José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Criatividade estimulada pelas cidades

Cidades populosas agora são também uma fonte de inspiração para melhorar a vida de quem mora em metrópoles

Roberta Cardoso, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2016 | 05h31

A explosão demográfica atual bate nas cidades. A gente está vendo uma transição acelerada do meio rural para o meio urbano nas últimas décadas. Esse crescimento rápido, descontrolado e sem planejamento gera grandes problemas em metrópoles, como a depredação e abandono de espaços públicos, trânsito caótico, fortes alterações em bairros, entre outros.

Ao mesmo tempo em que o crescimento demográfico traz questões de difícil solução, traz também possíveis respostas. O mundo é mais rico, divertido e inteligente com essas cidades. É melhor com elas do que sem elas pelo simples motivo de que as grandes ideias inovadoras fervilham nesses espaços. E elas são boas soluções para uso eficiente de recursos também.

Recentemente a cidade do Rio de Janeiro passou por uma dessas transformações por causa dos jogos olímpicos. Para Fabio Soares, sócio e diretor criativo da Oitozerooito, a mudança foi sentida logo um dia após a abertura da Olimpíada. Escalado para dirigir o conteúdo de projeção na festa realizada no Maracanã, Soares teve de viver na cidade por alguns meses. 

“Fiquei dois meses no Rio para esse trabalho. O que mais me chamou atenção foi que vivi numa cidade depressiva por causa do caos das obras em torno do evento. No dia seguinte à abertura da Olimpíada, quando saí pra dar uma volta, a percepção das pessoas com o que havia acontecido na noite anterior transformou a cidade.”

A onda de euforia que tomou conta do Rio de Janeiro em agosto exemplifica o sentimento dos cidadãos quando percebem os efeitos positivos de uma ação, seja ela artística ou não, no seu cotidiano. “Na Olimpíada, a gente teve a expressão da nossa cultura representada na abertura. A arte tem o poder de fazer isso. Os rituais têm poder de colocar o coletivo na mesma pulsação, na mesma vibração, no mesmo sentimento.”

Ocupações. Não é necessário que um evento de porte mundial como os jogos olímpicos aconteça para uma cidade ser transformada. Iniciativas solitárias, ou que envolvem os cidadãos, ganham espaço. Elas acontecem, não necessariamente, em cartões postais. As mudanças iniciam no bairro mesmo. 

Foi dessa forma que a arquiteta e urbanista Laura Sobral conseguiu transformar a paisagem do Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo. Cansada de ver o espaço abandonado e sem vida, ela criou o “A Batata precisa de você”, em 2014, com a proposta de ocupar o espaço público. Os encontros eram às sextas-feiras. Para chamar a atenção para a causa, Laura casou-se no espaço em 2015. “A partir do momento que você começa a interagir com a cidade você tem uma resposta muito satisfatória da comunidade.” 

A iniciativa serviu de base para a criação do Instituto a Cidade Precisa de Você, uma ONG da qual Laura é uma das fundadoras e que age e pesquisa sobre a construção social dos espaços públicos. Pelo trabalho na ONG, Laura já representou o Brasil no evento da ONU de Desenvolvimento Sustentável em Nova York, em 2015, e no maior evento sobre espaços públicos do mundo, o Future of Places, em Estocolmo, na Suécia.

“Quando entrei na faculdade de arquitetura eu pensei que ia mudar o mundo. Achava que seria a pessoa que desenha tudo o que vive. Mas com o tempo fui percebendo que nossa ideia de público e nossa cultura de uso público, tanto na parte política quanto no cotidiano, determinam muito mais uma cidade do que o desenho dela”, diz Laura. 

Revitalização. A realização de eventos noturnos em São Paulo ajuda a mostrar o potencial dos espaços abandonados. Para o produtor visual Alexis Anastasiou, um dos primeiros profissionais a fazer projeções em prédios na cidade, são justamente essas iniciativas que podem transformar a paisagem urbana. “Eu alugava projetores na sexta-feira para usá-los nas raves de sábado. No domingo, da janela da minha casa mesmo, comecei a fazer projeções nos prédios vizinhos.” 

Anastasiou reinventou as artes visuais no Brasil e hoje é um artista premiado com obras realizadas em todo o mundo. Para ele, a Virada Cultural ajudou a fomentar o uso do espaço público para manifestações culturais e também para dar vida ao Centro de São Paulo. No entanto, há muito para ser feito. 

“Depois dessas iniciativas noturnas uma geração que começou a frequentar o Centro à noite passou a contar com o bairro para fazer festas e outras manifestações artísticas, mas muitas vezes sem apoio da prefeitura.” Segundo o Anastasiou, a burocracia ainda é principal impedimento para que mais eventos aconteçam. “O poder público é quase sempre um fator que dificulta. Tirando a Virada Cultural, é muito difícil. Eles tentam regular o que está deserto.”

Como exemplo, o artista relembrou das inúmeras vezes em que tentou patrocínio na iniciativa privada para a realização de eventos na região, em 2009. Apesar de ser sucesso de público e crítica, a projeção em prédios no Baixo Augusta – como é chamada a parte da Rua Augusta que pertence ao Centro – ainda sofria preconceito. “Eu enfrentei muita dificuldade. A gente saia para pedir apoio em agências de publicidade. Elas não gostavam quando falávamos que seria no Baixo Augusta. Estavam dispostos a investir, mas queriam bairros como Jardins e Itaim. Argumentavam que ali era zona de prostituição.”

Para Souza, a questão é mais delicada. Segundo ele, trata-se de uma necessidade de explorar melhor os espaços que temos. “Somos mais de 7 bilhões de pessoas no mundo. Isso é um problema. É muita gente vivendo no mesmo lugar. E o modelo de sucesso ditado diz que você tem que ter carro, uma casa maior. Na questão do lazer, não tem lugar pra todo mundo. É insustentável esse modelo.”

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