Patrícia Cruz/Agência Estado
Obras estruturais podem ser forma de reanimar emprego Patrícia Cruz/Agência Estado

Criar emprego será o desafio no pós-crise

Para economistas, governo deve impulsionar setores que geram mais vagas, como a infraestrutura, após o pior da pandemia passar

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 05h00

Na avaliação de economistas ouvidos pelo Estadão, os impactos da pandemia do novo coronavírus no mercado de trabalho devem marcar uma geração de brasileiros que já sofria com a recuperação acanhada dos empregos após a recessão de 2015 e 2016. Em abril, a taxa de desocupação era de 12,6%, de acordo com dados da Pnad Contínua, do IBGE, mas as projeções são de que deve chegar a 17% ou 18% até o fim do ano.

Quando a crise passar, o desafio será impulsionar setores que geram mais emprego, como o de infraestrutura, em uma realidade de consumo das famílias ainda reprimido e endividamento público elevado. 

Para Hélio Zylberstajn, professor sênior da Universidade de São Paulo (USP), o governo precisa ser estratégico e aproveitar as carências do País para promover setores geradores de emprego. Ele lembra que, na quarta-feira, o Senado deve votar o novo marco regulatório do saneamento básico, que pode destravar investimentos. 

“Uma das grandes vantagens de ser um País com tanta coisa a ser feita é poder vislumbrar saídas para o ano que vem, quando se espera que a economia poderá começar a ser recuperada. O Brasil, se tiver dirigentes com a cabeça no lugar, tem tudo para voltar a crescer. Mas é preciso bom senso e confiança”, diz Zylberstajn. 

Planejamento

Segundo Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), é preciso que o governo pense no dia seguinte à quarentena, planejando ações e medidas para garantir a renda dos brasileiros sem emprego.

“Além disso, é preciso organizar iniciativas públicas capazes de criar milhões de novas ocupações no curto prazo. Caso seja mantida a dinâmica anêmica da economia brasileira observada antes da crise, o País levará 20 anos para gerar os postos de trabalho necessários para ocupar esse contingente de pessoas”, avalia Ganz Lúcio.

Para ele, mesmo assim é difícil imaginar o dia seguinte, porque não se sabe quanto tempo vai ser preciso para vencer a crise. “Podemos ter de conviver com isolamentos parciais, de tempos em tempos. Por isso, será preciso uma reorganização da economia.”

Ele ressalta que o governo deveria parar de semear crises e se mobilizar em torno de uma estratégia pela geração de empregos, com investimentos e financiamentos de longo prazo. “É preciso ter o Estado como indutor de investimentos em infraestrutura. Só que, enquanto outros países trabalham para construir a saída, o governo brasileiro quer voltar à agenda do ano passado. Como é possível, se o País não será o mesmo?”

Para Marcel Balassiano, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a recuperação do emprego, pelo menos em um primeiro momento, se dará pelo mercado informal. “Em outras crises, a volta do emprego acabou ocorrendo pelo mercado informal e isso faz sentido – quem perde o emprego de carteira assinada vai para a informalidade.

Para Balassiano, “esta crise atual tem milhões de diferenças, mas a recuperação tende a se dar primeiro pelo trabalho sem carteira assinada. O segundo passo a ser dado pelo governo é reforçar a ponte de crédito para que empresas saudáveis consigam atravessar esse período”. 

Ele lembra que, nos últimos sete anos, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro recuou, em média, 1,3% ao ano. “Algumas pessoas acham que a economia pode ser ligada e desligada de uma hora para outra. Não é assim. Mesmo depois que o pior passar, a recuperação será lenta.”

Sobrevivência

Enquanto a crise não passa e as soluções ainda se mostram distantes, os trabalhadores precisam descobrir como sobreviver à pandemia. O representante comercial Gabriel Nascimento, de 29 anos, por exemplo, conta que não foi apenas a queda na circulação de pessoas nas ruas por conta das medidas de isolamento que fizeram a família deixar de vender acessórios de moda para consumidores em São Paulo “O medo da covid-19 também pesou. É difícil ter de escolher entre pagar as contas ou ficar doente.”

