'Crescimento potencial caiu no governo Dilma'

Economista da FGV diz que o intervencionismo e o capitalismo de Estado afugentam investimentos e prejudicam a economia

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2012 | 02h05

A economista Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio (Ibre/FGV), afirma que o crescimento potencial do País caiu em relação ao governo Lula, especialmente no segundo mandato. O crescimento potencial mede quanto uma economia pode crescer sem provocar desequilíbrios, como a alta da inflação. Para Silvia, o excesso de intervencionismo do governo depois da grande crise global provavelmente explica a perda de eficiência da economia que, em sua visão, compromete a capacidade de crescimento do País.

O que explica a desaceleração da economia brasileira?

A desaceleração este ano vem com uma provável queda da produtividade total dos fatores, que é o termo que os economistas usam para designar a eficiência da economia. O crescimento esperado nos três primeiros anos do governo Dilma é quase a metade do que foi no período do Lula. Não só é um crescimento baixo, mas um crescimento de pior qualidade.

O potencial de crescimento da economia brasileira caiu?

Diferentes metodologias apontam na mesma direção: crescimento menor e de pior qualidade, que se reflete em menor potencial. Uma dessas estimativas coloca o potencial em 3,8% durante o primeiro governo Lula, e em praticamente 4% no segundo mandato. No governo Dilma, incluindo projeções para 2013, seria 3,16%, mas podemos dizer que é algo entre 3% e 3,5% - certamente menos que 4%. Em boa parte do governo Lula, a taxa de desemprego foi caindo. Usamos a mão de obra disponível para um crescimento maior. Esse fator perdeu força a partir de 2007 e 2008. A população em idade de trabalhar está crescendo em ritmo mais lento. A contribuição da mão de obra disponível caiu muito.

E a produtividade?

O grande mérito do governo Lula foi manter a estabilidade e promover reformas num primeiro momento. O crescimento anual da produtividade foi em torno de 2% no segundo mandato. Foi uma fase em que se investiu mais, se acumulou mais capital, e ele foi mais bem usado, o que se reflete no nível de ocupação da capacidade instalada. Hoje, para crescermos mais, teríamos de investir muito mais, porque o crescimento não pode vir do fator trabalho. O crescimento da produtividade nos três primeiros anos do governo Dilma, incluindo nossa projeção para 2013, é de apenas 0,35% ao ano. Investe-se pouco, não tem como tirar o crescimento do fator trabalho e não estamos conseguindo ganhos de produtividade.

O investimento pode crescer?

Devemos ter investimento negativo este ano. O investimento está relacionado à eficiência da economia, que é medida pela produtividade. Como ela está caindo, isso deve afugentar o investimento. Existe uma correlação importante entre investimento em infraestrutura e produtividade. Nos últimos anos, houve queda do investimento público em infraestrutura.

Isso não reflete a crise global?

Há o fator externo, mas outros países latino-americanos estão num bom momento. Os investimentos do Chile chegaram a 28% do PIB. Colômbia e México são países que estão mantendo um crescimento satisfatório.

Por que nossa eficiência cai?

O intervencionismo e o que eu chamo de 'microgerenciamento' por parte do governo podem estar influenciando nisso. Quando medimos a produtividade, há um fator cíclico. Ela cresce mais em anos em que o PIB cresce mais, como 2010, e cai quando o PIB se contrai, como em 2009. Mas se tomamos a tendência da produtividade, ela indica essa queda nos últimos anos. A partir da crise, começaram a ser tomadas medidas pontuais para incentivar e privilegiar setores escolhidos. Depois da crise houve um enorme aumento dos repasses do Tesouro para o BNDES. A reação do governo à crise foi a de aumentar a interferência nos mercados, de uma forma talvez meio caótica, instável, com mudanças de regras, que pode ter tido efeitos colaterais de perda de eficiência econômica.

Foi a política anticíclica?

Sim, mas em vez de aumentar os investimentos, a política anticíclica foi muito mais na base de ampliar gastos correntes. Foi uma política meio keynesiana, mas do lado errado.

O pacote de barateamento da energia é intervencionismo?

A presidente Dilma comprou a ideia correta de que temos de ser eficientes. Mas, no caso do pacote elétrico, o governo quer controlar o preço e a quantidade. Ele quer o menor preço, mas também quer que a quantidade seja ótima. Há ineficiência nesse setor. Todos os serviços de utilidade pública no Brasil são caros. Mas não se consegue essa mudança de maneira tão brusca. O efeito colateral é prejudicar o mercado.

Como a sra. definiria a atual política econômica?

Estamos um pouco no meio do caminho, às vezes dando a impressão de que queremos caminhar um pouquinho mais para o lado da Argentina. Então a gente fica nessa zona nebulosa, querendo algum tipo de capitalismo de Estado, que pode acabar afugentando ainda mais o investimento./ F.D.

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