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Criador de búfalo cuida melhor do pasto

Pequenas modificações no trato com gramíneas, como calagem e adubação, fazem dobrar produção leiteira

José Maria Tamazella, de O Estado de S. Paulo,

19 de outubro de 2011 | 03h08

Criadores de búfalos do Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, estão conseguindo dobrar a produção de leite a pasto sem a necessidade de suplementar a alimentação do rebanho ou de abrir novas áreas para pastagem. A região detém a maior reserva contínua de floresta atlântica do País e convive com severas restrições ambientais.

A adoção de técnicas simples de manejo dos pastos, como calagem do solo e pastejo rotacionado, já resultaram num ganho expressivo de produtividade. Animados, alguns produtores partem agora para a adubação das pastagens e o enriquecimento com forrageiras.

O Brasil está entre os maiores criadores de búfalos do Ocidente e uma parte expressiva do rebanho nacional está no Vale do Ribeira. São 28 mil cabeças - 24% do rebanho paulista - nas mãos de 220 criadores, a maioria de pequeno e médio porte, com até 120 animais.

Por ser um animal de alta rusticidade, o búfalo brasileiro é criado essencialmente no pasto e sofre com a falta de alimentação adequada. "Como o búfalo consegue transformar quase tudo o que ingere em proteína, o criador acha que não precisa dar atenção à comida, por isso a produção de leite é baixa", explica o presidente da Associação dos Criadores de Búfalos do Vale do Ribeira, Pedro Paulo Assef Delgado.

Média crescente. A média nacional é de dois litros por vaca ao dia e a do Vale do Ribeira está em três litros por dia, mas continua subindo. Alguns produtores já tiram cinco litros por búfala em uma única ordenha.

O programa de melhoria da produção, conduzido pela Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado, ultrapassa as fronteiras da região. Já são cerca de 200 os produtores paulistas envolvidos, alguns de outras regiões produtoras, como Itapetininga e São Carlos.

O médico veterinário Nelcio Antonio Tonizza de Carvalho, pesquisador científico da unidade, conta que o programa se apoia em três medidas básicas: correção da acidez do solo com calagem nas áreas de pasto, divisão em piquetes para o pastejo rotacionado e seleção do rebanho, com o descarte das búfalas não produtivas.

Carvalho conta que os búfalos da região são de uma linhagem genética muito boa, desenvolvida pelo criador Vanderlei Bernardi, já falecido. "Com uma genética dessas, um pouco que se melhore na alimentação já reflete na produção de leite."

Tratos culturais. A simples calagem, segundo ele, melhora substancialmente a qualidade dos pastos da região, que apresenta índice elevado de umidade mesmo no inverno. Numa etapa seguinte, os produtores passam a fazer o controle das invasoras e enriquecem a braquiária, o capim mais frequente, com leguminosas. Muitos já estão adubando o pasto. Com a inseminação artificial, os criadores rompem a estacionalidade das búfalas, que naturalmente dão cria no inverno, período com menos fartura de pastagem. "Com a quebra da sazonalidade, eles podem obter crias e produção de leite no ano todo", conta Carvalho.

Entre os que já colhem resultados do programa está Delgado, o presidente da associação. Com um plantel de 270 animais na fazenda Santa Helena, em Sete Barras, ele tem 70 búfalas em lactação e retira 300 litros por dia. "Com a inseminação artificial, passamos a ter produção constante o ano todo", disse.

Delgado dividiu a pastagem em 32 piquetes com 5 mil metros quadrados cada e usa fios levemente eletrificados para conter o gado. A próxima etapa será adubar o pasto, enriquecer com leguminosas e reduzir o tamanho dos piquetes para 1 mil metros quadrados. "As búfalas entram nesse piquete, ficam o dia todo comendo e são retiradas, passando para o seguinte", detalha. Com isso, ele espera atingir produção de 5,8 litros/dia por animal.

Custos. O custo do manejo sai a R$ 1 por animal em média, mas o retorno compensa. O litro de leite de búfala na região estava cotado em R$ 1,20 na semana passada, enquanto o produto da vaca estava em R$ 0,70.

Delgado vende apenas o excedente, pois a maior parte de sua produção é usada na produção de queijos por meio de parceria com um laticínio. "Meu queijo tem marca própria e é a principal atividade da fazenda", diz.

Com 90 hectares de pasto, ele complementa o trato com sais minerais e, eventualmente, com cevada, produto que considera caro. "Como não temos cervejaria não região, trazemos de Boituva e, por causa do frete, o preço do quilo sai a R$ 1,90", diz o produtor.

O pequeno produtor Benedito Ferreira, de Barra do Turvo, também aderiu ao manejo do pasto e a média de produção das 14 búfalas saltou para 4,2 litros/dia. Além de fazer a calagem, ele fez o controle das ervas daninhas e, com a ajuda do filho, eliminou cupinzeiros que tinham se formado na área de pastagem.

A área foi dividida em piquetes, alguns localizados em uma várzea, com alta produção de capim. Ferreira usa ainda cana moída para suplementar a alimentação das búfalas nos períodos de seca. Ele pensa em aumentar o rebanho. Com o pasto tratado e o sistema de rotação, é possível elevar a lotação, hoje de menos de um animal por hectare, para até seis animais por hectare.

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