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Covid-19 tira 1,4 milhão do mercado de trabalho por motivo de doença

Total de brasileiros que estavam desempregados, mas ficaram impedidos de trabalhar, sobretudo por estarem doentes, saltou de 3,3 milhões no trimestre até fevereiro para 4,7 milhões até abril

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 05h00

Quando Alcides da Silva, de 52 anos, começou a sentir dores e uma febre alta, ficou desesperado. Três vizinhos em Guaianazes, periferia de São Paulo, haviam morrido após contrair o novo coronavírus e, de uma hora para outra, o peso do desemprego que ele carrega há mais de um ano se somou ao medo do coronavírus. “Imagine ver as contas chegando e não poder procurar trabalho. É como olhar para os lados e não ver saída.” 

O auxiliar de limpeza viu suas chances de voltar ao mercado de trabalho ficarem ainda mais distantes quando o primeiro teste de covid-19 que fez deu inconclusivo. Ele precisa ficar em isolamento e tomando remédios. “Minha rotina virou ir ao médico. E quando se chega a uma certa idade, fica cada vez mais difícil trabalhar. Recebi duas cestas básicas de um movimento que faz ocupações para quem não tem casa. Todo mundo se ajuda, mas o dia seguinte preocupa.” 

Silva faz parte de um contingente que cresceu muito com o avanço da covid-19: o de pessoas que se tornaram indisponíveis para trabalhar, sobretudo por terem ficado doentes ou tiveram de cuidar de alguém doente.

Segundo um levantamento de Marcel Balassiano, pesquisador do Ibre/FGV, com base nos dados da Pnad Contínua, o número de brasileiros que estavam desempregados, mas ficaram impedidos de buscar trabalho por problemas pessoais – sobretudo por estarem doentes – saltou de 3,3 milhões no trimestre até fevereiro para 4,7 milhões até abril. São cerca de 1,4 milhão de pessoas, um aumento de 45%.

Essa alta é bem maior que a do número de desalentados, aqueles que deixaram de procurar trabalho por acharem que não iriam encontrar uma nova colocação, que cresceu 7% no mesmo período. O número inclui pessoas que não estavam disponíveis por conta de estudos ou mulheres que ficaram grávidas. Mas a alta expressiva aponta que a saúde foi o item que mais pesou no aumento.

E a avaliação de Balassiano é que esse quadro pode ficar ainda pior. “O País já estava em uma situação muito ruim, que o novo coronavírus só agravou. A dívida pública vai para 90% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto se tenta achar saídas para minimizar a crise de saúde. O mercado de trabalho tende a piorar”, diz. 

Em maio, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fez, em parceria com o Ministério da Saúde, uma pesquisa específica, a Pnad Covid-19. Como as amostras e os períodos são diferentes, não é possível comparar a Pnad Covid com a Pnad Contínua, mas os números de maio revelam detalhes dos efeitos da pandemia.

Eles apontam, por exemplo, que 25,7 milhões de pessoas estavam fora da força de trabalho, mas gostariam de trabalhar. Além disso, 17,7 milhões de trabalhadores não puderam procurar emprego por causa da pandemia ou não acharam uma vaga na região em que moram.

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‘As empresas precisam de oxigênio’, diz professor da USP

Economista Hélio Zylberstajn alerta para dificuldade de fazer crédito chegar aos negócios

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 05h00

Para o economista e professor da USP Hélio Zylberstajn, medidas como a redução de jornada e de salários ajudaram a frear o aumento do desemprego como reflexo da pandemia da covid-19 no País. Ele diz, porém, que a dificuldade das empresas em tomar crédito foram no sentido oposto.

As medidas adotadas pelo governo para os trabalhadores até agora foram acertadas? 

Sim, 10 milhões de pessoas mantiveram o vínculo de emprego por meio da suspensão do contrato ou pela redução da jornada e do salário. A Medida Provisória 936 foi inovadora e, se o governo prorrogar as medidas, vamos evitar mais aumento do desemprego. 

Onde as medidas deram errado? Na tomada de crédito pelas empresas durante a crise?

O que dependia do planejamento e da gestão da crise até foi feito, mas emperrou nos bancos. Eles continuaram exigindo garantias das empresas na hora de tomar crédito, apesar de o governo assumir os riscos ao financiar a folha de pagamento. O que precisa ser feito é resolver esse gargalo. Para ter emprego, as empresas precisam de oxigênio. 

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