduzindo-os nas áreas em expansão, renunciando à sua autonomia fiscal. Cada país isoladamente perderia o poder de responder aos seus eleitores em troca de um governo para o conjunto dos países, sem qualquer caráter nacional. Nenhum deles está disposto a tal entrega de soberania o que, como adverte Rodrik, dificulta ou mesmo impossibilita a longo prazo o sucesso da área monetária. 

Por algum tempo existiram ganhadores, como a Itália, cuja dívida de mais de 120% do PIB somente não é insustentável devido à taxa de juros (muito) mais baixa que a permitida pela credibilidade proporcionada pelo BCE. Porém, tem que conviver com uma moeda (o euro) que é nitidamente mais forte do que seria a lira italiana, perdendo competitividade. Enquanto isso a Alemanha tem uma moeda (o euro) mais fraca do que seria o marco alemão, ganhando um elevado bônus de competitividade. Se de um lado a criação do euro favoreceu a Itália, porque escondeu os efeitos de seu desequilíbrio fiscal, de outro a tornou incapaz de competir com países fiscalmente mais responsáveis dentro da área, como a Alemanha, entre outros. Com a taxa de juros praticada pelo BCE no zero bound não há mais qualquer estímulo monetário possível, e a tentativa de exercer políticas fiscais contra cíclicas esbarra nas amarras impostas por Bruxelas às políticas fiscais dos países membros. 

Nos EUA, também se inicia uma desaceleração. Com a expansão fiscal e a guerra comercial, Trump tentou acelerar o crescimento. Mas eram remédios errados para uma doença errada. A forte expansão da demanda doméstica manteve os déficits na balança comercial e nas contas correntes que, como sabemos, são consequência de uma demanda total doméstica (a absorção) superior ao PIB, e não de desequilíbrios bilaterais com outros países. Em vez de corrigir o desequilíbrio ajustando a política fiscal, Trump preferiu olhar para a China, elevando tarifas, mas com a absorção continuando a exceder o PIB o déficit comercial e em contas correntes permanece elevado, e o único resultado colhido pelo aumento de tributação das importações da China é a queda dos déficits bilaterais com aquele país. O erro de Trump somente não elevou a inflação porque o Federal Reserve é politicamente independente e está vigilante na busca da estabilidade de preços. O ciclo de elevação de taxa de juros, que Jerome Powell indicou estar próximo do fim, já vem reduzindo a demanda agregada e o crescimento dos EUA, o que acentua a desaceleração mundial. 

Não falamos sobre o PIB da China e dos emergentes, que também vêm sofrendo reduções no crescimento. A moral da história é que se acabou o período no qual o mundo tinha um comportamento benigno, e o Brasil podia beneficiar-se do impulso externo. Se o Brasil quiser acelerar a recuperação cíclica e atingir um crescimento sustentado, terá que fazê-lo com seu próprio esforço.

*EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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